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Atlas: Alemanha, Grécia, Hungria

Como a crise dos refugiados afeta o turismo na Europa

Semana passada uma leitora comentou num post sobre a Grécia se eu achava que ela deveria desistir de uma viagem ao país por causa da crise dos refugiados, que afeta milhares de pessoas e tem tomado conta das notícias do mundo inteiro. Confesso que eu não sabia que tinha gente preocupada com o problema nesse âmbito do turismo, mas como claramente existe a questão, resolvemos esclarecer como está a situação na Europa e como isso não necessariamente afeta sua viagem.

O que é a Crise dos Refugiados?

Segundo a Organização Internacional de Migração (IOM), mais de 350 mil imigrantes chegaram na Europa, em 2015, via Mar Mediterrâneo. São pessoas vindas de países como a Síria, Afeganistão e Eritrea, que vivem sérios conflitos. A atual crise dos refugiados acontece porque o número de pessoas desembarcando aumentou consideravelmente este ano. Ao mesmo tempo, os navios ou barcos clandestinos que trazem os refugiados já deixaram quase 3 mil mortos.

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Berlim, Alemanha. Crédito: stockfotoart / Shutterstock.com

A situação é ainda mais preocupante porque, segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) prevê, pelo menos 3 mil pessoas por dia vão tentar entrar na Europa Ocidental nos próximos meses. A maioria das pessoas chega na Grécia, vindas por mar ou terra. Mas Itália, Espanha e Malta também recebem milhares de pessoas. De lá, tentam seguir o caminho por terra para países mais ricos, como a Alemanha. Segundo o governo desse país, em 2015 já chegaram mais de 150 mil pessoas. Só ontem (quarta, 16), mais de 7 mil pessoas cruzaram as fronteiras alemãs. Esses gráficos do The New York Times são muito bons para tentar entender os números.

Só que para cruzar todo esse caminho existem outras fronteiras e visões políticas opostas. A Hungria, por exemplo, não quer saber de refugiados passando pelo seu território e o Primeiro Ministro de lá – sem a aprovação de toda a população do país, diga-se de passagem – mandou construir uma barreira na fronteira com a Sérvia, que é de onde a maioria dos imigrantes vem. A última decisão política polêmica vinda do governo húngaro foi considerar qualquer pessoa que cruze essa fronteira sem os devidos documentos como criminosos.

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Os 175 km de cerca entre a Sérvia e a Hungria. Crédito: Spectral-Design / Shutterstock.com

Tais decisões têm sido duramente criticadas não só pela aparente falta de humanidade, mas também pela total negligência ao Estatuto dos Refugiados de 1951 (criado por conta do número elevado de refugiados europeus pós Segunda Guerra Mundial). O estatuto define que:

“São refugiados as pessoas que se encontram fora do seu país por causa de fundado temor de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou participação em grupos sociais, e que não possam (ou não queiram) voltar para casa. Posteriormente, definições mais amplas passaram a considerar como refugiados as pessoas obrigadas a deixar seu país devido a conflitos armados, violência generalizada e violação massiva dos direitos humanos(Fonte).

Sei lá, me parece irônico (e muito pouco empático) que hoje existam europeus reclamando dos refugiados, sendo que foi para eles que o conceito foi criado.

O que acontece com o Espaço de Schengen?

A chegada ininterrupta de milhares pessoas, combinada com uma falta de acordo de toda a União Europeia sobre como lidar com elas, fez com que alguns países temporariamente suspendessem o Acordo de Schengen, aquele que permite a livre circulação de pessoas dentro da UE. Até agora, Alemanha, Áustria e Eslovênia restabeleceram, por um período limitado, o controle de fronteiras para entrada nos países. Isso significa, na prática, que para entrar lá, vindo de qualquer outro lugar na Europa, agora haverá controle de passaportes.

