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Um diário do ano da peste e a grande praga de Londres

Durante meses, o choro foi o som mais comum nas ruas de Londres. Com meio milhão de habitantes, em 1665 a cidade era a capital do maior Império do mundo. E não parava de crescer e enriquecer. Até que a peste negra — que dois séculos antes tinha matado quase metade da população europeia — voltou. Ao longo daquele ano, a grande praga de Londres matou cerca de 100 mil pessoas. O relato dessa epidemia sobreviveu aos séculos e pode ser facilmente encontrado em português, no livro Um diário do ano da peste, de Daniel Defoe.

Defoe é um nome conhecido em todo mundo por conta de seu livro mais famoso, o romance Robinson Crusoe. Um diário do ano da peste é tão realista que por muito tempo se discutiu se seria ou não ficção. A resposta está no meio do caminho: é que Daniel Defoe tinha apenas cinco anos quando a praga começou. E o livro, narrado em primeira pessoa, tem como personagem principal um homem adulto, nomeado apenas como H.F. — provavelmente Henry Foe, um tio do escritor e que esteve em Londres durante a pandemia.

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Ou seja, Um diário do ano da peste é um relato ficcional, mas baseado em fatos reais e numa extensa pesquisa de Defoe, que revirou os arquivos de Londres para fornecer dados detalhados sobre a epidemia. Por isso, é um livro frequentemente analisado em aulas de jornalismo. E que dá dicas importantes para quem vive outras epidemias.

“Londres estava toda em lágrimas. A choradeira das mulheres e das crianças, nas janelas e portas das casas onde seus parentes mais queridos talvez estivessem morrendo, ou recém mortos, era tão frequente quando se passava pelas ruas que bastava para cortar o mais insensível coração do mundo”.

Um diário do ano da peste, de Daniel Defoe

A peste chegou devagar, o medo não

Em 1664, o Reino Unido e os Países Baixos estavam em guerra. E foi de Amsterdam que a peste chegou, no final daquele ano, embarcada em algum navio. Quando os primeiros mortos em solo inglês surgiram, a tendência inicial foi atribuir o problema a outras doenças, como a febre tifoide. Isso foi feito não apenas pelas autoridades, mas pelas próprias pessoas, que não queriam que suas casas fossem fechadas em quarentena, uma regra para conter a epidemia.

A peste bubônica é uma doença tão antiga quanto a humanidade. Ela é causada pela bactéria Yersinia pestis, transmitida principalmente pelas pulgas de ratos. Os sintomas iniciais se parecem com os de uma gripe comum: febre, dor de cabeça, calafrios, fraqueza, náuseas… A marca inquestionável da doença — e de onde a peste tirou seu sobrenome — é um aumento repentino nos linfonodos, que ficam do tamanho de ovos de galinha. Os bubões.

O contágio acontece após a picada das pulgas, mas também pelos fluidos de animais e pessoas contaminadas — sim, pela saliva. Foi só no final do século 19, quando uma epidemia de peste atacou Hong Kong, que a doença começou a ser compreendida e a bactéria foi identificada. Com a chegada dos antibióticos, a peste bubônica deixou de ser uma ameaça para a humanidade. Mas ainda existe. E sem tratamento, mata.

Em 1664, logo o número de mortes não pôde mais ser escondido. Era a peste. Muito antes da doença chegar em Londres, o medo tomou conta da cidade. Quem tinha juízo e dinheiro foi embora. “O povo fugiu de uma maneira que comecei a pensar que não sobraria realmente ninguém, só ficando oficiais de justiça e criados”, conta o diário de Defoe, digo, de H.F.

Mas muita gente ficou em Londres, principalmente gente pobre. Já a corte se mudou para Oxford.

londres praga

As universidades suspenderam as aulas e os alunos voltaram para suas casas. Um deles, um certo Isaac Newton, aproveitou os meses no lar para formular algumas de suas mais famosas leis. Após a quarentena, Newton retornou para Cambridge preparado para mudar a História.

