Júlia Lopes de Almeida e as histórias da nossa terra

Na entrevista concedida a João do Rio, em 1904, Julia Lopes de Almeida conta como se deu o início da sua carreira de escritora. Nascida no Rio de Janeiro, em 1862, filha de portugueses de família aristocrática, ela foi um importante nome da literatura brasileira da época, mas que acabou relegada pelo cânone.

“Pois eu em moça fazia versos. Ah! Não imagina com que encanto. Era como um prazer proibido! Sentia ao mesmo tempo a delícia de os compor e o medo de que acabassem por descobrí-los. Fechava-me no quarto, bem fechada, abria a secretária, estendia pela alvura do papel uma porção de rimas…”.

Sua criação tradicional a educou para ser esposa, mas a veia literária a levou a escrever os primeiros versos ainda menina, escondida pelos cantos da fazenda onde viveu dos sete aos 23 anos, em Campinas. Escrever, para mulheres da geração dela, era um ato solitário de rebeldia, e ser descoberta poderia levar a ridicularizações e desencorajamentos. As poucas que se atreviam a publicar seus trabalhos o faziam por meio de nomes falsos. “A mim sempre me parecia que se viessem a saber desses versos em casa, viria o mundo abaixo”, confessou ela a João do Rio.

Foi por obra de sua irmã que Julia Lopes de Almeida acabou descoberta, quando ela a pegou num de seus esconderijos e entregou um dos poemas ao pai que, depois de ler, voltou tranquilamente sua atenção para o jornal e não disse nada.

“Tinha uma grande vontade de chorar, de pedir perdão, de dizer que nunca mais faria essas coisas feias, e ao mesmo tempo um vago desejo que o pai sorrisse e achasse bom. Ele, entretanto, severamente lia. Na sua face calma não havia traço de cólera ou de aprovação. Leu, tornou a ler.”

No dia seguinte, saíram para uma apresentação de Gemma Cuniberti, pianista italiana, e, ao final, o pai lhe disse que haviam encomendado a ele um artigo sobre a apresentação, mas que ele não poderia fazer por estar muito ocupado, e que Julia deveria escrevê-lo em seu lugar. Foi sua forma de conceder-lhe o aval e o encorajamento que ela precisava para continuar a escrever.

Júlia Lopes de Almeida

Entre as obras de maior destaque da escritora estão seu principal romance, A Falência; o livro A Casa Verde, escrito em parceria com seu marido Filinto de Almeida; o livro de crônicas Eles e Elas, que trouxe reflexões feministas avançadas para a época; Pássaro Tonto, um romance baseado no tempo em que viveu em Paris; e Jornadas do meu Pais, no qual ela retrata suas viagens pelo Brasil.

Júlia era republicana, abolicionista e feminista e esses temas estão presentes tanto em seus livros quanto nas colaborações feitas aos jornais e revistas da época. Ela foi uma das primeiras mulheres a publicar em jornais brasileiros, tendo colaborado com a Tribuna Liberal, A Semana, O País, A Gazeta de Notícias, Jornal do Comércio, O Estado de S. Paulo e Ilustração Brasileira.

Ela fez parte do grupo de intelectuais que fundou a Academia Brasileira de Letras e seu nome chegou a constar na primeira lista de imortais da entidade, em 1897, mas foi excluída na primeira reunião por uma decisão que tornou as mulheres impedidas de integrar a ABL, com a justificativa de que sua criação foi baseada no modelo francês, naquela época exclusivamente masculino. Seu marido, Filinto de Almeida, assumiu a cadeira em seu lugar.

Histórias da nossa e de outras terras

Como escrever impressões de viagem de um modo impessoal, se tudo que o escritor observa tem de ser julgado pelo seu modo exclusivo de ver e de sentir?

Julia Lopes de Almeida, Jornadas do Meu País

Muito da matéria-prima das obras de Júlia Lopes de Almeida vem das suas viagens. A escritora realizou diversas expedições pelas mais diferentes partes do nosso país e registrou aquilo que viu tanto em forma de crônicas de viagem, casos de Jornadas do Meu País e Cenas e Paisagens do Espírito Santo, quanto em contos ficcionais com viés educativo e voltados para o público infanto-juvenil, caso de Histórias da Nossa Terra.

Júlia fez inúmeras viagens à Europa, visitou a África e chegou a viver em Portugal e Paris, mas não tinha interesse em se limitar a escrever sobre destinos europeus. Mais do que isso, ela queria incentivar quem a lia a conhecer a grandeza e a diversidade do Brasil, sua natureza, as repercussões das guerras e da recente abolição da escravatura e o processo de transformação nacional inerente à passagem do Império à República.

No livro Jornadas do Meu país, que narra a temporada que ela passou desbravando o sul do Brasil, Julia começa com uma reflexão sobre as mudanças que a estrada provocava em seu estado de espírito e na sua capacidade de observação do mundo:

Como sempre que me disponho a partir para longe, a minha viagem começa, mal ponho o pé fora da soleira de casa. É sempre assim: olho então para as coisas mesmo as mais banais e insignificantes com redobrada atenção, no desejo inconsciente de as guardar na retina para as levar comigo.

Julia Lopes de Almeida, Jornadas do Meu País

Foi com esse senso de observação que ela registrou o processo de modernização do país, ao mesmo tempo em que se escandalizava com a quantidade de árvores cortadas para alimentar as indústrias, mais um traço do senso crítico e político que marcaram sua obra.

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Fontes:https://semclassepodcast.wordpress.com/2019/04/23/ep04-julia-lopes-de-almeida-um-convite/http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bn000134.pdfhttp://www.encontro2016.sp.anpuh.org/resources/anais/48/1468954640_ARQUIVO_TextoCompleto.pdf

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Natália Becattini

Jornalista, escritora e mochileira. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Já chamei muito lugar de casa, mas é pra BH que eu sempre volto. Além do 360, mantenho uma newsletter inconstante, a Vírgulas Rebeldes, na qual publico crônicas e contos . Siga também no instagram @natybecattini e no twitter.

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