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Refugiados em Budapeste aguardando para seguir para Viena. Crédito: Istvan Csak / Shutterstock.com

Nas próximas semanas, há reuniões agendadas para tentar propor soluções como uma divisão de cotas para recepção dos refugiados, mas a discrepância econômica entre os membros do bloco é uma das principais barreiras (junto claro, com as posições políticas de extrema direita).

Como a crise dos refugiados afeta o turismo na Europa?

Se você leu esse post até agora com cuidado, talvez já saiba a resposta. A verdade, é que essa é uma crise humanitária e política, mas que não afeta, ou ao menos não deveria de forma alguma afetar o turismo. Os refugiados não são terroristas ou oportunistas, como alguns políticos têm sugerido. São, em geral, pessoas que largam tudo o que têm: empregos, casas e bens para tentar a vida longe de um conflito armado que provavelmente mataria toda a sua família. Leia essa matéria sobre como é a vida na Síria atualmente.

É nas Ilhas Gregas de Kos e Lesbos encontram-se o maior número de refugiados atualmente. Após chegarem, as pessoas recebem uma autorização de residência temporária e podem pedir asilo, mas a maioria prefere ir para outros países ou ficar na Grécia trabalhando ilegalmente.

Os turistas que passam por lá vão encontrar um número maior de pessoas nessa situação, morando nas ruas ou em campos de refugiados despreparados. Pelo que li em diversas matérias a respeito e conversei com as pessoas, há dois tipos de comportamento: os turistas que ignoram totalmente os refugiados e seguem com suas férias e os que tentam ajudar de alguma forma. Não achei nenhum relato que demonstre a necessidade de desistir de uma viagem.

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Tenda abandonada na fronteira da Sérvia. Crédito: Spectral-Design / Shutterstock.com

Existem alguns conflitos nas cidades de fronteira onde os refugiados tentam cruzar, principalmente na fronteira da Sérvia com a Hungria e com a Croácia. Quem segue de trem ou ônibus nessa região pode ter problema com atrasos ou cancelamentos. Mas fora isso, não há nenhum impedimento, pelo contrário: nenhum país europeu quer deixar de receber turistas.

O que fazer se você estiver de viagem marcada?

Nosso conselho é que você, nesse período mais tenso de controle de fronteiras, leve toda a documentação bem certinha e caprichada: passagem de ida e volta, comprovação de hospedagem, comprovação de renda para o período da viagem, esboço do roteiro, etc. Leia mais sobre onde vai ser sua imigração na Europa.

Como ajudar os refugiados?

Existem diversas organizações internacionais sérias que recebem doações para ajudar os refugiados. A ACNUR recebe doações mensais a partir de R$45,00. Já a UNICEF recebe doações mensais ou únicas para as crianças sírias. Em Belo Horizonte, onde há 79 refugiados, a Paróquia Sagrado Coração de Jesus, arrecada doações de alimentos e produtos de higiene pessoal.

Além disso, se estiver no seu roteiro alguma cidade europeia que tenha um centro de refugiados, você pode visitar o local e fazer doações pessoalmente.

*Imagem Destacada: Cartaz em Berlim. Crédito: hanohiki / Shutterstock.com


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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 30 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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31 comentários sobre o texto “Como a crise dos refugiados afeta o turismo na Europa

  1. Olá Luiza,

    Parabéns pelo post. É uma dúvida que preocupa todos o viajantes em primeira viagem pela rota dos Bálcãs, justo na crise dos refugiados.
    Passados alguns meses do post e com alguns fechamentos de fronteiras, você teria alguma recomendação nova para viagem terrestre pelo países Croacia, Bósnia, Servia e Montenegro? E da Croacia para a Itália, pelo Adriatico?
    Estou planejando ir em maio.
    Desde já, agradeço.

  2. Oi Luiza,

    Estou planejando uma viagem em Abril para Berlim, Praga, Varsóvia e Budapeste.

    Você acha que devo evitar algumas dessas cidades em função da crise de refugiados?

    Desde já agradeço você.

