Os sotaques e a arte da escuta: como eu aprendi inglês em Malta

Sempre tive muita vergonha de falar inglês. Não fui daquelas crianças que cresceram no cursinho de idiomas e ao ver meus amigos que dominavam a língua com naturalidade, me sentia muito insegura para me comunicar. Quando decidi fazer o intercâmbio, esse era disparado meu maior medo: a barreira da língua estrangeira. Diante desse receio, me perguntava se um lugar como Malta, com uma questão linguística tão particular, era mesmo a melhor escolha.

Senta que lá vem história

Para quem não sabe, o inglês é idioma oficial da ilha, junto do maltês, uma língua bem peculiar que só é falada naquele pedacinho do mundo. Considerado o idioma nacional, a língua maltesa surgiu no século 15, resultado de uma mistura de dialetos árabes e siciliano, com influências do italiano e do próprio inglês. E sim, essa combinação de O Clone com Terra Nostra soa bem diferente a nossos ouvidos brasileiros. Tanto que em quase um ano morando lá, a única palavra que aprendi no idioma local foi “mela”, interjeição que eles usam o tempo todo e equivaleria ao “então” ou ao “aí” que usamos para iniciar frases quando estamos contando um caso.

Então, quando é que o Inglês entra nessa história? Quase 200 anos atrás, quando Malta se tornou uma colônia britânica. Ao longo de sua história, a ilha foi conquistada, tomada e governada por diversos povos. Sua localização estratégica, bem no meio do mar mediterrâneo, era o grande motivo dessa disputa toda que envolveu árabes, italianos, espanhóis, franceses, britânicos e outras nações que nem existem mais. Até que em 1800, ela passa a ser controlada pela Inglaterra, integrando o Império Britânico, do qual fez parte até 1979. Nessa época o inglês se tornou o idioma oficial e o maltês só podia ser usado informalmente. Atualmente, os dois idiomas têm status de língua oficial, sendo que 98% das pessoas são fluentes em maltês e 88% em inglês.

Para completar essa salada mista linguística, ainda tem o italiano. Mais de dois terços dos malteses falam o idioma, que além de ter sido uma das línguas oficiais do país até 1934, está até hoje em muitos programas da TV aberta da ilha.

Aprendendo inglês em Malta: a Torre de Babel

Aprender inglês em Malta

No parque de diversões: Atividades extracurriculares são ótimas para relaxar e perder o medo da conversação

Dado todo esse contexto, você deve estar se perguntando como é estudar inglês no meio dessa miscelânea e é aqui que voltamos à minha experiência, que foi ótima. Primeiro sobre o medo do inglês: quando precisa se comunicar, ser humano se vira. Diante da necessidade de interagir com as outras pessoas (e de conseguir comida, sempre bom lembrar), fui arriscando com o que sabia, desenvolvendo na escola, conhecendo pessoas e, quando vi, estava falando.

Quando cheguei, fui classificada como pré-intermediário e, para esse nível, estudar em Malta é excelente. Por ser uma região com muitos turistas e estudantes (a ilha chega a receber cerca de 1,5 milhões de turistas por ano), logo de cara você percebe que nem todo mundo tem o domínio perfeito do idioma e que as pessoas não vão ficar julgando cada errinho seu. Assim fica mais fácil relaxar e falar.

Aliás, se eu puder dar uma dica sobre aprendizado de idiomas seria essa: converse sem medo. É falando que você vai se familiarizando, aprendendo e ganhando fluência. E para perder a vergonha, uma boa estratégia é imaginar um estrangeiro tentando conversar com você em português. Ele provavelmente vai cometer alguns erros de concordância ou pronúncia. Você trataria mal ou ridicularizaria o cara por isso? Claro que não. Então não precisa ter medo, as pessoas em outro país também não farão isso com você. Quanto mais você pratica, mais se desenvolve. Ou seja, se puder fale até com as pedras da rua.

Os sotaques e a arte da escuta

Se toda essa diversidade é boa para te deixar mais à vontade, pode ser um ponto negativo para o seu listening. Você vai escutar muitas línguas pela ilha, embora o inglês seja aquela com a qual as pessoas falarão com você. Isso pode ser um dificultador se você busca uma imersão total e absoluta. Contudo, você pode compensar ouvindo mais rádio, assistindo séries, filmes e tudo que puder em inglês.

A variedade de nacionalidades também refletirá nos diferentes sotaques que você ouvirá e que podem causar alguma dificuldade no início. A primeira vez que ouvi inglês com sotaque turco, não entendia absolutamente nada que estava sendo dito. Com o tempo, por conviver com tantos colegas vindos da Turquia, passou a me parecer um dos mais fáceis de entender. É tudo uma questão de familiarizar o ouvido.

