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Como eu descobri que queria ser nômade digital

Há pouco mais de um ano, eu queria ser repórter. Dessas que cobrem grandes eventos mundiais. Dessas que veem as guerras de perto, que publicam grandes reportagens de várias páginas e com entrevistados importantes. Foi por isso que eu entrei na faculdade de jornalismo e, embora meus professores fizessem questão de destruir todos os sonhos românticos dos jovens estudantes, no fundo eu ainda guardava essa vontade.

Um dia, percebi que a maior chance era que eu acabasse passando o resto da minha vida fazendo reportagens sobre buracos nas estradas, não sobre a Guerra do Iraque. Nada contra os meus colegas jornalistas que cobrem buracos nas estradas – esse é um serviço muito importante para a sociedade. Mas aquela perspectiva não me despertava qualquer emoção ou euforia. Desperta em muitos dos meus amigos, mas não em mim. E foi quando minha profissão deixou de ser um sonho e se tornou só um trabalho.

Um trabalho que eu eu desempenhava bem e sem sofrimento, mas também sem nenhuma paixão. Eu queria que as tarefas estivessem bem feitas, mas não ficava acordada até tarde pensando em como podia melhorar ou fazer dar certo. Você pode achar que eu sou doida, mas eu queria perder o sono de tanta empolgação.

Foi num desses dias de trabalho que eu entrevistei uma psicóloga especialista em orientação vocacional sobre um assunto qualquer. A conversa estava interessante e acabamos extrapolando a pauta. Foi quando ela começou a me explicar sobre empreendedorismo e a diferença entre buscar um emprego e um projeto. Assim eu percebi que me sentia mais realizada quando trabalhava em projetos que significavam alguma coisa para mim, ainda que eu não obtivesse deles nenhum retorno financeiro (se não existissem contas, eu estava feita).

Pausa para um comentário

Esses dias entrei em uma discussão com amigos no Facebook sobre um texto (aqui) que dizia que deveríamos parar de valorizar o discurso de trabalhar com o que se ama. Os argumentos eram que, quando fazemos isso, geramos ansiedade naqueles que não podem fazer essa escolha e que esse é um privilégio da galerinha cool, gente com trabalhos criativos ou então de gênios do Vale do Silício.

Eu até concordo com algumas coisas que são ditas no texto – principalmente no que fala sobre a exploração da mão de obra -, mas acho que ele se esquece de que esse é só um dos discursos que correm no mundo do trabalho. Eu poderia, se quisesse, escrever sobre como o discurso do “você tem que se matar de trabalhar para ganhar muito dinheiro e crescer na carreira” é opressivo para quem não pode ou decide não trilhar esse caminho. E isso utilizando mais ou menos os mesmos argumentos.

Cingapura, Ásia

Achar que um discurso único vai se aplicar, atingir ou influenciar 7 bilhões de pessoas é não entender que toda comunicação é direcionada. É claro que o “faça o que você ama” tem um público alvo definido e não é uma regra geral da felicidade para a humanidade, mas desconheço um discurso que seja. Nesse caso, estamos falando de um público alvo de classe média urbana, com alguma escolaridade e que se identifica com essa premissa. Pode parecer estranho pra alguns, mas além de todos os trabalhadores do mundo que obviamente não podem largar tudo para fazer o que amam, existem milhares de pessoas que não querem fazer isso. Simples assim: tem gente que considera que isso não é o mais importante em um emprego. Pessoas que encontram, ou não, a felicidade e realização pessoal em outros lugares.

Dizer que o mundo inteiro pode fazer isso ou que esse é o único caminho possível para uma vida plena é algo babaca e deslumbrado. No entanto, assumir, por puro achismo, que esse discurso oprime e causa ansiedade em pessoas que não podem ou não querem fazer o que amam é igualmente elitista e prepotente. É o mesmo que afirmar, sem nem perguntar a elas, que muitas pessoas desejam e invejam essa vida ou que, no mínimo, valorizam imensamente essa opinião sobre trabalho e felicidade a ponto de se sentirem menos realizadas por não corresponderem às “nossas” expectativas.

Voltando à vaca fria: vida de nômade digital

Toda mudança começa com uma decisão. Toda decisão começa com uma análise das possibilidades. Eu já estava envolvida com o 360 quando conversei com a psicóloga. As coisas que ela me disse ficaram martelando em minha cabeça. Eu já tinha um projeto que supria a minha vontade de trabalhar com o que eu gosto – não aquele que pagava minhas contas, mas o próprio blog. Eu ainda queria ter mais flexibilidade na minha vida, tanto de horário – para poder me dedicar mais às atividades que eu amava e, quem sabe, fazer com que elas um dia se tornassem minha principal fonte de renda – quanto de locação – eu achava uma limitação meio inútil a minha presença física no trabalho. Além do mais, a ideia de poder viajar mais sem parar de trabalhar era tentadora.

A decisão parecia óbvia, mas todas as escolhas envolvem perdas e ganhos. Eu acho que não preciso nem dizer que essa história de trabalhar no computador na beira da praia enquanto toma uma piña colada não é lá muito real. Mal dá pra enxergar a tela do notebook em ambientes abertos e ainda tem a areia. Pânico só de pensar na areia caindo no teclado!

Apesar de todos os benefícios, como flexibilidade, tempo para se dedicar a outros projetos ou hobbies, possibilidade de viajar em tempo integral e tudo mais, ao me tornar uma nômade digital eu abriria mão do convívio convívio com os colegas de trabalho, o que poderia reduzir meu círculo social. Além disso, era preciso encarar uma temida instabilidade financeira, ganhando por tempo indeterminado metade do que eu ganhava antes, e ter certeza de que eu teria disciplina para fazer as tarefas ficarem prontas sem um chefe me cobrando. O maior sacrifício foi, talvez, ter que abrir mão da minha casa em São Paulo e fazer da casa da minha família, em BH, uma base.