    Evandro

  3. Olá,

    Depois de dois meses da publicação desse post… tem alguma novidade?
    Schengen “voltou ao normal” ou continua suspenso em alguns países?

    Obrigado!

    Att.,
    Kleber

    1. Oi Kleber,

      Schengen voltou ao normal. Mas com os atentados na França, os controles de imigração tendem a ser um pouco mais chatos, mas até agora não vi nenhum relato de brasileiros reclamando.

    2. Oi Kleber!

      Estou em Ljubljana agora, vim de Budapeste via onibus, passei por Zagreb antes. Na fronteira da Hungria com a Croacia pararam o bus e tivemos de descer (o bus estava cheio). Checaram os passaportes de todos *sem excecao). Li numa placa no posto da fronteira que tratava se de uma lei de 2014, nada a ver com o contexto atual, creio eu.

      Novamente na fronteira entre Croacia e Eslovenia passamos pelo mesmo procedimento, dessa vez mais rapido uma vez que o bus vinha mais vazio. No final das contas foi sem problemas, pelo menos nessa parte da Europa. Amanha parto para Zagreb, na Croacia e acredito que passe por outra vistoria de passaportes, mas sem problema. Depois vou para Servia e espero nao ter problemas!

      Valeu!

      Daniel

      PS. desculpem a falta de acentos e sinais graficos, o teclado aqui do hostel e diferente.

      1. Oi Daniel,

        Isso é normal. A Croácia não faz parte do espaço de Schengen, então tem controle de passaporte mesmo. Eu tive que passar pela imigração entre Grécia e Bulgária, depois Bulgária e Romênia e ainda Romênia e Hungria.

        A Sérvia também não faz parte do espaço, então lá vai ter imigração também.

  4. Luiza, muito bom o post! Esclarecedor!Farei Praga Budapeste Ljubljana Zagreb e Belgrado em novembro e sigo apreensivo com possíveis cancelamentos, sei que meu problema é um “drama tacanho” frente à real questão que os refugiados vem sofrendo na Europa, mas como tenho pouco tempo entre os países fico preocupado. De qualquer modo depois eu conto minha experiência aqui! 🙂

  5. Estou indo a Viena no início de novembro para um congresso e terei alguns dias na região. Que cidades na região você acredita que seria mais tranquilo para conhecer? Acredita que devo descartar Budapeste?

    Abraços, parabéns pelo espaço.

  6. não costumo tecer comentários, mas desejei fazer este porque estou fazendo uma viagem de vinte dias por praga-dresden-viena e estou um tanto decepcionada. Meu roteiro inicial incluía Budapeste, mas desisti por conta da crise com os refugiadas. Já estive 2 vezes fazendo roteiros na Europa, meio de mochila, e sempre deu tudo certo, sempre aquela sensação de paz.. Dessa vez percebo as coisas mais tensas, as pessoas menos hospitaleiras.. Já cruzei com vários refugiados, e é visível que muitos não são bem vindos! Uma pena..

  7. Fico triste como algumas pessoas não conseguem ter empatia pelo que essas pessoas estão passando. A página no facebook Humans of New York está com uma série ótima sobre os refugiados. Pensamos muito em números mas esquecemos que ali são pessoas e suas histórias.

    Obrigado por trazerem esse discussão pra cá!

  8. Entrei em contato com o proprietário do apto que alugamos em Budapeste e a situação que ele me passou foi bem diferente do que a mídia nos mostra.
    Ele questiona o pq de invadirem a Europa se a Arábia Saudita é muito mais rica e próxima. Disse que eles não querem trabalhar não tem documentos apenas querem ajuda dos governos
    Me mandou fotos das violências que estão cometendo ct as barreiras criadas , gente pendurada nos trens,atirando pedras…
    Me disse que não tem condições de abrigar os cerca de 3000 que chegam por dia
    Viajaremos sábado e estou preocupada pq iremos à 3 cidades com problemas Berlim Viena e Buda
    Ele me disse que aproveitemos agora pq breve a Europa deixará de ser segura

    1. Olha Eleanora,

      Eu moro na Europa e conheço muita gente com uma visão completamente oposta desse senhor. Inclusive, tenho uma amiga de Budapeste que também discorda.

