O dia em que Minas virou Colômbia

O dia em que Minas virou Colômbia

Não vou mentir para você: o futebol já me fez chorar algumas vezes. Muitas por tristeza, como a dor sem fim da Copa de 98, no chocolate que tomamos da França. Cada geração tem o Maracanazo que merece. O meu foi aquele. Em outras ocasiões, chorei de alegria – tipo quando o meu América ganhou o direito de disputar novamente a série A do campeonato brasileiro, depois da emocionante segundona de 2010. Ontem, no entanto, fiquei com os olhos cheios d’água por um time que nunca tinha visto em campo, por um país que não é meu, por um povo que nunca visitei.

A emoção começou cedo, é verdade. Teve início quando descobri que as ruas de Belo Horizonte – em especial da Savassi – tinham sido tomadas por milhares de colombianos. Isso aconteceu na noite de sexta-feira, dia anterior ao jogo com a Grécia. Segundo a Fifa, 33 mil ingressos da Copa foram vendidos para colombianos, que formam o quarto maior grupo de estrangeiros no Brasil: eles ficam atrás apenas dos norte-americanos, dos australianos e dos ingleses. O governo brasileiro têm outros dados. Nesses, o número de colombianos em solo nacional chega a 50 mil.

Colombianos em BH

Repito. 50 mil pessoas. Não sei se toda essa gente esteve em BH nos últimos dias, mas tenho uma certeza: Belo Horizonte, há uma semana uma cidade com pouca vocação turística, nunca tinha visto tanto gringo. Em 116 anos de história, estrangeiros em BH sempre foram uma raridade contada nos dedos de mão e avistados com a mesma frequência que o cometa Halley. Não mais. De um dia para o outro, Beagá amanheceu tão cosmopolita quanto Nova York.

Minas virou Colômbia

Vi colombiano se apaixonar pela noite belo-horizontina. Vi colombiano se embasbacar com a beleza da Lagoa da Pampulha. Vi colombiano se fartando de comida mineira. E, mais do que qualquer outra coisa, vi colombiano surtar ao avistar o Mineirão. “La fiesta es colombiana”, gritavam milhares de torcedores de amarelo em frente ao estádio, enquanto esperavam os portões serem abertos. Bastou isso acontecer, duas horas antes do começo do jogo, para a galera correr para lá.

Colômbia em BH

Colômbia e Grécia

Só quem ama futebol entende a emoção de subir as escadas de um estádio e, degrau a degrau, ver arquibancadas lotadas, perceber o campo surgir aos poucos, sentir o coração bater mais rápido ao entender a mágica que está prestes a acontecer. Em 28 anos de vida, já vivi isso naquele mesmo Mineirão inúmeras vezes. Mas, numa boa, ontem foi diferente. Ontem foi Copa do Mundo. Foi jogo de Copa do Mundo em BH.

Mesmo com todas as provas anteriores, precisei entrar no estádio para constatar o óbvio: os colombianos eram a maioria esmagadora e a língua oficial do Mineirão tinha mudado para o espanhol. Sem dificuldade, procuramos nossos lugares. Foi aí que um dia emocionante atingiu seu ápice – o hino da Colômbia! Eu poderia descrever isso para você, mas o vídeo abaixo é capaz de fazê-lo muito melhor. Foi nesse momento que meus olhos encheram d’água.

País apaixonado por futebol, a Colômbia não jogava uma Copa do Mundo há 16 anos. Na última participação, em 1998, eles não passaram da primeira fase, enquanto a penúltima Copa também não terminou bem: mesmo como uma boa equipe, eles ficaram na fase de grupos em 1994. Depois daquela Copa, o zagueiro Andrés Escobar, que marcou um gol contra no mundial, foi assassinado em Medellín, num dos capítulos mais tristes do futebol no país.

No Brasil, os colombianos chegaram  com a oitava posição no ranking da Fifa e como um dos cabeças de chave do mundial. Motivo para euforia, né? Se isso ainda não era o bastante, os 3 x 0 na Grécia e a certeza de que, assim como o Brasil, eles também jogam em casa, se encarregaram do resto

Colombianos em Bh

Depois do jogo, os colombianos espalharam a festa pela cidade – muitos terminaram a noite na Savassi, onde esgotaram as cervejas de bares e, junto com brasileiros, chilenos, ingleses e norte-americanos, trouxeram o carnaval de volta às ruas de Beagá.

