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Atlas: Berlim, Alemanha

Refugiados em Berlim: além dos estereótipos

Medhat dançava quando eu o conheci. Vestido de preto, roupas leves, ele girava pelo salão e se perdia entre os outros dez ou quinze bailarinos que improvisavam com a música também. Eu, no entanto, não dançava. Parada em um canto da sala com uma cerveja na mão, eu observava o espetáculo de dança contemporânea improvisado que, por uma dessas reviravoltas loucas que as noites às vezes nos trazem, eu tive a sorte de presenciar. Eu não dançava até que Medhat percebeu isso e me arrastou para o meio da pista. Aqui ninguém fica parado, ele disse.

Foi por uma cadeia de acontecimentos aleatórios que eu fui parar naquela festa privada de bailarinos dentro do Radial System, uma galeria de arte que funciona em uma antiga estação de água desativada em Berlim. Uma amiga de uma amiga disse, horas antes, que entrássemos em contato com um tal de Ali, que nenhum de nós conhecia, porque ele seria útil em nosso projeto de revista sobre cultura alternativa. Ali concordou em ajudar e pediu que fossemos vê-lo naquele endereço. Chegamos. Era um open bar.

Quando a música deu uma trégua e Medhat e eu saímos para tomar um ar, seus amigos e os meus já dividiam a mesa e as cervejas há algum tempo. Medhat, Ali e dois outros caras de vinte e tantos anos, todos artistas, todos com a mesma roupa preta e estilo despojado marcado pelas tatuagens e alargadores. Todos eles refugiados sírios que, há cerca de um ano, chegaram na Alemanha na esperança de começar uma nova vida.

“Você já esteve na Grécia?”, perguntou Medhat. “É um país muito bonito, mas eu guardo más recordações. Quando passei por ali, tive que morar na rua”. No segundo seguinte, explicava como ele fazia para tomar banhos de 30 segundos no campo de refugiados: “Você acaba se acostumando”.

Nos vimos de novo, dessa vez em uma casa de chá no bairro turco de Kreuzberg que se tornou uma espécie de ponto de encontro entre os refugiados na cidade. Dessa vez, Medhat veio me mostrar fotos da família. Pai, mãe e irmãs que ele tentava tirar do conflito sem que eles tivessem que passar pela perigosa viagem via Istambul e Grécia. Sua família, ele me disse, não era muçulmana, mas seguia uma religião esotérica minoritária chamada Druze. Quando perguntei mais sobre o tema, ele não soube me explicar muito bem: “Não sou religioso”, disse.

Ali também tinha pessoas queridas que ainda viviam em meio ao conflito. Ele estava empenhado em encontrar uma forma segura de levar para Berlim a namorada que deixou na Síria. “Eu dei plenos poderes para que meu pai assinasse o contrato de casamento por mim. Como minha mulher, ela tem o direito de vir. Não me casei com ela antes porque não sabia se chegaria vivo”, explica. O resto de sua família, por outro lado, não tinha planos de fugir do país. “Meu pai é o típico sírio. Ele nunca vai sair dali”.

Refugiados em Berlim - Ali Hassam

Nada no comportamento deles, no entanto, dava pistas da amarga trajetória que os levou até Berlim e da situação difícil de seu país. Mesmo quando contavam do passado e da guerra, era como quem fala do jogo de ontem ou de um assunto distante. Talvez fosse uma estratégia para recomeçar a vida sem sentir tanto o peso da tragédia. “Não gosto que colem em mim a etiqueta de refugiado. Sou um rapaz como qualquer outro”, dizia Ali.

Antes de ter que deixar a Síria para que não fosse obrigado a lutar na guerra, ele abandonou a faculdade de fisioterapia para se dedicar à percussão e ao estudo da música clássica persa e oriental. Mas a música acabou se tornando a principal força durante a travessia entre Istambul e Grécia. Foi também durante esse período que ele entrou em contato com o sufi, o jazz e o techno, estilos que acabaram incorporados à sua arte.

Completamente integrado, ele dividia seu tempo entre sua banda de música síria Musiqada; um coral composto por árabes e alemães, ajudava na produção de um documentário sobre a guerra, do qual era protagonista e tentava colocar de pé o projeto da primeira livraria germano-árabe, a Between US. Quando perguntamos se ele pretendia voltar a seu país quando o conflito terminasse, ele disse: “Fiz uma festa de aniversário no mês passado e foram 150 pessoas. Minha vida agora é aqui”.

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Natália Becattini

Jornalista, escritora e mochileira. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Já chamei muito lugar de casa, mas é pra BH que eu sempre volto. Além do 360, mantenho uma newsletter inconstante, a Vírgulas Rebeldes, na qual publico crônicas e contos . Siga também no instagram @natybecattini e no twitter.

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10 comentários sobre o texto “Refugiados em Berlim: além dos estereótipos

  1. Texto lindo Nath, muito bom saber como pensam esses refugiados e o que espera para o futuro, e através de vc tivemos esse belíssimo relato. Obrigada mais uma vez. Bjsss

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