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Atlas: Shenzhen, China

Na falta de inglês, gesticule feito um louco

Na adolescência, enquanto eu fazia cursinhos de inglês, não tinha ideia de que um dia a única forma de me comunicar com outra pessoa seria gesticular feito um louco, apontar para fotografias e mostrar determinada quantidade de dinheiro. Se eu soubesse disso teria tido uma desculpa para matar aulas e focar meu tempo no Imagem & Ação.

Já passei por países onde o idioma da Rainha é artigo raro, veja bem. E, não custa lembrar, vários são os cantos desse mundão sem porteira em que a boa e velha mímica ajuda, e muito, na comunicação. Dito isso, vamos aos fatos: em minhas andanças, ainda não achei um canto do planeta onde a comunicação seja mais difícil do que na China.

Estávamos em Shenzhen, uma cidade cuja população cresceu inacreditáveis cinco mil vezes nos últimos 30 anos, aumento que fez dela uma das maiores metrópoles do mundo – maior que Hong Kong, vizinha de muro e de metrô, digamos assim.

Shenzhen-china

Shenzhen (Fot:Shutterstock.com)

A passagem por Shenzhen era estratégica dentro da organização do roteiro de viagem. Queríamos ir de trem para Guilin, mas como HK é uma Região Especial da China, com moeda própria e controle de fronteiras, não há ferrovias ligando as duas cidades. Por isso, é preciso cruzar a fronteira de metrô e pegar o trem a partir de Shenzhen, que não tem o passado ocidentalizado de Hong Kong, cidade controlada pelo Reino Unido até 1997.

Para facilitar, resolvemos reservar um hotel só para dormir em Shenzhen, um que fosse próximo à estação de trem, onde precisávamos estar às 6h da matina. Tudo certo, até que, já depois de meia-noite, eu perguntei na recepção se eles poderiam chamar um táxi para a manhã seguinte. Em geral, recepcionistas de hotel dominam ao menos o básico do inglês e foi assim que o rapaz me contou que não haveria táxi porque, garantiu ele, nenhum taxista topava a corrida entre o hotel e a estação de trem, que custaria menos de 10 yuans (cerca de R$ 5). Como não era tão perto assim a ponto de irmos a pé, a solução, garantiu ele e os comentários de outros hóspedes que achei no Booking, era ir para a rua e tentar parar um carro. Na marra.

Na manhã seguinte e ainda sonolento, fui tentar a sorte com o grupo com menos domínio de inglês que encontrei na China – os taxistas da madrugada. Não demorou para um carro parar. 你要去哪里?, perguntou o motorista, prontamente respondido por uma cara de turista perdido que não fala chinês – minha cara mais comum naquela viagem. Repeti em inglês, duas vezes, que queria ir até a estação de trem, só para ouvir, também duas vezes, o mesmo 你要去哪里, o que nos levou para uma espiral de causar inveja em muita Torre de Babel por aí.

Já prevendo o problema, saquei do bolso o bilhete da passagem, onde havia o nome da estação de trem em chinês, o que provocou duas situações: um gesto de não com a cabeça e a tentativa de arrancar o carro. Como estávamos atrasados e vai saber quando outro táxi passaria por ali, implorei, com meu melhor Imagem & Ação, para o sujeito ficar. E completei a operação sacando do bolso e sacudindo três notas de 10 yuans – o triplo do valor máximo da corrida, mas, convenhamos, pouco pra quem estava quase perdendo um trem. Aí veio a linguagem universal: um baita sorriso de quem tinha gostado do negócio.

A chegada em Guilin também só foi fácil porque seguimos o método infalível para viajar por lugares onde a comunicação é complicada: mostramos o endereço do hotel em chinês, que estava impresso num papel, ficamos de olho para garantir que o taxímetro seria ligado e rezamos pro motorista não dar voltas. Acho que ele não deu, mas não tenho como garantir.

Por falar em táxis, quase todos os hotéis em que ficamos na China tinham um modelo de cartão em que vinha escrito, em chinês e inglês, uma mensagem amigável para motoristas, algo como: Olá, leve-me para o lugar x, por favor. Ou preciso voltar para o hotel tal, que fica nesse endereço. Você não entenderá uma palavra que o motorista falar (e ele provavelmente vai falar muita coisa), mas chega ao destino sem grandes complicações.

Já deve ter sido mais difícil, tenho certeza. Fiquei imaginando como seria viajar para lugares assim há algumas décadas, na era pré smartphone, que é mais salvador de vidas do que sacudir três notas de 10 yuans na cara de um motorista. Vários foram os momentos em que a comunicação com o oriente só foi possível porque tacamos uma dúvida no Google Translate, vimos ela ser milagrosamente transformada em chinês e mostramos o celular para a pessoa – que então pegava o dela e escrevia alguma coisa como resposta, com o mesmo método. Demora, mas funciona quase que perfeitamente, seja para pedir comida num restaurante, orientação de como chegar em determinado endereço ou perguntar se aquela coca é fanta, digo, se aquele espetinho é escorpião.

Leia também: Google Maps, Mapas de Papel e a arte de se perder numa viagem

Os aplicativos de tradução instantânea, como o Google Translate, são o mais perto que já chegamos do Peixe Babel, uma espécie fictícia que aparece nos livros O Guia do Mochileiro das Galáxias, escritos pelo britânico Douglas Adams. Na trama, basta introduzir esse peixe no ouvido para entender qualquer idioma do universo, já que o bicho se alimenta da energia mental das criaturas ao redor e expele a tradução na mente do hospedeiro.Tão engenhoso e útil que só pode ter sido projetado por algum criador supremo, defendia Adams, o que acabava provando a inexistência de Deus.

peixe babel

Se a lógica do Adams está certa eu não sei, mas não duvido se alguém disser que um dia os aplicativos de tradução simultânea chegarão nesse nível – você coloca um app no ouvido e entende tudo que falam com você. Até esse dia chegar, foco na mímica e  nas poucas coisas que permanecem como linguagem universal. Tipo a cara de desespero de quem precisa pegar um trem.


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Rafael

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

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8 comentários sobre o texto “Na falta de inglês, gesticule feito um louco

  1. Estando na Alemanha, nem tente. Eita gente bloqueada!!! O melhor é tentar escrever (no meu caso queria 250 gr de presunto, ou 1/4 de kg) ou desenhar…
    A vendedora não entendeu de forma alguma. Desisti de comprar… comi um sabduba.

  2. “Se a lógica do Adams está certa eu não sei, mas não duvido se alguém disser que um dia os aplicativos de tradução simultânea chegarão nesse nível – você coloca um app no ouvido e entende tudo que falam com você.”

    E existe! Inventaram um! hahaha

  3. Rafa,

    Eu estou rindo de nervoso aqui, nos meus dois meses morando em Hong Kong isso aconteceu poucas vezes ( pq moro no centro, diga-se de passagem!) mas me bastou ir para lugares e bairros mais afastados onde sou a única pessoa não-asiática para passar por coisas do tipo. Ahhh, taxistas realmente nunca falam ( nem conseguem ler) em inglês, eu carrego um cartão com meu endereço no alfabeto chinês na bolsa. Para todas as outras coisas existe a mímica, e já estou ficando fera nisso!

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