Relato de quem viu a crise dos refugiados na Europa de perto

Relato de quem viu a crise dos refugiados na Europa de perto

O Gabriel Folli é autor do blog Viajar com Poucofocado em ajudar pessoas que querem fazer viagens econômicas ou que têm dificuldades em se organizar para isso. Você também pode seguir eles no Facebook e Instagram. Ele esteve em Budapeste quando rolou a crise dos refugiados e escreveu para a gente sobre sua experiência. Todas as fotos do post também são de autoria dele.

Qual seria sua reação se estivesse passando por um país e, ao tentar sair dele, você fosse impedido?

Parece estranho, não é? Afinal, sempre lemos e escutamos sobre pessoas não conseguirem entrar por falta de documentos, por alguma ilegalidade ou até mesmo porque os oficiais ficaram desconfiados de algo e, na dúvida, resolveram barrar. Acontece de não deixar entrar, mas por que impedir de sair? Isso era o que todos se perguntavam e por mais que os responsáveis dessem respostas, nunca me pareceram minimamente razoáveis.

Entre final de agosto e início de setembro de 2015, milhares de imigrantes chegaram à Budapeste, na Hungria. Todos eles fugindo de guerras e pobreza extrema em países como Afeganistão, Síria e Iraque, buscando uma vida melhor para a sua família. Provavelmente você ficou sabendo disso pela internet ou pela TV, inclusive deve se lembrar de Aylan Kurdi, o garoto Sírio que foi encontrado morto em uma praia da Turquia. Ele seria um destes em Budapeste, não fosse o triste desfecho.

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Eu, por acaso, estava lá na mesma época, trabalhando em um hostel como voluntário. Quero compartilhar um pouco do que isso representou para mim.

budapeste crise dos refugiados

Estes imigrantes, para chegar em Budapeste já tinham passado por situações às quais tenho certeza que nem eu, nem você, nem nenhum conhecido chegou perto de passar. Primeiro por uma longa jornada pedindo carona ou muitas vezes caminhando mesmo, de seus países até a Turquia, onde pegavam embarcações extremamente precárias para tentar uma travessia até a Grécia. Embarcações essas que já registram mais de 3 mil mortes, uma delas, do garoto Aylan – na mesma embarcação estavam o garoto Aylan com seu pai e irmão e sua mãe. Somente o pai sobreviveu

Os que completavam a travessia buscavam seguir para o destino final que, para a maioria, era a Alemanha, por ter declarado aberta a acolhê-los. No meio da jornada, precisavam passar por Budapeste, onde o último passo era pegar um trem para Munique. Ledo engano. O governo Húngaro decidiu não liberar a saída dos imigrantes por estarem ilegais em seu país e fechou a estação de trem por dias, deixando milhares de pessoas na rua, em frente a estação, em condições extremamente precárias.

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Isso nunca fez o menor sentido para mim, nem para os imigrantes, nem para a maioria das pessoas no mundo, provavelmente só para o governo Húngaro. Os imigrantes não queriam ficar em Budapeste, o governo não os queria lá. Por que segurá-los? Será que não existe um mínimo de consideração do fator humano acima do fator político?

Por sorte, existiam pessoas empenhadas em ajudar a organizar doações de alimentos, medicamentos, promover atividades para entreter as crianças, compartilhar informações nos meios necessários e fazer o que estivesse ao alcance para tentar solucionar o problema o quanto antes.

Me sinto eternamente grato por ter sido uma dessas pessoas.

Era a terceira cidade da Europa em que eu estava morando, trabalhando em troca de acomodação em hostels. Já tinha aprendido até ali muito sobre valores da vida, conhecido muita gente, muitas culturas, escutado muitas histórias. Nada chegava perto do que foi isso.

budapeste crise dos refugiados

Como eu não estava trabalhando por dinheiro, não tinha muitas condições financeiras para ajudar, mas fiz o que pude. Juntei mais dois amigos do trabalho, compramos diversos alimentos e fomos à estação de trem. Chegando lá, me deparei com aquela imensidão de gente, barracas por todos os lados, carros de TV, polícia, e pessoas de todas idades, de bebês de colo até idosos. Muito movimento, mas, ao mesmo tempo, tudo muito pacífico.

A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi: e se fosse comigo, com a minha família? Foi uma sensação muito forte, que nunca tive e provavelmente nunca terei igual.

Pessoas escrevendo suas mensagens nas paredes, pedindo paz, moradia, dizendo que não queriam ficar lá, que só queriam ir para a Alemanha. Muitos tomando banho em uma única torneira, muitos dormindo no chão. No meio disso tudo, havia uma área para controle das doações, e lá fui eu. Deixei minha doação e sai procurando o que mais poderia fazer para ajudar.

Neste momento, notei o quão bela estava sendo a atitude de algumas poucas pessoas ali, entretendo as crianças (e alguns adultos também) com pinturas, brincadeiras, fotos e músicas. Resolvi entrar numa rodinha de crianças para jogar bola com elas. Me emociono ao lembrar do sorriso que recebia em troca. O reconhecimento que eles tinham ao ver que eu estava ali tentando ajudar, mesmo que de uma forma singela, que estava do lado deles.

Não importava quem eu era, de onde vim e o que faço da vida, só queria uma vida melhor para eles. Parece que nestes momentos, eles esqueciam tudo que estavam enfrentando e se deliciavam das pequenas belezas da vida, algo que provavelmente não tinham direito há muito tempo. – Enquanto nós aqui, com muito mais, não damos nem uma parcela desse valor ao que temos.

Também tive a oportunidade de conversar com alguns deles, que estavam ali mostrando sua indignação, mostrando bilhetes de trem – alguns deles custaram mais de 300 euros –, dizendo que tinham dinheiro, mas não conseguiam sacar, que só queriam ir embora. Por fim, dois dias depois, muitos dos imigrantes desistiram de esperar e resolveram continuar a viagem andando, quando saíram em caminhada para a Áustria.  Depois de algumas horas, começaram a aparecer pessoas com carro oferecendo carona. Mais tarde, o governo Húngaro resolveu liberar alguns ônibus para ajudá-los a seguir viagem. 

Sempre que falo sobre minhas experiências de viagens, essa é a primeira que me vem em mente, por tão marcante, forte e intenso que foi. Pelo tanto que aprendi em tão pouco tempo. Ver a situação daquelas famílias me fez repensar muito sobre alguns de meus valores. Mais do que qualquer coisa. Desejo toda felicidade do mundo para todas essas bravas pessoas que estão arriscando suas vidas em longas e perigosas viagens, buscando torná-las melhores, mesmo em meio a tantas dificuldades. 

“Não basta falar de paz. É preciso acreditar nela. E não basta acreditar nela. É preciso trabalhar por ela” – Eleanor Roosevelt

*A crise dos refugiados ainda é um problema muito sério não só na Europa, mas no mundo. Segundo um jornal português, em setembro do ano passado a União Europeia aprovou um Programa de Relocalização de Refugiados comprometendo-se a receber e dividir entre os Estados-Membros, em dois anos, 160 mil pessoas instaladas nos campos de Itália e Grécia. Porém, a meta era de 20 mil pessoas realocadas até maio, mas até agora, apenas 1600 foram atendidas. Também não faltam notícias de pessoas que continuam a morrer nas duras travessias e a falta de solidariedade de alguns dos governos mais ricos do mundo. 

Blog de três jornalistas perdidos na vida que resolveram colocar uma mochila nas costas e se perder no mundo.

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