Eles vão embora – Brasília, prepare-se para receber uma torcida eufórica. Se a Colômbia desistiu de sediar a Copa de 1986, os colombianos resolveram transformar a brasileira na deles. Depois de ontem, torço para que eles tenham vida longa no torneio.

Colômbia na Savassi

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

17 comentários em O dia em que Minas virou Colômbia

  1. Fui de SP aí pra BH pra assistir esse jogo e não mudo uma vírgula no seu texto, foi tudo o que senti também, já fui em muito jogo de futebol, vivi grandes emoções em estádios e emoção não dá pra medir, mas o que vivi aí no Mineirão vendo 50 mil pessoas de uma nação vizinha celebrando a copa no nosso país foi diferente de tudo, foi comovente, aliás a invasão começou aqui em São Paulo, na quinta á noite na rodoviária do tietê já parecia Bogotá, foi sensacional!

  2. Emocionante!

    Só quem gosta de futebol entende o significado disso. Sempre falei que a coisa mais bacana que eu achava de ir ao Mineirão era subir os degraus escutando o barulho da torcida e ver aquele monstro lotado e com bandeiras balançando. A diferença é que no meu caso as cores são preto e branco ao invés do seu verde e branco, mas a emoção é a mesma. 🙂

    Parabéns pelo post.
    Abraços,
    Helder

      • Estamos curtindo demais, Rafael. Não somente a emoção de estar no estádio pra alguns jogos aqui em BH (e o de ontem, hein?) como eu estou também vendo todos os jogos que posso pela tv. Acho que eu nunca vi uma copa com tantos jogos bons como esta agora. Ontem mesmo a gente tava no Mineirão e logo sem seguida teve um jogaço entre Colômbia e Uruguai. A emoção não para! 🙂

        Abraços, foi muito legal encontrar vocês!
        Helder

  3. Oi Rafa!
    Vi você e Luiza passando em frente a Status durante o jogo Itália x Inglaterra! Não fosse o mar de colombianos que nos separavam teria ido lá fazer um “momento tietagem”!!!
    Faltou a prefeitura colocar um telão ali naquele quarteirão né?
    Bjs!

    • Sério, Marcela? Quase nos encontramos então. =p

      Mas tem muita Copa ainda. Vamos trombar de novo, tenho certeza.

      E sim, faltou a prefeitura pensar numa estrutura melhor. E até os bares mesmo – em muitos lugares a cerveja acabou cedo, umas 21h. Acho que eles não acreditaram na quantidade de gringo que ia aparecer por aqui.

      Vamos torcer pra melhorar.

      Abraço.

  4. Voltei da Colômbia semana passada e realmente é um povo apaixonado por futebol, enquanto estava lá, teve um amistoso de preparação pra copa, achei impressionante o número de pessoas com a camisa da seleção colombiana nas ruas, achei linda a festa que eles fizeram no mineirão, tudo amarelo parecia até jogo do Brasil.

  5. Adorei, Rafael! Seu post só me deixou mais ansiosa pra viver o meu dia de jogo de Copa em casa. Dia 23 tá chegando, Brasil x Camarões em Brasília que me aguarde…
    Antes disso, vou aproveitar a dica e curtir os colombianos em BSB.
    Bj

  6. Gente, tive exatamente a mesma sensação! E meus olhos se encharcaram na hora no hino Colombiano, bonito de ver! Senti quase um orgulho. Quase me senti parte daquela festa, e pulei de alegria quando eles venceram a partida!
    E olha que não sou tao apaixonada assim por futebol, mas essa Copa aqui em nosso Pais, e em meio à tantas manifestações e emoções diferentes, realmente esta me ganhando, não tenho perdido um jogo sequer, e tenho me surpreendido com todas as seleções! Inclusive as “não” favoritas! Show de bola esse inicio de Copa!

    Adorei o post! Beijo!

    • Pois é, Nine. No começo eu lamentei a falta de um jogão aqui em BH, tipo o Holanda e Espanha, mas a festa da Colômbia foi tão grande que me esqueci disso.

      Na Copa só tem jogão. Nem que seja por causa do clima de festa.

      Obrigado pelo elogio e pelo comentário!

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