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Atlas: Rotorua, Nova Zelândia

As pessoas estranhas que encontramos nos hostels

Dormir em quarto coletivo de hostel é o tipo de sacrifício que a gente faz por economia. Se dinheiro fosse infinito, todo mundo ia preferir ter um quartinho vazio esperando por ele no fim de um dia cansativo de viagem. Não me leve a mal: existem inúmeras vantagens em ficar hospedado num lugar assim. Hostels são ótimos para conhecer outros viajantes, costumam ter um ambiente descolado e muitos ainda promovem diversas atividades, como churrascos, festas e exibição de filmes.

Eu adoro me hospedar em hostels, mas não vou negar que prefiro quando eu tenho a opção de escolher um quarto individual em vez dos coletivos. O motivo é só um: eu prefiro dormir com a certeza de que não tem nenhum esquisito na cama ao lado. Quando não tem jeito, sempre escolho o quarto com menos camas. Questão de estatística.

Como fizemos nossa volta ao mundo em um grupo de no mínimo três pessoas – que chegou a ter cinco – tínhamos diversas opções na hora de economizar na hospedagem. Pegar um quarto triplo ou pedir uma cama extra em hotéis pequenos pode ser mais barato do que alugar camas individuais em hostels.

Outras vezes, conseguimos fechar um quarto coletivo inteiro só com a gente. Foi o que fizemos no Little Bird, em Chiang Mai, e também no hostel onde ficamos em Bangkok. Mas isso não quer dizer que éramos imunes à esquisitice alheia. Por algumas vezes nos hospedamos em quartos coletivos e nos deparamos com os tipos mais bizarros do universo mochileiro. Ainda bem: passado o momento surreal de conviver com aqueles completos desconhecidos, as histórias ainda nos provocam boas risadas.

Hostel em Chiang Mai

O nosso primeiro esquisitão foi logo no nosso primeiro quarto coletivo da viagem, no Alessandro Downtown, em Roma. Era um quarto para oito pessoas: nós três, dois argentinos, dois chineses de Hong Kong e o esquisito. Eu não sei de onde ele era, ele nunca disse uma palavra no tempo em que ficamos lá. Ele dormia numa cama no canto que não tinha um cheiro muito bom e armou uma cortina que o protegia do mundo lá fora com toalhas, lençóis e… as cuecas dele. Tudo na atitude dele parecia demonstrar que ele morava ali já há algum tempo. Ele era intimidador. Nunca sorria, nunca dizia oi. Saia todos os dias super cedo com um violão e ia dormir mais cedo ainda. O pior de tudo – e o que fez a gente temer pela nossa saúde – era a tosse. Ele tossia o tempo inteiro, daquela forma rouca de quem tem tuberculose.

Dois destinos depois, em Londres, eu e o Rafa acabamos num quarto de cinco pessoas com mais três latinos que viajavam juntos, acredito que chilenos. Eles eram simpáticos e pareciam normais até a hora de dormir. Um deles fazia um barulho bizarro. Vai ser difícil explicar o que aconteceu em palavras. Era um barulho que eu nunca ouvi antes, e ele emitia enquanto se coçava abaixo do quadril. Sim, a minha primeira impressão foi exatamente essa que você está pensando, mas não, ele não estava fazendo aquilo (!). O quarto não estava tão escuro, então pude constatar que ele estava completamente vestido e aparentemente em sono profundo enquanto coçava a barriga e a coxa e fazia aquele barulho. Durou até que o amigo dele jogou um travesseiro nele e o mandou calar a boca.

Muito mais tarde, quando já éramos um grupo de cinco, com a adição de Aline Gonçalves, nossa colunista de gastronomia, e de uma amiga que encontramos na Nova Zelândia, convivemos com um cara que empestou o quarto inteiro do hostel de Auckland com cheiro de cigarro e chulé. Delícia! Ele ficava deitado na cama o dia inteiro. Até as refeições ele fazia por lá. Acho que ele foi um dos motivos pelo qual nós não curtimos tanto esse albergue.

