Grandes Viajantes: Amelia Earhart e a aviação

Quase todo mundo conhece a história da Amelia pelo final. Em 1937, quando faltavam poucos quilômetros para ela terminar o mais longo voo de volta ao mundo já feito até então – porque se concentrava na região equatorial -, o avião dela sumiu no meio do Pacífico. Como ela era uma aviadora famosa, toda a história do acidente (ou seja lá o que aconteceu) é envolta em mistérios e hoje faz parte da cultura pop: existem vários filmes, livros e músicas sobre a Amelia Earhart.

Amelia nasceu em 1897, no Kansas, EUA, e ao longo de sua infância e adolescência se acostumou a mudar muitas vezes de cidade, tudo por causa da profissão do pai, um advogado de empresas ferroviárias. Ela sempre se interessou por literatura, ciências e aventuras. Sua biografia conta que ela tinha um álbum de recortes com casos de mulheres de sucesso em carreiras que na época eram predominantemente masculinas, como direção de filmes, advocacia, publicidade e engenharia. Aos 19 anos, ela iniciou uma faculdade só para mulheres, mas desistiu no segundo ano para trabalhar como ajudante na enfermaria de um hospital da Cruz Vermelha em Ontário, no Canadá, durante a Primeira Guerra Mundial.

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Foi nessa época que ela teve o segundo contato com aviões. Sim, o segundo, porque na primeira vez que ela viu um avião, aos 10 anos de idade,  não achou a menor graça naquela geringonça, que ela chamou de “lata-velha”. Mas, cerca de dez anos depois, a situação foi bem diferente. Ela estava com uma amiga numa feira aérea durante a Exposição Nacional do Canadá em Toronto. Um piloto viu as duas observando o voo e, para assustá-las, mergulhou com o avião na direção delas. Amélia não ficou assustada. Ao contrário, ficou extasiada com a experiência: “Eu não entendi isso na época, mas acredito que aquele pequeno avião vermelho me disse algo enquanto se aproximava”, ela contou mais tarde.

Com o fim da guerra, ela se inscreveu numa faculdade de medicina, na Universidade de Columbia, mas acabou desistindo e foi morar com a família na Califórnia. Foi lá que ela teve sua primeira experiência de voo, quando o piloto  Frank Hawks a convidou para um passeio, enquanto ela e o pai visitaram uma pista de pouso. “No momento em que estava a duzentos ou trezentos pés acima do chão, eu descobri que precisava voar”, revelou. 

Depois disso, ela passou a correr atrás desse sonho: arrumou diversos trabalhos diferentes para conseguir pagar as aulas de voo. Foi fotografa, motorista de caminhão, telefonista. Sua professora também era uma mulher pioneira na aviação: Neta Snook, a primeira mulher a ter uma empresa de aviação e um aeródromo comercial.

Depois de aprender a voar, o próximo passo de Earhart foi juntar dinheiro para comprar seu próprio avião: um modelo de segunda mão, pintado de amarelo, que ela chamou de The Canary (o Canário). Foi nele que ela quebrou seu primeiro recorde, como a primeira mulher voando numa altitude de 14 mil pés. Em 1923, ela conseguiu licença de voo da Fédération Aéronautique Internationale – foi a 16ª mulher no mundo a alcançar o feito. 

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Amélia com sua professora Neta Snook

Infelizmente, em 1924 sua família estava numa situação financeira difícil e ela teve que vender o Canário. Na mesma época, ela também tentou retomar os estudos em Columbia, mas teve que desistir porque não tinha como financiar o curso. Passou a trabalhar como professora e assistente social. Mesmo sem seu avião, ela continuou interessada em aviação, trabalhando como representante de vendas de aeroplanos e escrevendo para um jornal local sobre o tema. Ela também iniciou um projeto de uma organização para mulheres pilotos.

A primeira travessia

Em 1928 a vida dela mudou totalmente – ela foi convidada para ser a primeira mulher a cruzar o Atlântico de avião. O voo era muito importante porque outros três pilotos tinham morrido tentando fazer a mesma coisa. No projeto estavam envolvidos o relações públicas George P. Putnam, o piloto Bill Stultz e o co-piloto Slim Gordon. Amelia era meramente uma passageira no avião.

A travessia durou 21 horas e foi festejada no mundo todo, com direito a parada em Nova York quando eles chegaram e recepção do Presidente dos Estados Unidos. Numa entrevista, logo após a aterrissagem, ela disse: “Stultz fez tudo o que foi necessário. Eu fui somente bagagem, como um saco de batatas. Talvez um dia eu tente fazê-lo sozinha.”

Amelia_Earhart,_circa_1928

Earhart pode não ter pilotado o avião, mas acabou se tornando uma celebridade. Ela lançou um livro, passou a fazer palestras e conferências. Com a ajuda de Putnam, que a promovia, lançou vários produtos com sua marca, como bagagens e roupas femininas para “quem tem uma vida ativa”, usando materiais que não amarrotavam e eram facilmente laváveis. Com a fama ela também se tornou editora associada da revista “Cosmopolitan”, aproveitando a oportunidade para ganhar a aceitação pública de mulheres na aviação e promover uma maior participação feminina na área.

Eventualmente, ela e Putnam acabaram se casando. Claro, ela se recusou a usar o nome do marido e fazia questão de manter sua própria independência. Ela acreditava no casamento como uma parceria. E de fato era assim. Ela e o marido planejaram secretamente para que Amelia fosse a primeira mulher e a segunda pessoa no mundo a fazer um voo solo pelo Atlântico. Em 1932, ela partiu dos Estados Unidos em direção a Paris, cinco anos depois de Charles Lindbergh realizar o mesmo feito.