Os medos, as incertezas e as perdas eram tantas que eu só decidi quando a vida me empurrou nessa vida: fui dispensada no trabalho e, em vez de procurar outro emprego, me joguei na vida de freelancer. E como você sabe que tomou uma decisão certa? Bom, eu acho que nem dá pra ter essa certeza na vida. Mas quando os problemas e sacrifícios parecem pequenos diante de todas as coisas boas que aquilo te trouxe, taí um bom indicativo.

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Natália Becattini

Já chamei muito lugar de casa, mas é pra Belo Horizonte que eu sempre volto. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Além do 360, mantenho uma newsletter sobre o a vida, o universo e tudo mais, que eu chamo de Vírgulas Rebeldes. Vira e mexe eu também estou procrastinando lá no instagram @natybecattini e no twitter.

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7 comentários sobre o texto “Como eu descobri que queria ser nômade digital

  1. Não preciso nem dizer o quanto acho corajosa a escolha de vida de vocês. Mas mais que isso é muito legal o quanto ela é consciente e cada vez mais madura. Vivemos tempos em que a busca da “felicidade” parece quase uma obrigação social. E digo obrigação por que além de nós mandarem buscá-la, parece que houve um concílio de qual a felicidade que serve: parece para ser feliz temos que ser tanta coisa que não sobra nem tempo de aproveitar a tal felicidade (e talvez seja esse o motivo do paradoxo da insatisfação eterna que por um lado nos impulsiona e por outro não nos deixa aproveitar a beleza da caminhada). N fim das contas talvez a felicidade seja mesmo apenas um estado imaginário ou a soma das efemeridades da vida. Mas eu acredito que ela é uma construção: um caminho de tijolos amarelos que vamos colocando e criando durante nossa caminhada. E é bem legal ver as nossas trilhas tortas sendo formadas, cada uma a seu jeito.

    PS.: Não repare na piração reflexiva do comentário. Quando eu começo a filosofar sobre a vida como se comentário de post fosse mesa de boteco é sinal de que eu estou muito tempo sem escrever.

    PS2: Acho que hoje eu estou meio “Antônio Roberto e você”, o que indica que o caso pode ser grave

    PS3: Isso tudo era só para dizer eu achei seu texto excelente e que morro de orgulho e de saudades sempre 😀

    1. <3 Que ótimo ver você por aqui, Sula!

      A gente que morre de orgulho e saudade de você! Eu ainda espero o dia que a gente vai cair na estrada juntas outra vez (pode ser pra Ouro Preto!)

      Abraços

  2. Natália,
    Aprendi com meu falecido pai: Faça o que quiser, mas faça bem feito!!! E acredito que nossos atos são bem feitos quando envolve uma dedicação por aquilo que praticamos. Seja por estabilidade, por ser “cool”, por ter nascido em berço de ouro, ou ter tido forças pra sair do nada e ser alguém na vida, no mínimo um sentimento está intrínseco: o amor pela vida!!! E aí, podem dizer que é espírito de sobrevivência, ou não, mas o seu amor está lá!
    A Nine falou outros pontos que concordo!
    Peço licença para citar um trecho bíblico que gosto muito:
    ” Pois comerás do trabalho das tuas mãos; feliz serás, e te irá bem.”
    Salmos 128:2

    Abraços

  3. Natália, acabei de ler esse texto ao qual te referes no post, realmente concordo com muitas questões da evolução do trabalho e da exploração, mas também concordo contigo que nenhuma opinião é defimitiva, fechada, nem influencia tão abertamente assim as pessoas, senão o mundo seria muito mais caótico, todo mundo querendo fazer a mesma coisa. E não é o que acontece, tem pessoas que simplesmente preferem trabalhar em ambientes fechados, outras gostam de grandes equipes ou de trabalhar sentados, ou troteando o dia todo… São tantas opções, o mundo é tão diverso que fica a pergunta? Precisa tudo isso? Acho que o que é importante é cada um saber medir suas expectativas e suas necessidades e aceitar alguns presentes do destino também não faz mal, às vezes acontece e você nem sabia que aquilo renderia bons resultados e o contrário também pode render.
    Nós aqui em casa sempre fomos mais moderados, sempre pensamos na estabilidade e fomos adquirindo bens e agora, no alto dos 30 anos, começamos a repensar tudo, a analisar se realmente vale a pena se matar de tanto trabalhar pra adquirir um bando de coisas que nem vão nos proporcionar momentos bacanas, pois ficamos atrelados a financiamentos, a dívidas longas e isso nos prende lá no emprego estável.

    Cada caso, um caso. Para alguns vai dar super certo, talvez por um tempo, talvez por um longo tempo, ou então pode ser preciso voltar pra casa, mas e daí? Aprendemos tanto com os erros quanto com os acertos. A nossa vida vai sendo tramada e delineada de acordo com nossas ações e essa ajudinha do destino. Acredito nisso. Acredito que as coisas aconteceram pra ti na hora certa e tem dado certo. E se algumas pessoas (eu incluida) se inspiram em ti, na Luiza e no Rafael é porque com certeza vocês estão passando algo de bom, não são nenhum bando de alienados, hahaha!

    Beijo grande 😉

    1. Ainda bem que cada pessoa quer uma coisa, né? Senão seria uma bagunça danada! =)
      Espero que você tenha sucesso no seu novo caminho e nessa nova maneira de encontrar a felicidade, seja ela qual for!

      Abraços e obrigada por comentar, é sempre bom ler seus palpites por aqui 😉

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