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Você tem medo de muçulmano?

Você tem medo de muçulmano? Eu pensei nisso pela primeira vez quando entrei num voo internacional que estava repleto deles. Seria um medo estúpido, claro. Puro preconceito que aprendemos a cultivar, principalmente depois do 11 de setembro. E como o preconceito anda de mãos dadas com a falta de conhecimento sobre o outro, no Brasil, muitos não entendem o que é o islã.

Cercados por um mundinho cristão em que as maiores divergências estão no clássico católico x evangélico, simplesmente não compreendemos religiões que não tenham Jesus Cristo como messias. Só que o mundo é mais do que isso. O islamismo, por exemplo, tem 1,6 bilhão de fiéis – estudos indicam que em 20 anos uma a cada quatro pessoas do planeta será muçulmana.

– “O importante de viajar é que a gente conhece novas culturas. Tipo na África, onde eu entendi um pouco da fé dos muçulmanos”, eu disse.

 – “Muçulmano? Aquele povo louco?” Respondeu meu interlocutor.

 – “Oi?”

–  “É, muçulmano! Dizem que eles comem carne de gente!”.

Tive essa conversa numa pizzaria, em Belo Horizonte, e me surpreendi. Eu já tinha quebrado meu preconceito durante a viagem que fiz para a África e não imaginava que outras pessoas seriam tão ignorantes assim nesse assunto.

Atentado de 11 de setembro de 2011

 Foto: Kevinalbania, Wikimédia Commons

Depois disso, morei durante oito meses na Ásia. Visitei mesquitas e cidades completamente islâmicas. Conversei com uma muçulmana, em Kuala Lumpur. Coberta por uma roupa preta da cabeça aos pés, ela nos explicou um pouco da fé islâmica e defendeu a religião. Em muitas coisas nós concordamos e até aprendemos com ela. Em outras, guardamos nossas diferenças, mas com respeito.

Viajar é o melhor remédio contra o preconceito porque envolve informação. Saímos da nossa zona de conforto, do nosso mundinho fechado e encaramos a realidade: o mundo não é do jeito que a gente pensa. Viajando, aprendemos que…

Muçulmano não é terrorista

O 11 de setembro destruiu a vida de muitos e criou a islamofobia, sentimento de ódio aos mulçumanos. Em 2010, uma pesquisa feita na Inglaterra pelo instituto YouGov indicou que mais da metade dos britânicos fazem a matemática islamismo = terrorismo.  Este ano, o atentado da maratona de Boston e o assassinato de um soldado a golpes de cutelo, em Londres, devem ter piorado ainda mais essa percepção.

Mas a percepção está errada. É fato que existem muitos terroristas muçulmanos e que talvez a maioria dos casos recentes tenha tido ligação com essa religião. Mas esses atos de violência foram efetuados por grupos radicais.

O Alcorão não causa o ódio e o terrorismo

A mesma pesquisa do YouGov indicou com 58% dos britânicos acham que o Islã incentiva atos de violência. Na cabeça dessas pessoas o Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, estaria cheio de receitas para assassinatos em massa e incentivo para a fabricação de bombas. Isso é, obviamente, mentira.

Sim, o Alcorão tem trechos que incentivam a violência. E esses trechos têm sido usados por grupos radicais para justificar o terrorismo. Como esse:

“Uma vez expirados os meses sagrados, matai os idólatras onde quer que os encontreis e apanhai-os e tornai-os prisioneiros e ficai a sua espreita; mas, se eles se convertem, se observam a oração, se concedem a esmola, então deixai-lhes livre o caminho, pois Deus é indulgente e misericordioso.” (Sura 9:5)

Antes que alguém diga: “ahha! Está provado, vamos queimar o Alcorão em praça pública!”, uma consideração. A Bíblia também está repleta de textos violentos. Como esse trecho em que o Deus dos judeus e dos cristãos ordena um massacre:

“Vai, pois, agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até a mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até as ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos”. (Samuel 15:3)

Esse é apenas um dos textos com um incentivo divino para a violência na Bíblia, mas nem por isso as pessoas dizem que a Bíblia incentiva atos violentos, afinal é preciso ser radical para interpretar esse trecho fora do contexto e ignorando que os tempos mudaram.

mesquita malásia

A gente na mesquita de Kuala Lumpur

 Também existe terrorismo cristão

“O terrorismo é o uso de violência através de ataques localizados a elementos ou instalações de um governo ou da população governada, de modo a incutir medo, terror e assim obter efeitos psicológicos que ultrapassem largamente o círculo das vítimas.” Essa é a definição da Wikipédia, que também ensina outra coisa óbvia, mas que muita gente se esquece: o terrorismo não foi inventado pelos muçulmanos.