Ela passou por ventos e condições climáticas extremas. Com a problemas mecânicos, acabou pousando num pasto na Irlanda: “Depois de assustar a maioria das vacas na vizinhança, eu aterrizei no quintal de um fazendeiro”. O feito rendeu a ela várias medalhas e reconhecimento internacional de seu talento como pilota, afinal fazer um voo transatlântico naquela época era algo extremamente perigoso. Para ela, o feito provou que homens e mulheres eram semelhantes em trabalhos que exigem inteligência, coordenação, velocidade, frieza e força de vontade. 

Nos anos seguintes, Amelia Earhart continuou voando e estabelecendo novos recordes e vencendo competições. Ela também seguiu com suas campanhas de apoio às mulheres na aviação, e tornou-se a primeira presidente de uma organização chamada The Ninety-Nines, voltada para a causa.

Áudio de Amelia Earhart (inglês) em 1935, encorajando mulheres a seguirem a carreira de aviadoras

O último voo

Em 1937 ela tentou realizar mais um feito importante para sua carreira: queria ser a primeira mulher a voar ao redor do mundo. Dois anos antes ela havia se tornado membro do corpo docente do Departamento de Aeronáutica da Purdue University, que financiou um avião novo, muito moderno, que permitiria a viagem de circunavegação. Seus planos seguiam a rota mais longa, equatorial, que completaria 47 mil quilômetros de voo.

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O avião Lockheed 10E Electra

A primeira tentativa, em março de 1937, foi fracassada, com o avião passando por sérios problemas mecânicos. Na época, ela disse para a imprensa: “Tenho a sensação que só há mais um bom voo esperando por mim e espero que essa seja a viagem”. No dia 1º de junho, Earhart e o seu navegador, Fred Noon, partiram de Miami em direção ao mundo. Fizeram escalas na América do Sul, África, Índia e sudoeste da Ásia. Eles chegaram em Lae, Nova Guiné em 29 de junho de 1937.

Nesse momento a viagem tinha completado cerca de 35.000 km  – ainda faltavam 11.000 km. A maior parte do trajeto final seria cruzando o Oceano Pacífico. Aquele era um momento crítico da viagem, porque eles partiriam de Lae em direção à Ilha Howland, uma estreita faixa de terra no meio do oceano. Havia dois navios no caminho, posicionados como marcas do plano de voo, além do apoio do sistema de rádio da guarda costeira dos Estados Unidos.

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O Plano de Voo. Crédito: Hellerick (CC BY-SA 3.0)

No dia 2 de julho, Earhart e Noon partiram. As condições climáticas não eram as melhores, com muitas nuvens e chuva intermitente. O principal método de navegação de Fred Noon era observação celestial, o que foi dificultado pelo clima. Perto do horário do pôr do sol, Amelia fez contato via rádio, pedindo ajuda com a navegação, mas, devido a um problema no sistema de comunicação do avião, teve dificuldades para ouvir as respostas.

O relógio marcava 19h42 quando ela mandou a seguinte mensagem: “Nós devemos estar próximos de vocês, mas não conseguimos vê-los. O combustível está acabando. Não conseguimos contatá-los via radio. Estamos voando a 1000 pés”. O navio mais próximo tentou responder, sem sucesso. Às 20h45 Earhart mandou sua última mensagem sobre a posição do avião.

Logo após a falta de comunicação com a aviadora, equipes de resgate iniciaram as buscas, via aérea e naval. Foram gastos 4 milhões de dólares e esquadrinhados mais de 400 mil quilômetros quadrados de oceano por 18 dias. Não há nenhuma prova sobre o que de fato aconteceu com o avião de Amelia Earhart. As teorias mais aceitas acreditam que eles ficaram sem combustível e caíram no oceano. Outras pessoas acham que o avião caiu numa ilha próxima. Claro, também houve espaço para teorias da conspiração, falando de envolvimento com espionagem, sequestro dos japoneses antes da Segunda Guerra e até que Amélia não morreu, só fingiu o acidente para mudar de identidade.

O legado

Amelia Earhart continuou sendo admirada no mundo inteiro como uma grande pioneira da aviação mundial. Um farol foi construído na Ilha Howland em sua homenagem, assim como existem ruas, escolas e aeroportos nos Estados Unidos. Prêmios e bolsas de estudos são dados em seu nome. Ela é lembrada por sua coragem e grandes conquistas, tanto para a aviação em geral quanto para os direitos da mulher. Antes de partir, ela escreveu uma carta para o marido, ciente dos perigos da sua jornada, mas justificando sua necessidade em fazê-lo: “Por favor saiba que eu sei dos perigos. Mas quero fazer isso porque quero. As mulheres devem tentar fazer coisas assim como homens tentaram. Quando elas falham, suas falhas devem ser um desafio para outras”.

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Em seus 15 anos de carreira como aviadora, Amelia Earhart quebrou cinco recordes mundiais e foi pioneira em outras 10 conquistas pilotando aviões. Ela também publicou dois livros sobre o tema (20 h., 40 Min. e The Fun of It), além de seu marido ter compilado numa publicação (Last Flight) as notícias que ela enviava durante a volta ao mundo.

Este texto é o primeiro de uma nova série do 360meridianos que tem como tema mulheres que foram pioneiras do mundo das viagens, todas inspiradoras e com vidas muito interessantes.

*Todas as imagens usadas nesse post são de Domínio Público


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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 30 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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