Eu acho que sotaque é parte da língua. Todo local vai ter o seu e pessoas vindas de diferentes lugares também. Trabalhar para melhorar sua pronúncia é essencial, falar de forma clara e correta também, mas a gente tem que parar de achar que um sotaque é superior ao outro ou que não podemos ter nenhum. O inglês de Malta é britânico, mas obviamente os moradores de lá têm um sotaque próprio. Não dá para pasteurizar idiomas, eles carregam histórias, vivências, origens e o inglês de alguém da Inglaterra ou dos Estados Unidos não é melhor nem mais correto que o de um australiano, um canadense, um nigeriano ou dos malteses.

Formas divertidas de praticar

Intercâmbio de inglês em Malta

Esquentas na moradia estudantil para socializar e bater papo

Ótimas opções para exercitar seu inglês, para além das aulas de conversação, são as atividades de lazer, muitas vezes organizadas pelos próprios cursos. Visitas aos pontos turísticos, passeios de barco, exibições de filmes, festas temáticas promovidas pela escola ou principalmente as “resenhas” que os próprios alunos fazem na moradia estudantil são ótimas oportunidades para conhecer gente nova e entrosar, fazer amigos e conversar.

Nessas ocasiões, tente fugir dos brasileiros ou pelo menos evite falar português com eles, ou você corre o risco de se escorar nessa zona de conforto da língua materna. Aproveite esses momentos de interação para fazer amigos com quem você vai conversar em inglês.

Outra opção são encontros promovidos por alguns bares e karaokês da ilha para estimular a conversação. Em um desses eventos que participei, em um pub em St. Julians, todas as pessoas que entravam no local sorteavam um papelzinho com temas e, quando tocava o sino, precisávamos iniciar uma conversa com o primeiro que encontrássemos sobre um dos assuntos listados. O papo ia até o alarme soar novamente, indicando que deveríamos trocar de interlocutor. É bem divertido e como todo mundo ali está aberto a dialogar, fica bem mais fácil quebrar o gelo.

Diversidade cultural

Idiomas à parte, eu não podia terminar este texto sem falar do maior aprendizado que Malta me trouxe: existem muitos mundos para além da nossa bolha. Conversar com as pessoas vai ajudar no seu inglês, mas vai te trazer muito mais que isso. Vai te ensinar a exercitar a empatia e a troca com pessoas com vivências tão diferentes que até a estrutura de pensamento é outra. Aproveite ao máximo essa experiência incrível e tão genuína de troca com outras culturas. Foi conversando sobre anarquismo com uma espanhola, sobre machismo com uma italiana, sobre as milhões de maneiras cheias de poesia de se dizer eu te amo em turco ou a forma de quase nunca se falar sobre isso em japonês, salvo ocasiões realmente especiais, que aprendi muito mais que uma nova língua.

Com a menina muçulmana, que usava um hijab por cima do cabelo azul e falava sobre liberdade de escolha, ou com o garoto do Gabão que jogava nossos privilégios brancos na cara com uma doçura inimaginável, fiz muito mais que praticar inglês. Em Malta, me apaixonei pela sonoridade do espanhol e percebi que italiano é bem mais difícil que parece. Descobri que, em árabe, sol é feminino, lua é masculino, e que o inglês, mesmo sem saber a diferença entre ser e estar, podia ser uma ótima ponte para todas essas conexões. Então, toda vez que me perguntam como é o inglês de Malta, minha resposta não pode ser diferente: é lindo, é rico e cheio de diversidades.

Foto destacada: Shutterstock By Krzyzak


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Sulamara Moreira

Jornalista, sagitariana, faladora, performática e descompassada em ritmo de festa. Poucas coisas nessa vida me fazem mais feliz que uma boa conversa. Conhecer e contar histórias é uma paixão e a parte mais legal do meu trabalho. Acredito que tudo acontece nas experiências, trocas e conexões que escabecemos com as pessoas espalhadas por esse mundão.

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4 comentários sobre o texto “Os sotaques e a arte da escuta: como eu aprendi inglês em Malta

  1. Oi,

    Queria parabenizar pelo texto!

    Foi por ele que decidi ir para Malta!

    Em todos os outros blogs, não encontrei a narrativa dessa experiência que vai muito além do mero aprendizado de uma língua por si só.

    Espero voltar de lá com vivências semelhantes às suas. Desenvolvendo não só a língua mas também desenvolvendo nosso olhar de mundo
    🙂

  2. Olá, Sulamara. Adorei seu posts, muito esclareredores. Estou pesquisando sobre fazer intercâmbio e estou tendenciosa a Fazer em Malta. Obrigada por todas as informações.
    Agora uma pergunta, vc acha que uma pessoa de 60 anos é bem vinda? Um abraço. Angela.

  3. Você acredita ser fácil um estrangeiro ir mora em Malta sem sofrer com a questão de custo de vida(por mais que por causa da moeda fique mais caro) eu quero dizer é difícil se manter em Malta e a questão de emprego e estudo para quem desejar passar uma temporada considerável em Malta?
    OBS: por favor se me responder e não for muito incomodo me responde usando o E-mail. Obrigada!

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