No Sertão e outras histórias de Maria Clara da Cunha Santos

Grandes nomes da literatura brasileira no século 19 e começo do 20, como Machado de Assis, José de Alencar, João do Rio e Álvares de Azevedo, iniciaram suas carreiras em folhetins. A publicação periódica de crônicas e contos sobre o cotidiano e a sociedade era bastante popular nos jornais e revistas da época. Porém, enquanto cronistas como os citados conseguiram alcançar fama e prestígio a partir de seus textos, as contemporâneas do sexo feminino, apesar de também terem gozado de reconhecimento e elogios no seu tempo, foram em sua maioria esquecidas e apagadas das memórias do jornalismo e da literatura.

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É o caso de Maria Clara da Cunha Santos, que sequer conta com um verbete na Wikipédia. Suas crônicas eram humorísticas e perspicazes. Seus contos tinham influências dos estilos da época, como o romantismo e o realismo. Segundo Maria Alciene Neves, que fez uma dissertação sobre a escritora, Maria Clara estava num processo de amadurecimento estético, interrompido por sua morte precoce.

“Em Maria Clara é possível encontrar um conjunto de características que não se prendem a um estilo especificamente. Há o arrebatamento por amor, que quase sempre leva à morte ou à loucura, há a sublimação dos sentimentos, uma espécie de determinismo e fatalismo que envolve os personagens, um exercício interessante de descrições, como também o fechamento com “chave de ouro”. Nesse exercício, podemos encontrar uma Maria Clara que caminha para o amadurecimento.” (Os Brilhantes Brutos de Maria Clara da Cunha Santos, 2009, Maria Alciene Neves)

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A autora nasceu em Pelotas, em 1866, mas logo mudou-se para Minas Gerais, de onde sua mãe era nativa e seu pai atuava como juiz. Foi ali, em Pouso Alegre, com a amiga e prima Presciliana Duarte de Almeida, que ela participou da produção de um jornalzinho manuscrito chamado O Colibri, uma das primeiras experiências da autora com a escrita.

“O Colibri, periódico bimensal que publicamos durante tantos anos em Pouso Alegre, fala bem alto em nome dos nossos ideais! Sem tipografia nem meios de mandá-lo imprimir, conseguimos todavia publicado em manuscrito, com certa regularidade relativa! Tendo sempre por alvo o engrandecimento moral e intelectual da mulher, nunca trepidamos diante de preconceitos ou de qualquer sorte de dificuldades que nos surgissem no caminho. Como periódico manuscrito, de limitadíssima tiragem e distribuição gratuita, ficou quase inteiramente desconhecido o Colibri; entretanto, a sua coleção, religiosamente guardada por nós, servirá um dia para mostrar a nossas filhas que, mesmo sem o preparo e cultivo necessários, soubemos compreender a grandeza da causa que defendíamos e pela qual ainda hoje trabalhamos”. (Carta de Presciliana Duarte a Maria Clara, 1897, Revista A Mensageira n1)

Presciliana acompanhou de perto a carreira de Maria Clara. As duas publicaram juntas o livro de poesias Pirilampos e Rumorejos (1890), que foi bastante elogiado pela crítica e público. E quando Presciliana fundou a revista literária A Mensageira, em São Paulo, quis a colaboração da companheira de letras, que naquele momento já morava no Rio.

Chamada “a revista literária dedicada à mulher brasileira”, a publicação circulou em São Paulo entre 1897 e 1900. Na coluna fixa Carta do Rio, Maria Clara era uma correspondente da revista na capital. Ela escrevia suas impressões sobre a vida carioca, fazia críticas culturais e publicava anedotas. Além da coluna, a autora também contribuiu com contos para a sessão literária, espaço que dividia com outras escritoras brasileiras e portuguesas de referência, como Júlia Lopes de Almeida e Maria Amália Vaz de Carvalho.

Ao longo da carreira, Maria Clara explorou diversos aspectos da escrita: jornalismo, poesia, contos e crônicas, e também se expressou em outras formas artísticas, com a pintura e a música. Ela escreveu para alguns dos principais jornais e revistas da época, como A Gazeta de Notícias, O Paiz, A Semana, Tribuna Liberal, Correio da Tarde, Jornal do Brasil e A Família. E publicou outros dois livros de crônicas: Painéis (1902) e América e Europa (1908). O último lhe rendeu a medalha de Ouro na categoria Livros e Publicações na Exposição Nacional de 1908 do Rio de Janeiro.

Maria Clara era engajada em questões sociais. Ela participou da luta pela liberdade dos escravos, fazendo parte da Aliança Libertária de Pouso Alegre. E também de associações no Rio de Janeiro em prol de direitos das crianças e da filantropia, inclusive dedicando a renda obtida com seus livros para causas sociais.

Casou-se com um abolicionista, o engenheiro José Américo dos Santos. Tinham uma ativa vida social nos círculos culturais do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Era comum ser convidada como oradora e participar de saraus de poesias. O casal viajou bastante e não teve filhos. A trajetória intelectual de Maria Clara da Cunha Santos foi interrompida cedo. A escritora faleceu em 1911, aos 45 anos, no Rio de Janeiro.

No Sertão e outras histórias

Apesar de escrever uma coluna sobre a vida no Rio de Janeiro, o sertão onde Maria Clara cresceu era uma constante fonte de inspiração.

“A alguém que porventura desconhecesse completamente o mérito literário de Maria Clara da Cunha Santos, deparar-se-ia propícia ocasião de avaliar-o pela leitura de seu belo conto No sertão, com o qual brindamos nossos leitores”, disse Perpétua do Valle (pseudônimo de Presciliana Duarte de Almeida), numa homenagem à escritora na edição 23 da revista A Mensageira (1898).

Foto Livro Sertao Maria Clara Cunha Santos

Foi essa a linha narrativa que decidimos para a edição de “Sertão”, no Clube Grandes Viajantes. Trata-se de uma coletânea inédita de contos e crônicas de Maria Clara da Cunha Santos, publicadas originalmente em A Mensageira, entre 1897 e 1899.

No Sertão é o conto de abertura do livro, uma introdução a esse mítico espaço, que, como diz a autora, “ninguém encontra”. As narrativas misturam as memórias de sua infância e adolescência, como o Juca da Generosa e Brilhantes Brutos; histórias moralizantes, como Mártir do Amor e Saudade Incurável; e causos engraçados, como Bodas de Prata e as curtas crônicas que encerram o livro.

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Infelizmente, hoje há pouquíssimas referências sobre Maria Clara da Cunha Santos e mesmo na internet são raras as informações sobre as obras dela. Por isso, convidamos você a conhecer essa escritora e suas histórias do sertão. Para receber o livro você precisa assinar o clube no mês de junho/2021: Clique aqui para saber mais!

Clube Grandes Viajantes

Olá, somos a Luíza Antunes, o Rafael Sette Câmara e a Natália Becattini. Há 10 anos fazemos o 360meridianos, um blog que nasceu da nossa vontade de conhecer outras terras, outros povos, outras formas de ver o mundo. Mas nós começamos a sonhar com a estrada ainda crianças e sem sair de casa, por meio de livros sobre lugares fantásticos. A gente acredita que algumas das histórias mais incríveis do mundo são sobre viagens: a Ilíada, de Homero, Dom Quixote, de Cervantes; Harry Potter, Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos. Todo bom livro é uma viagem no tempo e no espaço. E foi por isso que nasceu o Grandes Viajantes: o clube literário do 360meridianos. Uma comunidade feita para você que ama ler, escrever e viajar.

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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 30 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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