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Atlas: Espanha

As peregrinações de Egéria, a primeira das viajantes

“Como sou um tanto curiosa, quero ver tudo”. A frase pode parecer atual, saída diretamente de uma legenda no Instagram, acompanhada de uma foto com cores saturadas e uma modelo com olhar perdido no horizonte, mas foi escrita entre os anos de 381 e 384 d.C. A autora, Egéria, era uma viajante que percorreu sozinha, no lombo de uma mula, mais de 5.000 quilômetros e cruzou três continentes. No caminho, descreveu suas andanças em forma de carta, registrando com detalhes tudo o que descobria e acabou se tornando, sem querer, a primeira mulher cristã a escrever uma obra de não-ficção, uma das poucas mulheres escritoras do Império Romano e uma das precursoras das literaturas galegas e portuguesas.

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Egéria - peregrinaçõesNão se sabe muito sobre Egéria. Seus manuscritos passaram séculos no esquecimento. Sete, para ser exata. Só foram redescobertos em 1884, quando um erudito italiano chamado Gian Francesco Gamurrini os reencontrou em uma biblioteca monástica de Arezzo. Mas a identidade da autora permaneceu um mistério até 1903, quando o filólogo Marius Férotin encontrou uma referência a esses escritos em um relato de um monge do século 7. A partir daí, foi preciso reconstruir sua história de trás pra frente.

Até hoje, seu local de nascimento é uma incógnita. Alguns historiadores afirmam que foi no noroeste da Península Ibérica, na região da Galícia e norte de Portugal: “nas ribeiras mais afastadas do oceano ocidental“. Outros dizem que ela era, na verdade, do sudoeste da França. Tampouco se sabe se ela era monja – já que suas cartas eram endereçadas às irmãs e tinham um forte viés religioso – ou qual o seu grau de nobreza e influência na época, evidenciados por ser uma pessoa culta, que recebeu educação formal e que – teoriza-se – conseguiu salvo conduto, uma espécie de passaporte da antiguidade, para viajar por todos esses lugares.

Mas uma coisa é inegável sobre Egéria: sua coragem em desafiar as normas sociais de seu mundo, no qual o papel da mulher era restrito ao âmbito doméstico, e em enfrentar sozinha a vulnerabilidade de uma viagem do tipo.

“Sua experiência mostra até que ponto se podia romper os papéis de gênero na sociedade da antiguidade tardia ao apresentar-se como uma autêntica aventureira”

 Rosa María Cid, historiadora da Universidad de Oviedo.

5.000 quilômetros no lombo de uma mula

Em suas viagens Egéria deixou a Galícia, percorreu a Espanha até a região da Catalunha, cruzou a Itália, foi de barco até Constantinopla, passou pela Palestina e explorou a Terra Santa. Depois, ainda retornou a Jerusalém, cidade que fez como base, antes de seguir para Antioquia e Edessa –  onde atualmente fica a Síria – passou pela Mesopotâmia e Tarso. Ali, visionária que era, conseguiu uma verão antiga do couchsurfing ao se hospedar com uma amiga de viagem que fez em Jerusalém. Marthana era a administradora de um monastério de virgens. Elas se conheceram durante uma prece encabeçada por Marthana e se aproximaram imediatamente.

Sua última carta foi escrita em Constantinopla. Nela, Egéria falou de seu desejo de visitar a cidade de Éfeso. Não se sabe, no entanto, se chegou a realizar o sonho. Não há mais registros escritos de suas aventuras depois disso. Talvez ela tenha morrido ali, naquelas terras, talvez tenha voltado para casa ou, quem sabe tenha seguido na estrada por muitos e muitos anos e suas cartas tenham se perdido com o tempo.

Os relatos de Egéria foram reunidos em uma obra batizada de Itinerarium Egeriae. Sua escrita é marcada por utilizar um tom descritivo, rico em detalhes. Seu objetivo não era transformar suas viagens em literatura, mas em contar em pormenores tudo o que via. Considerado um documento de grande valor histórico, é uma obra essencial para entender o latim vulgar – língua em que foi escrito – e os costumes e a liturgia da época, já que ela descreve com muitos detalhes os rituais religiosos que presenciou. Seus textos já foram traduzidos para diversos idiomas. Em português, o livro “Viagem do Ocidente à Terra Santa, no séc.IV” foi publicado pela editora Colibri, de Portugal.


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Natália Becattini

Já chamei de casa a Cidade do Cabo, Chandigarh, Buenos Aires e Barcelona, mas acabo sempre voltando pra minha querida BH. Gosto de literatura, cervejas, música e artigos de papelaria, mas minha grande paixão é contar histórias. Por isso, desde 2011 viajo o mundo e escrevo sobre o que vi. Também estou no blog sobre escrita criativa Oxford Comma e compartilho minhas impressões de mundo também no instagram @natybecattini e no twitter.

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2 comentários sobre o texto “As peregrinações de Egéria, a primeira das viajantes

  1. Acho curioso como alguns povos gostam mais de aventura que outros. O Brasil, por exemplo, surgiu da junção de aventureiros do mundo todo. Não à toa tem tanto brasileiro vagando por aí.

    1. Faz um tempo eu vi uma pesquisa sobre isso. Descobriram um gene que aguça a vontade de se colocar em movimento. O interessante é que esse gene era mais presente em culturas nômades que nas sedentárias… legal, né?

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