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Atlas: Recife, Brasil, Pernambuco

Visita à Ilha de Deus, em Recife: turismo comunitário para transformar

“Moro na Ilha de Deus, e não tenho do que reclamar. Eu vou na raiz do mangue, o caranguejo está lá”. O samba entoado pelo vozeirão de Nalvinha foi composto pela mãe dela e retrata bem o dia a dia dessa pequena comunidade pesqueira localizada na confluência dos rios Tejipió, Pina e Jordão, em Recife. A família dela, assim como outras centenas que ocuparam a região desde o início do século 20, foi parte atuante nas drásticas transformações que essa região estigmatizada sofreu ao longo das últimas décadas.

Construída sobre um dos maiores manguezais em área urbana do país e um dos últimos que restam em Recife, estima-se que 95% da população da Ilha de Deus viva da pesca de mariscos, em especial do sururu, ingrediente indispensável da cozinha pernambucana. A atividade que, quando muito, rende R$150 reais por semana, é o sustento daquelas famílias há gerações, mas está ameaçada pela depredação do ecossistema local. “Antes tinha muito peixe, muito marisco aqui no mangue. Era sururu, caranguejo, camarão que não acabava mais. Mas por causa da sujeira do rio, eles estão sumindo. Hoje já não é tão fácil pescar na mesma quantidade”, conta Jó, irmão de Nalvinha, enquanto nos mostra, de dentro da água, como se pesca com a rede.

Mulher preparando o sururu pescado na Ilha de Deus

O sururu pescado na Ilha de Deus é uma das principais fontes de renda da população local, mas esse trabalho está ameaçado pela poluição do mangue.

Na tentativa de salvar sua principal fonte de renda, ele idealizou um projeto que visa limpar os rios da região de forma independente do poder público. Com um barco, ele e outros moradores retiram da água o lixo que conseguem. O que for reciclável ele separa, limpa, comprime e prepara para ser vendido nos centros de reciclagem. Mas, além de preservar os manguezais, era preciso também criar outras alternativas de trabalho para a população da Ilha de Deus. E um dos caminhos encontrados foi o Turismo de Base Comunitária.

Projeto de reciclagem na Ilha de Deus

As garrafas pet retiradas dos rios são encaminhadas para reciclagem

Quem topa a travessia de catamarã tem a oportunidade única de entrar em contato com um cantinho mais que especial do Recife, muitas vezes esquecido pelo governo e pelos moradores da cidade, mas que se orgulha de sua cultura própria, da história de luta e superação e de seu povo alegre e acolhedor.

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De “Ilha sem Deus” à esperança: a história da comunidade

De dentro do centro comunitário que serve, no primeiro andar, de escolinha de contraturno para as crianças da ilha e, no segundo, de albergue para os visitantes que escolhem passar algumas noites, o empreendedor social Edy Rocha nos mostra um grande painel com o rosto de algumas das muitas mulheres que foram protagonistas na transformação da ilha. Foram elas, segundo ele, que foram à luta para que a comunidade passasse a ser enxergada pelo poder público e recebesse alguns serviços básicos, como luz e água encanada, deixando para trás a triste fase na qual era conhecida como “Ilha sem Deus”.

Mulheres liderança Ilha de Deus

O hall das mulheres que lideraram a transformação local

Quem vê os moradores sentados tranquilos nas portas de suas casas no fim de tarde nem imagina a transformação social pela qual o lugar passou nas últimas décadas. Durante os anos 1980 e 1990, a ilha vivia em completo isolamento. Para chegar até lá, só de barco, atravessando a lama do manguezal. As ruas, hoje pavimentadas, eram tomadas de casas de palafita bastante precárias e as crianças eram obrigadas a deixar a escola muito cedo para ajudar a família na pesca, o que só ajudava a perpetuar o ciclo de pobreza. Tamanho abando tornou o local o esconderijo perfeito para traficantes e outros criminosos, o que levou as taxas de criminalidade dali às alturas. Durante os períodos mais críticos, o local chegava a registrar um homicídio por semana. Hoje, essa taxa chegou a menos de um por ano.

