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A história de Lee Miller: artista surrealista e fotógrafa de guerra

Eu conheci a história de Lee Miller numa visita ao Museu Albertina, em Viena. Depois de ver Picasso e Monet, desci ao último andar que faltava e descobri o trabalho e a vida dessa fotógrafa numa exposição temporária. E soube imediatamente que precisava escrever a história dela por aqui.

Segundo o museu, em 16 anos de trabalho, Miller produziu um variedade de trabalhos fotográficos que continua sem paralelos, unindo os mais diversos gêneros: as imagens surrealistas, a fotografia de moda, viagem, retratos e correspondência de guerra.

Lee Miller nasceu em 1907, nos Estados Unidos e numa família supostamente comum – pai, mãe e dois irmãos. Mas não tão comum assim, porque o pai era fã de fotografia e não só ensinou a arte para a filha, como a usava como modelo em fotos bastante controversas – o pai fotografava a jovem nua. Um ponto triste de sua história é que, aos 7 anos, ela foi estuprada e contraiu gonorreia. A história oficial é que foi um marinheiro desconhecido quando ela estava visitando a casa de amigos, mas tem quem diga que o pai foi o responsável. Pouca gente sabia do caso até a morte de Lee.

Ela tornou-se modelo profissional em 1927, literalmente por acidente:  quase foi atropelada numa rua na cidade de Nova York, mas foi salva pelo editor da Vogue na época, Condé Nast. Assim, nos dois anos seguintes, tornou-se a modelo mais requisitada da cidade até que, em 1928, apareceu em um comercial de absorvente, o que foi uma polêmica gigante para a época e meio que acabou com a carreira da modelo.

LeeMiller

Miller, porém, já estava interessada em outros assuntos. Embarcou para Paris em 1920, e foi, sem encontro marcado, atrás de Man Ray. Para quem não sabe, Man Ray é um artista surrealista muito renomado que atuava em várias áreas, mas principalmente pintura e escultura. Uma das suas obras mais conhecidas é essa aqui:

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Le Violon d’Ingres. Crédito: © Man Ray Trust ARS-ADAGP

Ela chegou num café onde o artista estava, se apresentou e disse que gostaria de trabalhar com ele. Ray estava partindo para uma viagem de férias para Biarritz, também na França, e Miller respondeu: eu também vou. Os dois começaram então um romance e parceria de trabalho. Lee aparece em diversos trabalhos de Ray como modelo. Mas dizer que Lee Miller era simplesmente a musa de Man Ray é reduzir muito sua importância.

Para começar, ela tinha seu próprio estúdio de fotografia em Paris. Era uma artista excepcional e, ao mesmo tempo, uma mulher muito liberal e independente, o que chocava até mesmo os artistas mais moderninhos daquela época. Ela era amiga pessoal de Picasso, Paul Éluard, Jean Cocteau. Junto com Ray, criou a técnica de solarização – que dá as fotos esse ar meio iluminado, meio fantasmagórico.

Lee Miller

Crédito: © Man Ray Trust ARS-ADAGP

Existe uma suspeita de que vários dos trabalhos de fotografia que são creditados a Ray eram, na verdade, de autoria de Lee Miller.

Em 1932, Miller abandonou Ray e voltou para Nova York. O artista ficou tão desolado que produziu uma de suas obras mais famosas: “Object to Be Destroyedum metrônomo com somente o olho de Lee recortado de uma fotografia. Enquanto isso, ela abriu um estúdio de fotografia com o seu irmão, que era seu assistente.

Na cidade, participou de duas exposições importantes e também tinha como clientes celebridades de Hollywood e artistas da época. Dois anos depois, ela abandonou o estúdio, se casou com um empresário egípcio e mudou-se com ele para o país. Ela não trabalhou oficialmente no seu período em Cairo, mas algumas das fotos de viagem que tirou enquanto viveu lá são consideradas o melhor do seu trabalho surrealista, visto que ela transformava as paisagens em formatos modernistas e ambíguos.

