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Grandes Viajantes: a aventureira Isabelle Eberhardt

“Com as roupas de uma moça europeia, nunca teria visto nada. O mundo estaria fechado para mim, porque a vida exterior parece ter sido feita para o homem e não para a mulher”. Foi o que disse Isabelle Eberhardt em uma de suas cartas, compiladas no livro Ecrits intimes (Escritas Íntimas). Vestir-se de homem para poder explorar o mundo, porém, não era nem de longe a coisa mais fantástica sobre Eberhardt.

Uma mulher que falava seis idiomas, escreveu livros e publicou em jornais sobre suas aventuras viajantes, explorou o norte da África como quase ninguém em seu tempo, se converteu muçulmana, casou-se com um turco, sobreviveu a um atentado de sabre, fez parte de uma sociedade secreta islâmica, chegou a ser expulsa da Argélia pelos colonizadores franceses e morreu muito jovem, aos 27 anos.

Nascida em 1877, em Genebra, na Suíça, filha de uma aristocrata russa e sem pai registrado. Muito se especula, porém, que seu pai era o tutor da família, um ex-padre que se tornou anarquista e não podia registrar a menina porque ainda era casado com outra mulher na época do nascimento dela. Educada em casa com os irmãos, Isabelle aprendeu seis idiomas diferentes e, segundo a própria, foi educada como um menino e desde muito jovem aprendeu a se vestir como um para garantir sua liberdade, o que não era um problema para sua família.

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Aos 18 anos, ela publicou seu primeiro conto num jornal, com o pseudônimo de Nicolas Podolinsky, uma história sobre um estudante de medicina atraído fisicamente por um cadáver. Ela mesma também tentou estudar medicina, mas acabou desistindo, ao perceber que tinha mais interesse pela escrita.

Mais ou menos na mesma época seu irmão mais velho se juntou a Legião Estrangeira e foi designado para a Argélia. A irmã pediu que ele mantivesse um diário detalhado do que via no Norte da África e a enviasse. Ela usou esses relatos para fazer uma nova história para o jornal “Vision du Moghreb”, com seu pseudônimo masculino, uma história sobre a vida religiosa na região, que foi muito elogiada por ser bastante verossímil – e crítica ao colonialismo – para alguém que só conheceu o ambiente por meio de cartas.

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Em maio de 1897, ela viajou com a mãe para a Argélia pela primeira vez, a convite de um fotógrafo. Ambas, percebendo a atitude “nariz em pé” dos Europeus instalados na área, passaram a evitar residentes franceses, alugaram uma casa fora do distrito europeu e fizeram amizade com o povo árabe. Eberhardt, como era seu costume, passou a se vestir eventualmente como homem, turbante e tudo, visto que as mulheres muçulmanas não podiam sair de casa sozinhas e sem véu.

Claro que tais atitudes de uma mulher teriam consequência: os colonos franceses e a administração local basicamente detestavam Eberhardt e a mantinham sob vigilância. Isso não impediu ela e a mãe de se converterem ao islã e de Isabelle seguir escrevendo suas histórias para jornais locais. A adesão a religião muçulmana, fé que ela era realmente devota, não era suficiente para conter seu hábito de beber álcool frequentemente, consumir maconha e se envolver sexualmente com quem bem entendesse.

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Em 1897, a mãe de Isabelle morreu,  o que fez ela retornar para Europa. Mas em 1899 seu suposto pai e tutor também faleceu. Sem mais laços diretos com a Europa, Eberhardt decidiu viver como nômade e assumiu de vez a identidade masculina, com o nome de Si Mahmoud Saadi. Apesar da sociedade na Argélia aceitar seus costumes, em Genebra a situação era bem diferente: o que mais incomodava as pessoas não era o fato dela se vestir, falar ou escrever como homem, mas sim o fato de ser um homem árabe.

Nesse período ela viajou sozinha por aí, de cavalo, percorrendo a Tunísia, a Argélia e o deserto do Saara. Voltou mais uma vez para Europa, onde tentou em Paris tornar-se escritora. Quando o plano deu errado, conheceu uma viúva rica que se ofereceu para pagar a viagem de Ebergardt de volta para o norte da África para investigar o assassinato do marido. E lá foi ela, se instalando em El Oued. Sua investigação particular, porém, foi deixada de lado.

Foi nessa cidade, em 1900, que ela conheceu Sliman Ehnni, que era um sargento francês e muçulmano, e eles casaram-se segundo a tradição muçulmana. Caso você esteja se perguntando, não, Isabelle não deixou de se vestir de homem por causa do marido. Além do casamento com um homem muçulmano, seu conhecimento e paixão pela religião muçulmana a puseram em contato com a corrente do sufismo (uma corrente mística e esotérica do islã) e ela foi aceita numa sociedade secreta chamada Qadiriyya, dedicada a ajudar pessoas pobres.

Essa foi provavelmente a gota d’água para os colonizadores franceses, que há muito já eram hostis a Eberhardt. Eles acreditavam que ela era espiã ou agitadora, e inclusive se recusaram a autorizar o seu casamento no civil. Em janeiro de 1901, um homem a atacou com um sabre. Ela lutou e conseguiu se salvar da brutal tentativa de assassinato, ficou algum tempo no hospital, de onde saiu para o julgamento do seu misterioso ataque, perante o Conselho de Guerra.

Imediatamente após o julgamento ela foi expulsa do território argelino sem explicações – como seu casamento não era reconhecido oficialmente, não tinha direitos como esposa de um local. Refugiou-se na casa do irmão, em Marselha. Seu marido juntou-se a ela pouco tempo depois e eles casaram-se oficialmente na França.

Com o casamento, Isabelle pode voltar para a África. Então, em 1902, o período de serviço de Ehnni terminou e ele pode deixar o exército e juntos foram morar em Argel, capital do país. Lá, Eberhardt conseguiu um emprego num jornal local e seguiu escrevendo artigos e até foi ser repórter de guerra no Marrocos, fato que a aproximou ainda mais de movimentos anticoloniais. Em 1904, adoecida, foi morar numa casa feita de argila, na pequena província de Aïn Séfra. Infelizmente, uma enchente devastou a região e Eberhardt acabou morrendo afogada, aos 27 anos.

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Seu legado foram três coleções de diários publicados postumamente, contando as histórias de uma mulher que viajava vestida de homem. “Esta é a minha vida real, a vida de uma alma aventureira, livre de mil pequenas tiranias, daquilo que se chama os costumes, o “patrimônio”, e ávida de grandes espaços abertos, e de uma vida variada e livre.”

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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 30 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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