      Em primeiro lugar, os refugiados não estão invadindo a Europa, eles estão fugindo de uma situação de guerra que nenhum país do mundo ou a ONU conseguiram solucionar. Além disso, não é porque a Arábia Saudita ou Emirados Árabes se recusam a receber refugiados que os países europeus tem que fazer o mesmo. A Europa tem uma boa parcela de culpa em vários dos problemas sociais que alguns países pobres vivem hoje. Foram séculos de exploração.

      Já imaginou o que teria ocorrido se após a Segunda Guerra mundial esse tivesse sido o discurso para os europeus que precisaram fugir?

      A violência que eu tenho visto não é dos refugiados, é da loucura que o governo da Hungria criou, tratando-os como animais, impedindo de cruzar as fronteiras em direção a outros países. Você já imaginou o desespero que deve ser viver uma guerra e ter que abandonar tudo e ir para um outro país ser hostilizado?

      Sim, nenhum país vai conseguir lidar com 3 mil pessoas chegando todos os dias, mas isso se resolve com políticas, negociações, investimentos nos lugares em conflito. Não construindo cercas e fingindo que o problema não é seu.

      1. Gostei muito do post e dessa resposta, Luiza. É um tema muito delicado e que merece atenção. Escrevi um pouquinho sobre isso também. Não é um texto informativo, mas acho que tem um pouco a ver.Se puder, dê uma olhadinha: blogminhacasaeomundo.wordpress.com/2015/10/06/brasil-lanchonete-e-crise-dos-refugiados/
        Obrigada!

  9. Confesso que também fiquei apreensiva quanto a isso.
    Com medo que mesmo cumprindo todas as exigências, o controle ficasse mais restrito por causa dessa crise.
    Até mesmo o aeroporto de Charles gaulle, França. .. Que sempre foi muito tranquilo.

    1. Oi Eleonora,

      A estação foi fechada temporariamente e os trens cancelados somente para os refugiados. Estrangeiros com o passaporte podem embarcar normalmente. Além disso, a medida já foi revista e a Estação Keleti foi reaberta.

  10. Confesso, que estava quase trocando minha passagem. Estou com viagem marcada para Viena, Budapeste e Praga em novembro. Mas, despois destas explicações fiquei um pouco mais tranquilo!

  11. Luiza, muito obrigada pelo post. Vou a Munique, Viena, Budapeste e Praga na próxima semana. Eu não estou apreensiva porque seja lá o que estiver acontecendo, desde que eu esteja segura, vou encarar como experiência. Apreensão maior é ver essa situação e ter que se posicionar baseando-se nas informações da mídia, sempre muito tendenciosa, seja de esquerda, seja de direita. Espero poder ver as coisas com maior clareza depois dessa viagem. E com certeza vou incluir no roteiro visitar um centro de refugiados.

      1. Oi, Luiza,
        Estava tudo surpreendentemente normal. Vimos alguns refugiados em uma estação de trem de Viena, mas tudo muito tranquilo. Não sei se a mídia nos assusta ou se a situação foi rapidamente resolvida, encaminhando os refugiados para as cidades que os aceitariam. Tenho um aluno alemão que disse que uma cidade de então 100 habitantes recebeu 1.0000 refugiados! Quanto ao controle de fronteiras, nada também. Eu tinha entrado em contato com o Consulado Húngaro que me informou que haveria certo controle dentro do trem rumo a Budapeste, mas só houve a conferência regular do bilhete. No trecho entre Praga e Viena o fiscal pegou um pouco no meu pé porque o voucher não tinha o número do meu passaporte e achei estranho que ele só pediu o meu passaporte para confirmar e não dos demais passageiros. Mas deu tudo certo.
        Kleber, espero que faça uma viagem tão linda como a nossa!

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