Vida em Malta: curiosidades que ninguém te conta sobre a ilha

No meu último post aqui no blog, falei um pouco sobre o que me levou a fazer um intercâmbio em Malta. Agora, é hora de falar como foi a minha vida durante os 11 meses que passei por lá e das coisas que quase ninguém conta sobre morar nessa ilha que ganhou meu coração.

Rocky your beaches, baby!

st peters pool - malta

Confortavelmente acomodada nas rochas de St. Peter’s Pool

Cheguei em Malta no início de novembro de 2015, outono no hemisfério norte, onde a ilha está localizada. O dia estava ensolarado, mas não fazia calor. Ainda assim, como boa mineira, a primeira coisa que eu fiz, após deixar as malas no apartamento, foi correr para praia. Qual não foi minha surpresa ao chegar lá e perceber que não tinha areia. Sliema, a cidade em que eu morava, fica no sul da ilha, onde a maior parte das praias são de rocha. Só que de longe você não percebe, porque o chão, embora de pedra, tem cor de areia.

É uma experiência estranha, mas tem suas vantagens, como poder sair da praia para qualquer lugar sem carregar aqueles grãozinhos intrusos no chinelo, na bolsa e em toda parte. Por outro lado, tomar sol deitado na pedra não é uma coisa das mais confortáveis.

É possível encontrar belas praias de areia no norte da ilha, como Golden Bay, Ghajn Tuffieha, Paradise Bay e Għadira (todas imperdíveis), mas fato é que no dia a dia a preguiça vencia e eu acabava perto de casa mesmo, curtindo as piscinas de pedra esculpidas nos tempos do império romano.

Paisagem bege com portas coloridas

E não são só as praias maltesas que tem cor de areia. Quase tudo em Malta é construído com pedra calcária e o tom bege amarelado predomina na paisagem. O contraste fica por conta do mar azul escuro, do céu quase sempre aberto e das portas e varandas, tradicionalmente pintadas com cores vivas. Uma combinação linda e muito diferente das vistas que temos por aqui.

Ruas com portas coloridas em Valleta, Malta

Construções cor de areia com portas e janelas coloridas em Valletta, capital de Malta. Foto: Shutterstock, por kavalenkava.

Mão-inglesa

Antes de sair do aeroporto eu já fui zoada pelo taxista que foi me buscar, quando tentei entrar no carro pelo lado do motorista. Até então eu não sabia que Malta era adepta da mão-inglesa, com aqueles carros com volante do lado direito, algo que eu só tinha visto na televisão. Não foi fácil me adaptar – e olha que eu nem dirijo. Quase morri atropelada várias vezes, por olhar pro lado errado na hora de atravessar a rua. Sem contar os momentos em que, ao ver o banco esquerdo desocupado, pensava num relance que havia um fantasma dirigindo os carros que vinham em minha direção.

Outra curiosidade sobre o trânsito em Malta é seu aspecto caótico. As ruas são muito estreitas, os motoristas não costumam ligar muito para as regras e não é incomum encontrar uma via interditada porque alguém simplesmente decidiu parar seu carro no meio da rua e saiu para resolver alguma questão pessoal. Ver carros batidos circulando por aí e assistir a esses acidentes também não é algo raro. Eu via alguma colisão quase toda semana.

Transporte público

Muita gente reclamava da falta de metrô na ilha, mas, para mim, cria de Belo Horizonte, isso não era incomum. O transporte público em Malta é feito majoritariamente por ônibus. Eles são confortáveis, mas dão um milhão de voltas para chegar em qualquer lugar. Dificilmente você pega um trajeto de menos de uma hora, mesmo para locais que não ficam muito longe. Uma vantagem é que você pode pegar quantos ônibus quiser no período de duas horas, a partir da compra da passagem.

O bilhete é comprado no próprio ônibus e você recebe um comprovante com o horário até o qual pode usá-lo. Algo muito útil quando precisa pegar mais de um ônibus para chegar a determinado local ou quando vai voltar rápido.  Uma coisa que pega muita gente de surpresa é que a tarifa fica mais cara durante a alta temporada. Se você quiser outra opção, pode usar o ferryboat. As rotas vão desde as internas, como a que liga Valletta à Sliema, até as que permitem visitar Gozo e Comino, que são as outras principais ilhas do arquipélago. Além de mais rápido, você pode aproveitar a vista linda do barco.