Ilha de Deus

E foi através da mobilização da população local, liderada pelas mulheres, que o cenário começou a mudar. O primeiro passo foi cobrar do poder público algumas medidas básicas como a instalação de postes de luz e rede de esgoto. A primeira ponte que ligava a comunidade ao resto da capital era de madeira e só foi instalada em 1986. Aos poucos, as casas de palafita foram substituídas por casas populares de alvenaria e, em 2009, a Ilha de Deus inaugurou uma ponte de concreto, apta para a passagem de carros e símbolo de uma nova etapa em sua história. Em homenagem a essa luta, foi batizada de Ponte Vitória das Mulheres.

Casas na ilha de Deus

As casas de alvenaria que substituíram as palafitas

Edy é o coordenador de projetos da ONG Saber Viver, responsável por grande parte das iniciativas educacionais que visam manter crianças e adolescentes na escola e, por consequência, longe do crime. Além da escolinha de contraturno, a organização promove também cursos de qualificação profissional, oficinas educativas e culturais de de dança, teatro, esportes e outras artes, promove eventos e espetáculos na comunidade e presta assistência social e educação para crianças, adolescentes e adultos.

Turismo comunitário na Ilha de Deus: como fazer?

Por do Sol na Ilha de Deus

Catamarãs com destino à Ilha de Deus saem da sede da Catamaran Tours, no Cais Santa Rita, bem centro de Recife, todos os sábados, às 10h. O passeio mais simples dura duas horas e inclui um walking tour pela comunidade guiado por moradores locais, e custa R$55 por pessoa.

Quem busca uma experiência mais imersiva pode se hospedar por um ou mais dias no Hostel Social Ilha de Deus e participar de atividades e oficinas junto com a comunidade. Seja qual for a sua opção, é preciso fazer o agendamento prévio da sua visita através do site da ONG Saber Viver ou pelo whatsapp (81) 98405-4474.

Na segunda modalidade, os visitantes têm a oportunidade de participar de uma série de vivências junto aos moradores da Ilha de Deus. Entre elas, oficinas culturais, como de frevo e ciranda, e gastronômicas, além de passeios de barco pelos rios, conversa com as marisqueiras e artesãs para conhecer seu trabalho, ver como a pesca no mangue é realizada e participar de ações de recuperação do meio ambiente. Os roteiros foram todos criados pelos moradores da ilha, com auxílio da Secretaria de Turismo do Recife. Essas atividades também são agendadas  acima e podem variar de acordo com a época da visita e com os interesses dos participantes.

Oficina de Frevo na Ilha de Deus

Oficina de Frevo e Danças Populares

Seja qual for a sua opção, o maior benefício dessa experiência é a troca humana. Vá de coração aberto para conversar e aprender com os moradores locais um pouco de sua história e ser acolhido por eles. O dia a dia na Ilha de Deus é sem pressa e os habitantes dali adorar mostrar suas conquistas e conhecer os visitantes.

Onde comer: Bistrô da Negra Linda

Negra Linda ainda se lembra do tempo em que ela tinha que mergulhar o corpo inteiro na lama em busca de mariscos. Ela nunca foi muito boa na atividade, mas sabia que tinha outro talento: era uma cozinheira de mão cheia. Aos 32 anos, hoje ela é dona de um bistrô conhecido no Brasil inteiro e já recebeu visita de gente importante que chega a Ilha de Deus para comer a famosa mariscada.

Negra Linda, Ilha de Deus

Pastel do Bistrô da Negra Linda, na Ilha de Deus

Além do prato que é o carro-chefe, o bistrô serve ainda pastéis de sururu e camarão fake vegano, uma receita secreta à base de cenoura que imita com perfeição o sabor do bicho. Ela também ministra oficinas de gastronomia para visitantes e moradores junto à ONG Saber Viver.

A viagem ao Recife foi parte do projeto CreatorsPE, idealizado pela Luísa Ferreira, do blog Janelas Abertas, junto à Secretaria de Turismo do Recife, e se propunha a mostrar a capital pernambucana através do turismo criativo e da cultura popular.

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Natália Becattini

Já chamei muito lugar de casa, mas é pra Belo Horizonte que eu sempre volto. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Além do 360, mantenho uma newsletter sobre o a vida, o universo e tudo mais, que eu chamo de Vírgulas Rebeldes. Vira e mexe eu também estou procrastinando lá no instagram @natybecattini e no twitter.

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