Em 1937, Miller já estava cansada da vida no Egito. Separou-se e voltou para a Europa e foi viajar e viver com o pintor surrealista Roland Penrose. Ela morava em Londres com ele, quando começaram os bombardeios na cidade, na Segunda Guerra Mundial. Ignorando os pedidos para voltar aos Estados Unidos, ela continuou na cidade. Passou, então, a fazer fotos de moda para a Vogue, combinando as roupas e modelos glamourosas com os cenários de destruição pós-bombardeios.

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Crédito: NSU Art Museum Fort Lauderdale

Em 1942, ela tornou-se uma das 5 mulheres creditadas como correspondentes de guerra das forças armadas dos Estados Unidos. Ela fazia a cobertura para a Vogue. Que não só recebia suas fotos, sempre muito próximas da realidade, mas também os textos que contava sobre suas experiências. Ela acompanhou as campanhas militares do Dia D, na Normandia, e a liberação da França. Chegou a um ponto em que era a única mulher a fotografar o front da guerra, incluindo o primeiro uso de napalm da história.

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Crédito: NSU Art Museum Fort Lauderdale

Esteve em Viena em 1945, para fotografar a cidade destruída pela guerra e a triste realidade dos hospitais infantis. Em Budapeste, cobriu a população sem teto e a execução do ex-primeiro-ministro fascista, Lazlo Bardossy. Mas, sem dúvida, seu trabalho mais comovente e marcante são dos horrores dos campos de concentração de Buchewald e Dachau. Ela foi uma das primeiras pessoas que, junto com o exército, viram as condições de terror dos campos. Você pode ver várias das fotos nessa reportagem do The Guardian.

Junto com seu fotógrafo parceiro, David E. Scherman, correspondente da revista Life, fez uma de suas fotos mais icônicas, um retrato dela na banheira do apartamento de Adolf Hitler, em Munique.

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Crédito: Lee Miller Archive

Ela voltou para a Inglaterra e continuou trabalhando para a Vogue por dois anos, mas como fotógrafa de moda e celebridades. Miller começou a sofrer com síndrome de estresse pós traumático, devido às cenas que viu durante a guerra. Na época, a doença não era conhecida e os médicos definitivamente não sabiam como tratar. A fotógrafa começou a beber muito e tinha momentos de melhora, como quando seu filho Antony nasceu, mas vivia tendo recaídas.

Nos anos 1950 e 1960, viveu com a família numa fazenda que era uma meca para os artistas da época, a Farley Farm. Picasso, Man Ray, Henry Moore, Eileen Agar, Jean Dubuffet, Dorothea Tanning, e Max Ernst eram presenças constantes (se você não souber quem são, uma pequena olhadinha no Google confirma a importância desse pessoal para a arte moderna). Além da fotografia, que continuou sendo parte da vida de Lee Miller, nesse período ela também se especializou na cozinha e tornou-se uma chef gourmet.

Ela morreu de câncer, em 1977, aos 70 anos. Seu filho segue trabalhando para que o legado da mãe seja lembrado. Ele conta que descobriu escondidos em casa várias caixas com fotos e textos da mãe, alguns trabalhos nunca publicados. Criou o site Lee Miller Archives, onde suas fotos estão disponíveis, é curador de exposições e escreveu a biografia The Lives of Lee Miller.

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Crédito: David_E_Scherman: Lee Miller, 1944

Infelizmente, a maioria das fotografias da Lee Miller não estão disponíveis na internet para colocar aqui no post. Mas dá para ver algumas delas em reportagens ou no site que o filho criou.

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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 34 anos e atualmente moro na Inglaterra, quando não estou viajando. Já tive casa nos Estados Unidos, Índia, Portugal e Alemanha, e visitei mais de 45 países pelo mundo afora. Além de escrever, sempre invento um hobbie novo: aquarela, costura, yoga... Siga minhas viagens em @afluiza no Instagram.

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