Segurança Pública

Fato é que, tirando os momentos em que eu ia turistar ou resolver alguma coisa na capital, eu fazia quase tudo a pé. Eu morava próximo à escola em que estudava, em uma região com muitos bares, restaurantes e supermercados. Além disso, era uma área tranquila, então até para a balada eu ia e voltava caminhando. Sim, eu voltava andando sozinha às 4 da manhã, sem problemas.

Confesso que sinto falta dessa liberdade, que é algo até difícil de imaginar em um país com desigualdade social e econômica tão absurda como o nosso. Era comum também irmos nadar e deixar as coisas sem vigilância na praia, sem preocupação, algo nada normal para mim até então. Não significa, porém, que a ilha seja o paraíso. Furtos de celulares e carteiras em bares e casas noturnas, por exemplo, são muito comuns, principalmente na alta temporada, então é importante estar atento.

Paceville e a boemia maltesa

Vida Noturna em Malta

Não tem como falar em vida noturna Maltesa sem falar em Paceville. Esse bairro de St Julians reúne as principais baladas do país e tem para todos os gostos. Casas especializadas em música eletrônica, pop, hip hop, longe, pubs de rock e até um bar brasileiro – ali você encontra de tudo um pouco.

E, o melhor, os lugares não cobram para entrar, você só paga o que consome, assim é possível aproveitar diferentes opções ao longo da noite. Para mim, no entanto, o grande destaque são as casas de música latina. Foi nesses bares que, mesmo antes de Despacito invadir o mundo inteiro, eu conheci e me apaixonei pela batida do reggaeton e de alguma forma reconheci minha própria latinidade, algo que nunca tinha experimentado. Morro de saudades da festa, da farra, das fatias de pizza que comprávamos no caminho e comíamos sentados no meio-fio.

Água por todos os lados, menos para beber

Água doce em Malta é um recurso escasso. Como não há lagos e rios no país e as chuvas são concentradas apenas no inverno, a solução é retirar o sal para usar a água do mar, um processo que consome muita energia elétrica e não é barato. Para beber e cozinhar, não se usa a água da torneira, é preciso comprar água mineral. Não é comum também encontrar bebedouros em locais públicos, como nas escolas, algo que estranhei quando cheguei. Ver luzes acesas sem necessidade nas casas maltesas também é algo raro. A economia de água e energia é um hábito estabelecido no país, tanto pelo alto custo, quanto pelo medo da população de que o recurso falte.

Ainda sobre a água, vale lembrar que, além de dessalinizada, ela é rica em calcário, combinação que resseca a pele e os cabelos. Eu, que aqui no Brasil sempre sofri com oleosidade, lá tive que aprender a cuidar de fios extremamente secos e quebradiços. Nessa época, azeites e óleo de coco eram meus melhores amigos.

Inverno ameno, verão opressor

Como contei, cheguei em Malta mais para o final do outono e planejava ficar até a primavera do ano seguinte. Tive sorte, pois o ano em que estive por lá foi considerado um dos invernos mais amenos dos últimos tempos na Europa. Não peguei temperaturas muito baixas, nem presenciei grandes tempestades e as ondas enormes resultante delas, como as que derrubaram a Azure Window, até então um dos principais cartões-postais do país, em 2017.

Azure Window Malta

Eu com alguns amigos visitando a finada Azure Window, em um raro dia nublado na ilha de Gozo.

Apesar das chuvas e ressacas, Malta normalmente não tem um inverno rigoroso. Já no verão, parece que a ilha se torna a sauna particular de Satanás. Entre junho e outubro, o clima é extremamente abafado, quente e úmido. Embora a média de temperatura seja de 31ºC, a umidade impede que a transpiração evapore e a sensação é de que não há vida fora do ar condicionado. Por isso, se você quer escolher uma boa época para conhecer Malta, eu indicaria a primavera ou o outono.

Prato cheio

A culinária Maltesa é influenciada pelas tradições mediterrâneas e italianas. Eu, como boa estudante dura, não era muito de comer fora, mas fiz questão de experimentar algumas das iguarias típicas de lá.