O governo proibiu grandes reuniões, fechou teatros e não autorizou a abertura de novos pubs. No comércio, o dinheiro era colocado dentro de um recipiente com vinagre e não era tocado pelos comerciantes, que por outro lado também não davam troco. As pessoas se evitavam nas ruas e quem podia não saía de casa. “A morte estava diante de seus olhos e todo mundo começou a pensar em seu túmulo, não em festas e diversões”, relata o narrador.

Como a medicina simplesmente não entendia a doença, inúmeros remédios eram vendidos. A maioria não servia para nada e alguns faziam mais mal do que bem. A prefeitura, acreditando que a doença era transmitida pelo ar ruim, mandou acender, 24 horas por dia, grandes fogueiras. E a fumaça tomou conta da cidade.

Gatos, cachorros e outros animais domésticos foram caçados e executados, sem direito de reclamação por parte dos humanos. “Um mal sempre chama outro. Os terrores e medos do povo o conduziam a mil fraquezas, loucuras e atos perversos”, conta o Diário.

Se uma pessoa da família ficasse doente, uma lei obrigava que o governo fosse avisado. A casa era então fechada e uma grande cruz vermelha era pintada na porta. Os moradores, os sadios e os doentes, ficavam trancados por 40 dias, e o governo colocava um vigia na porta de cada casa contaminada, dia e noite. Se fosse necessário comprar alimento ou remédios, era esse vigia que providenciava.

Como a taxa de letalidade da doença era altíssima, era comum que várias pessoas da mesma casa morressem, ainda mais após ser todo mundo trancado junto, sem separação. E não demorou para que os moradores “criassem todo tipo de estratagema para, se possível, sair de casa”. Isso só ajudou a espalhar a doença ainda mais, contaminando o interior do país, para onde fugiam os londrinos.

O problema é que muitos doentes ficavam assintomáticos. Nas ruas, as pessoas que se arriscavam faziam questão de passar longe umas das outras. E se os pobres tinham que trabalhar para conseguir o que comer — e não faltavam empregos perigosos, como de coveiros, vigias de casas fechadas, inspetores e enfermeiros — os ricos que optaram por ficar em Londres se salvaram juntando muitos mantimentos e fechando a porta de casa. “Houve famílias que se trancaram por meses: ninguém nunca as viu ou ouvir falar delas até a doença desaparecer completamente, quando, então, saíram para a rua, bem saudáveis”, conta o livro de Defoe.

Durante nove semanas, mil pessoas morriam por dia em Londres. No auge da epidemia, o número de mortos na cidade alcançou 10 mil. Por dia. E a subnotificação foi monstruosa, porque era impossível enterrar tanta gente num espaço tão pequeno de tempo de forma adequada. Enormes valas foram abertas nos cemitérios.

Toda noite, carroças passavam pelas ruas recolhendo os cadáveres. Segurando uma tocha, um homem gritava: “Tragam seus mortos”, enquanto outros sepultadores usavam pedaços de madeira para carregar os corpos, sem tocá-los, o que nem sempre era possível.

No cemitério, os mortos eram lançados na vala, que no fim da noite era coberta por uma camada de terra. “Não havia outra maneira de enterrá-los, nem poderia haver, pois não se conseguiam caixões suficientes para a prodigiosa quantidade de gente que sucumbiu naquela calamidade”, diz o narrador.

um diário do ano da peste

No meio do caos, desistimos do medo

O cenário arrasador criou uma contradição. Justo no auge da epidemia, quando corpos apodreciam nas ruas e quase toda família já tinha sido atingida, as pessoas resolveram se descuidar.

Quando se aproximou o fim, os corações dos homens estavam tão endurecidos e a morte era tão constante diante de seus olhos que já não se preocupavam tanto com a perda de amigos (…). O tempo acostumou-os a tudo aquilo e pouco depois todos se arriscavam em toda parte, sem hesitação

Um diário do ano da peste, de Daniel Defoe

As pessoas perderam o medo, se acostumaram com a morte. Quase a aceitaram. “Quando a peste chegou ao clímax, as pessoas eram menos cautelosas do que no princípio. Se tornaram intrépidas e aventureiras: não se intimidavam mais umas às outras, nem permaneciam dentro de casa. Iam a qualquer lugar, iam a toda a parte e voltaram a conversar”, conta o livro. Nas ruas, multidões.