O terror já foi usado em diversas épocas e por variados grupos políticos e religiosos. Foi arma usada por católicos durante anos, na Irlanda do Norte. As bombas também foram o método escolhido pelo norte-americano Timothy McVeigh, que em 1995 explodiu um prédio em Oklahoma. Uma das motivações para o atentado foi o massacre de uma comunidade protestante em Waco, anos antes. E foi um europeu branco de olhos azuis o autor dos disparos e explosões que deixaram 76 mortos, na Noruega, em 2011. Antes dos ataques, Anders Breivik postou textos islamofóbicos no blog pessoal e se declarou 100% cristão.

E nem falamos dos atos islamofóbicos que tomaram conta dos Estados Unidos desde o 11 de setembro. Vamos ficar nos mais recentes, de 2012: uma mulher empurrou um homem de turbante para a morte, nos trilhos do metrô, porque pensou que ele era muçulmano. Na realidade ela era sikh, religião monoteísta comum no norte da Índia. Semanas antes um homem foi esfaqueado ao sair de uma mesquita, também em Nova York. O agressor gritava frases racistas e islamofóbicas. Em Chicago um homem atirou contra uma mesquita. 500 muçulmanos estavam no local na hora dos disparos.

Você se lembra que o terrorismo envolve deixar toda uma população com medo ao atacar apenas uma pequena parte dela? Então o que esses radicais norte-americanos fazem é terrorismo contra muçulmanos. Mas ninguém em sã consciência vai dizer que todo norte-americano (ou todo católico, evangélico, judeu, etc) é terrorista só porque alguns poucos radicais são.

O jihad não é uma guerra santa

 “O jihad significa esforço, não guerra santa.” Li isso num folheto que recebi na mesquita de Kuala Kumpur. Para a maioria absoluta dos muçulmanos, jihad é o esforço diário para manter a fé, para fazer o bem, a luta pela comunidade e contra os pecados. O mundo associou jihad com morte e assassinatos em massa quando o Talibã usou a palavra para explicar os atos de ódio do grupo.

Não é só o islamismo que é machista

Janeiro de 2011. Os termômetros marcavam 43 graus no verão da África do Sul: eu e a Naty morríamos de calor enquanto subíamos a Table Mountain. No meio do caminho tinha uma muçulmana de burca. Corta para a Ásia, cerca de um ano e meio depois: calor absurdo, muçulmano no vidão, de bermuda e camiseta… e a mulher dele completamente coberta.

Sim, o machismo me incomoda. Mas não podemos pensar que esse é um problema exclusivo do Islã: existem igrejas evangélicas em que é norma de conduta que a mulher vista roupas que cubram praticamente todo o corpo. E eu já vi líder religioso cristão dizendo que mulher não pode usar roupa curta para não fazer o homem pecar. Somos tão diferentes deles assim? Dá uma olhada na citação abaixo e tente adivinhar se ela vem da Bíblia ou do Alcorão:

“Quando houver moça virgem, desposada, e um homem a achar na cidade, e se deitar com ela. Então trareis ambos à porta daquela cidade, e os apedrejareis, até que morram; a moça, porquanto não gritou na cidade, e o homem, porquanto humilhou a mulher do seu próximo.”

Resposta: da Bíblia. Segundo esse trecho a única forma de um mulher estuprada escapar de um apedrejamento em praça pública é gritando durante o estupro. E gritando alto.

E mesmo que o machismo seja um problema no islamismo, é estupidez abrir a boca para detonar uma cultura que não entendemos completamente. Recentemente o Femen protestou pela liberdade das mulheres muçulmanas e acusou o Islã de “incentivar um ódio letal”. Várias muçulmanas responderam com fotos no Facebook, dizendo que elas não precisam de salvação.

muçulmana protestam contra femen

Foto: Facebook/Reprodução

“Mas algumas podem precisar de ajuda. Tem gente que pode estar ali somente por pressão social e familiar”, um leitor mais atento pode dizer.  Sem dúvida. Mas isso não acontece com qualquer religião?

É óbvio que o islamismo tem problemas. As ditaduras religiosas, os países que têm o Alcorão como lei absoluta, a violência contra mulheres e os grupos radicais são alguns exemplos. Mas não podemos nos esquecer que  Israel foi criado pelo uso da força política num território que era ocupado por muçulmanos há séculos, que também existe ódio cristão contra muçulmanos e que são as bombas dos cristãos ocidentais que ferem e matam muçulmanos todos os dias.  Um senador norte-americano garantiu que os drones dos Estados Unidos mataram 4.700 pessoas no Paquistão, inclusive civis. Tentar entender quem começou essa briga é a mesma coisa que perguntar quem nasceu primeiro no galinheiro.

A conclusão disso? A maldade não tem cor, nacionalidade e nem religião.  O terrorismo pode nascer de radicais de qualquer grupo religioso ou político.  Viajar e conhecer outras culturas me ensinou a respeitar o outro, mesmo quando a fé e cultura de terceiros é incompreensível para mim. Acima de tudo, viajar me ensinou a não colocar mais lenha na fogueira do ódio – já tem muita gente empenhada nisso.