Veja também: 7 coisas que não devemos fazer em hostels

Torre de Auckland

Já em Rotorua, segunda parada da viagem pela terra dos kiwis, foi o nosso grupo que ajudou a protagonizar a cena de bizarrice. No quarto para seis pessoas  estávamos nós cinco e um menino alemão. Ele não era estranho, coitado, só falava dormindo. Frases inteiras em um ininteligível (para nós) alemão. Eu, que tenho o sono leve, acordei no meio da noite maldizendo o pobre: “não acredito que esse imbecil ligou o Skype para falar com a família enquanto tá todo mundo dormindo!”. Seria uma atitude sem noção muito verossímil se a gente considerar o fuso horário da Nova Zelândia, mas o que me fez pensar que ele estava de fato conversando com alguém em alemão foi que UMA MULHER RESPONDEU!

Quando eu olhei, tudo apagado, computador desligado e o menino no décimo sono. Agora vamos às possibilidades: 1) o garoto imita voz de mulher para completar os diálogos nos sonhos dele. 2) tinha um fantasma alemão no nosso quarto que aproveitou para se livrar um pouquinho da solidão da vida após a morte. Nós, cinco brasileiros que da língua germânica só sabem dizer chopp, ficamos com uma terceira hipótese: nossa amiga Luciana, aquela que encontramos na Nova Zelândia, que estava deitada na cama superior do beliche do menino e que foi a única que não ouviu a conversa, aprende a falar outras línguas enquanto dorme. A esquisita era ela.

Por isso, lembre-se: se você olhar em volta e todo mundo do seu quarto coletivo parecer normal demais, pode ser que o sem noção ali seja você.

 

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Natália Becattini

Jornalista, escritora e mochileira. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Já chamei muito lugar de casa, mas é pra BH que eu sempre volto. Além do 360, mantenho uma newsletter inconstante, a Vírgulas Rebeldes, na qual publico crônicas e contos . Siga também no instagram @natybecattini e no twitter.

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35 comentários sobre o texto “As pessoas estranhas que encontramos nos hostels

  1. “Por isso, lembre-se: se você olhar em volta e todo mundo do seu quarto coletivo parecer normal demais, pode ser que o sem noção ali seja você.”

    Eu ri MUITO disso! hahaha

  2. Acho que eu já fui a “esquisita” no meu quarto kkkk ou pelo menos a desastrada… fui levantar super cedo de manhã para ir ao banheiro e caí do beliche, acordando os 7 outros ocupantes do quarto… no dia seguinte todos no hostel queriam saber quem era a louca que caiu do beliche kkk

    1. hahahah eu sempre saio trombando, derrubando coisas quando tenho que me mover no escuro, mas cair do beliche é outro nível. Espero que você não tenha se machucado!

      abraços

  3. Eu já fui o estranho.
    Estávamos eu e um amigo em Amsterdã. Saímos juntos e ele decidiu dormir com uma garota no hotel dela.
    Eu fui pro hotel e dormi. Só que sou sonâmbulo, normalmente daqueles que só fala.
    Só sei que no meio da noite levantei, fui até um japonês que estava dormindo em outra cama, sacudi ele e comecei a falarem português “Que bom que você voltou!!!”. Quando percebi que não era meu amigo soltei um “sorry, tomorrow i explain to you” e voltei pra cama.
    Só sei que de manhã quando acordei o japonês não estava mais lá.

  4. Esse post me fez lembrar de um hostel em Praga que fiquei com uma amiga.
    O quarto era para seis pessoas. Tinha um cara que saia do quarto e voltava mais ou menos uma hora depois completamente transtornado. Andando de um lado para o outro, falando coisas em uma língua estranha e com um olhar meio perdido. Até hoje não sabemos se era droga ou algum disturbio psiquiatricos, mas ficamos morrendo de medo de sermos atacados no meio da noite. Sorte que ele desmaiava na hora de dormir.
    Mas é engraçado demais depois que passa.

  5. hahahaahahha acho que todo mundo que fica em hostels tem alguma história pra contar. Eu sempre opto pelo quarto individual, mas nas poucas vezes que fiquei em quarto compartilhado já deu pra colecionar algumas. Uma delas foi um cara que acordava as 6h em ponto pra meditar, com direito a sons estranhos suficientes pra acordar o quarto inteiro. E não adiantava reclamar ou tentar falar com ele. O cara simplesmente não ouvia, parecia que estava em outra dimensão.
    A outra foi de um casal que não se aguentou e foi pra fora do quarto “resolver” o problema deles. Não seria de todo ruim, se a mulher não tivesse se esquecido que estava num lugar público e começado a gritar. No dia achei um absurdo, mas depois contando essa história descobri que é mais comum do que eu pensava…

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