Depois de matar 10 mil pessoas por dia, a peste começou a desaparecer. Mas isso aconteceu aos poucos, e foi notado pela queda no número de mortes. Nos relatórios públicos, que eram divulgados toda manhã, o número diário de mortos pela epidemia passou para oito mil, depois para seis, depois para quatro…

Sentindo que a doença acabava ou mesmo que não era mais tão letal, a população tomou as ruas de vez. E até famílias que tinham fugido de Londres meses antes do primeiro caso confirmado, permanecendo em segurança durante todo esse tempo no interior do país, voltaram antes do contágio estar controlado.

“Tal é o temperamento precipitado do nosso povo que, diante do primeiro pavor da epidemia, as pessoas evitavam-se umas às outras e fugiam das casas com medo. Espalhando-se a noção que a doença não era mais tão contagiosa como antes e que contraí-la já não era fatal, o povo adquiriu uma coragem tão precipitada e tornou-se tão despreocupado consigo mesmo que não considerava a peste mais que uma febre comum. Ou nem mesmo isso.

Um diário do ano da peste, de Daniel Defoe

Em Um diário do ano da peste, o narrador garante que essa precipitação em dar a epidemia por encerrada fez com que a redução do número de enterros fosse mais lenta do que poderia ter sido. “Depois de aparecer a primeira grande redução no registro dos mortos, os registros das duas semanas seguintes não diminuíram na mesma proporção”, conta.

diário de um ano da peste

A grande peste de Londres só acabou em 1666. A cidade era outra, afinal famílias inteiras tinham morrido e milhares de casas estavam abandonadas. Como nenhum país aceitava receber os navios do Reino Unido, por causa do medo da epidemia, a crise financeira tinha tudo para ser longa.

Só não foi porque aquele ano guardava mais uma tragédia para a cidade, o grande incêndio de Londres, que destruiu 15 mil casas e deixou 100 mil desabrigados. As chamas forçaram o governo a gastar dinheiro na reconstrução. “O comércio gerado pelo incêndio em todo o reino é inacreditável, suprindo as necessidades e reparando os danos”.

Passados os anos de tragédia, Londres voltou a enriquecer. Em seu livro, o narrador de Daniel Defoe afirma que gostaria de poder dizer que tantas dificuldades acabaram melhorando as pessoas, mas que isso não seria verdade. “O comportamento geral da população voltou a ser igual ao que era antes”.

Um diário do ano da peste: a grande praga de Londres em 2021

Muitos dos cemitérios e valas coletivas usadas durante a epidemia foram desativados nos anos seguintes. Em alguns casos, os ossos foram removidos para outros lugares, antes mesmo da total decomposição.

O incêndio de 1666 e o passar dos séculos modificaram muito a cidade, que aos poucos deixou de lado as construções de madeira, ainda uma herança medieval, e suas muralhas. Por outro lado, vários lugares da época ainda resistem, como a St Olave’s Church.

Para quem quiser saber mais dessa história, o livro Um diário do ano da peste tem diversas edições em várias línguas. Se você lê em inglês, o site da Biblioteca Nacional lista versões em PDF, que estão em domínio público e são gratuitas, mas só em inglês. Não é uma leitura fácil, até mesmo pela linguagem da época. Mas ensina.

A obra já recebeu diversas edições brasileiras também, e com a pandemia do Coronavírus passou a ser bastante requisitada em sebos e livrarias. Aqui você você garantir sua cópia: https://amzn.to/3163ck2.

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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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2 comentários sobre o texto “Um diário do ano da peste e a grande praga de Londres

  1. Gosto de conhecer histórias baseadas em fatos reais.
    O interessante é que alguns trechos desse texto se assemelham com o que estamos vivendo com a Pandemia
    Parabéns pelas informações!!

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