Foto de Paul Hansen mostra ataque israelita na Palestina

Foto de Paul Paul Hansen, vencedora do World Press Photo: Crianças palestinas mortas em ataque aéreo

 

Clube Grandes Viajantes

Olá, somos a Luíza Antunes, o Rafael Sette Câmara e a Natália Becattini. Há 10 anos fazemos o 360meridianos, um blog que nasceu da nossa vontade de conhecer outras terras, outros povos, outras formas de ver o mundo. Mas nós começamos a sonhar com a estrada ainda crianças e sem sair de casa, por meio de livros sobre lugares fantásticos. A gente acredita que algumas das histórias mais incríveis do mundo são sobre viagens: a Ilíada, de Homero, Dom Quixote, de Cervantes; Harry Potter, Senhor dos Anéis e Guerra dos Tronos. Todo bom livro é uma viagem no tempo e no espaço. E foi por isso que nasceu o Grandes Viajantes: o clube literário do 360meridianos. Uma comunidade feita para você que ama ler, escrever e viajar.

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Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

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30 comentários sobre o texto “Você tem medo de muçulmano?

  1. A resposta para a pergunta título da manchete eh: tenho! Não eh um medo estupido ou em vão. Simplesmente passei por situações humilhantes e ate perigosas enquanto mulher em 2 países que tem o islã como religião principal. Discutir se isso se chama preconceito não muda a realidade que eh a dificuldade de mulheres andarem sozinhas em segurança nesses países. Vcs mesmos viveram na India (que tem um terço da população muçulmana) e em um dos maravilhosos posts do blog desaconselham que mulheres andem sozinhas por la. Não eh simples assim.

    1. Oi, Bianca. Pois é, sei que pra mulher é muito mais complicado, sempre. No caso da Índia, por mais que parte considerável da população seja muçulmana, grande parte dos problemas que tivemos foram em áreas onde o predomínio era mesmo de hindus.

      Em quais países você teve problemas?

      Abraço e obrigado pelo comentário.

    2. Ei Bianca,

      Resolvi dar uma pitaco aqui, me desculpe! Você tem razão quando diz que alguns países de cultura muçulmana são perigosos para mulheres. Porém isso tem mais a ver com questões culturais mesmo que religiosas. É verdade que eu escuto muitos relatos de países muçulmanos em que prevalece o assédio (já ouvi coisas do Egito, do Marrocos…).. Em outros países de maioria muçulmana, no entanto, já circulei tranquilamente de shortinho e biquini na praia (como a Malásia) e já tive oportunidade de estar em festas com vários muçulmanos que sempre foram educados e se portaram muito bem.

      Por ser mulher, sempre temos que ter cuidado redobrado, mas não acredito em culpar o Islã . A Luíza já foi seguida na Grécia, eu já passei por uma situação mega desagradável no Equador. O Brasil é um dos países que mais mata mulheres no mundo. Como você mesma disse, não é tão simples assim ;).

      Abraços e volte sempre! Adoramos um debate!

  2. Que texto excelente!
    Se as pessoas fossem menos intolerantes, com certeza o mundo seria um lugar melhor. Infelizmente no mundo ocidental ainda é muito comum isso de querer impor a fé, as tradições e a cultura própria pra cima dos outros. É a tal mania do colonizador, triste isso.
    Acho que tu falou algumas coisas muito certas, Rafa. Principalmente quando se trata da questão do machismo e do terrorismo, que as pessoas geralmente usam para expor seus preconceitos.
    Falam como se machismo fosse algo exclusivamente islâmico, sendo que no Brasil todo dia milhares de mulheres são violentadas e assassinadas. Mas é muito mais fácil apontar o dedo pros outros e dizer que é errado do que simplesmente parar um pouco pra pensar, né. O mesmo problema se aplica ao terrorismo, porque quando se trata da ação pessoal de um grupo como Hamas é considerado terrorismo, mas quando é o exército de Israel (um estado bélico e imperialista) massacrando civis, bombardeando creches e hospitais, aí não é terrorismo, né? É uma medida de defesa dos interesses nacionais. Só que não.
    Mas a maioria gosta de generalizar. Então quando acontecem massacres como o 11 de setembro, o da revista Charlie Hebdo, entre outros, as pessoas tomam isso como sendo representativo de toda uma religião. Enfim, é triste que grande parte do mundo ocidental ainda pense assim e tenha tanto preconceito.

    1. Quando uma nação usa drones para para bombardear cidades (e acaba atingindo escolas, hospitais, creches) aí ninguém fala de terrorismo, né?

      O ódio vem dos dois lados. E só causa mais ódio.

      Obrigado pelo comentário, Marcella.

      Abraço.

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