Os famosos pastizzis eram os mais comuns no meu dia a dia. Trata-se de um salgado de massa folhada recheado, tradicionalmente, com ricota ou uma pasta de ervilha (meu sonho era comer uma versão de frango com catupiry, mas não rolou).

Pastizzi: comida típica de malta

Pastizzi em malta. Foto: Ksenija Toyechkina, Shutterstock

Outro prato comum é o pene ao molho de tomate com linguiça maltesa. A iguaria ainda vai ao forno coberta por parmesão e é uma delícia. Porém, se quiser provar uma massa com preparação um tanto diferente, escolha a Timpana. Muito popular nas festas típicas do país, ela é uma torta de pão recheada com macarrão.

Os malteses também apreciam bastante a carne de coelho. Você encontra em todo supermercado, caso queira preparar em casa, ou em qualquer restaurante de comida maltesa. Eu experimentei e achei bem sem graça, mas por lá eles gostam muito.

Para acompanhar qualquer dessas comidas, você pode pedir uma lata de Kinnie, um refrigerante local muito consumido, mas que eu, pessoalmente, achei uma das coisas mais horríveis que já provei na vida. Vale provar também a Cisk, a principal cerveja nacional e provavelmente a mais barata que você vai encontrar. É uma larger e seria como a Brahma deles.

Cosmopolita com cara de interior

Malta é um país do tamanho de uma cidade e isso traz características únicas. Os malteses têm um jeitão interiorano, que pode parecer truculento a primeira vista, mas muito afetuoso, pautado pelas relações interpessoais e de confiança. É um modo de vida mais relaxado, sem a pressa dos grandes centros e de forte tradição católica (o país tem mais igrejas que quilômetros quadrados, 360 ao todo).

Esse estilo de vida é impactado, porém, pela vocação turística do local. Durante o verão, a população da ilha chega a triplicar. O país recebe turistas do mundo inteiro e, por ser um destino de férias acessível para europeus, é muito comum encontrar espanhóis e italianos estudando inglês na ilha nessa época.

Outro destaque são os turistas e estudantes turcos. Além da proximidade, Malta é um dos países da Europa para o qual eles têm menos dificuldades com o visto, então, na alta temporada eles são maioria. E a influência cultural deles na vida na ilha é marcante: mesquitas, restaurantes e mercados especializados estão por toda parte. Fiz tantos amigos vindos da Turquia que em meu período de férias da escola eu fiz questão de viajar para conhecer Istambul.


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Sulamara Moreira

Jornalista, sagitariana, faladora, performática e descompassada em ritmo de festa. Poucas coisas nessa vida me fazem mais feliz que uma boa conversa. Conhecer e contar histórias é uma paixão e a parte mais legal do meu trabalho. Acredito que tudo acontece nas experiências, trocas e conexões que escabecemos com as pessoas espalhadas por esse mundão.

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12 comentários sobre o texto “Vida em Malta: curiosidades que ninguém te conta sobre a ilha

  1. Ameii seu post, irei ano que vem para Malta fazer intercâmbio e realmente li coisas aqui que não encontrei em nenhum outro lugar. Muito Obrigada pelas dicas… 🙂

  2. Olá Sula, adorei seu relato. Tenho muita vontade de conhecer Malta, você foi estudar inglês? Será que tem intercâmbio para quem já passou dos 50 anos?

    1. Fui para estudar inglês sim, Marcionilia. Acho um destino ótimo para quem tem mais de 50. Inclusive, tinha colegas nessa faixa etária. Na alta temporada, o publico costuma ser mais novo, por causa das férias de verão na Europa, mas se você quiser fugir da meninada, existem escolas têm inclusive turmas específicas para o público mais velho. E a ilha é super agradável, tem passeios para todos os gostos, desde quem curte aproveitar belezas naturais, para quem prefere passeios mais histórico culturais. Acho que você iria adorar!

  3. Me identifiquei com cada palavra que você escreveu, e olha que só fiquei por um mês!
    Não conheço uma pessoa que passou por Malta e não tenha esses sentimento de nostalgia ao falar e lembrar de lá..

  4. Morei em Malta durante 2 meses no início de 2015.
    Não acrescentaria nada no seu depoimento sobre Malta, foi exatamente a percepção que tive de lá.

    Ler esse artigo até me deu saudades.

    Espero, em breve, ter uma oportunidade de retornar.

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