Causos da vida real: quando o intercâmbio em Dublin parece uma novela das 20h

Sabe aquele amigo que adora quando vai chegando o mês de maio porque sabe que o frio está batendo à porta? Não sou eu. Todo mundo me avisou que eu iria sentir frio durante meu intercâmbio em Dublin, mas nada me preparou para congelar em pleno verão europeu. E esse foi um dos principais motivos que me fizeram voltar pro Brasil. Eu estava psicologicamente preparada para a temporada de frio, a única coisa que eu não esperava era que o verão irlandês fosse igual ao inverno brasileiro.

Mas não só de perrengue é feita a vida do intercambista. São várias viagens, novos amigos e muitas experiências. Depois que você volta de um intercâmbio em Dublin, são várias histórias pra contar. Algumas só fazem sentido pra quem viveu aquela experiência, outras parecem que foram tiradas de alguma fanfic. Tem história pra uma boa novela, e sim, já cogitei a possibilidade de escrever um email pra Glória Perez sugerindo o tema. Neste post eu resolvi juntar algumas das melhores histórias vividas por mim e pelos meus amigos nesse tempo de Irlanda.

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Não tem como fugir do destino

Conheci muita gente durante os meus 18 meses de intercâmbio em Dublin, mas uma das histórias que eu mais gosto de contar é a da Natacha Duarte, a Nat. A gente se conheceu na escola, antes mesmo das aulas começarem. Era a segunda vez que ela se mudava para a Irlanda pra fazer intercâmbio. A primeira, em 2011 e a segunda, em 2016. São vários amigos que casaram com cidadãos europeus, mas o caso dela é o que eu gosto mais.

Na primeira vez, só passou perrengue. Largou emprego e uma filha no Rio de Janeiro e viajou com o namorado brasileiro rumo à Ilha Esmeralda. A história começou a dar errado quando percebeu que só havia três salas de aula na escola em que estudava e que uma delas era na recepção. As aulas eram ministradas na mesma sala para todos os níveis. Ela não sabia falar nem “good morning”, e o namorado, que era do nível avançado, se sentava na cadeira ao lado.

Com dois meses de aula, a escola fechou. Isso era muito comum antigamente, mas hoje em dia o governo irlandês tem um controle maior sobre as instituições de ensino e os cursos precisam vir com um seguro contra esse tipo de situação. Mesmo que a escola venha a fechar, você será reencaminhado para outra instituição. Ela então arrumou um emprego de babá em uma família de brasileiros e por lá ficou até 2013, quando decidiu voltar para o Brasil, pois mesmo morando há dois anos na Irlanda, não tinha aprendido o inglês.

De volta ao Brasil, terminou o relacionamento e colocou na cabeça que queria voltar pra Irlanda e desta vez para, enfim, aprender a língua. Foram dois anos juntando grana pra voltar. Até que, em junho de 2016, conseguiu. Como não tinha toda a grana, dividiu o curso em várias prestações. Os 3 mil euros obrigatórios para tirar o visto ela também não tinha e pegou emprestado com um amigo só para passar pela imigração. A moradia era na casa de outro amigo, a quase uma hora de distância da escola. Parecia que o universo conspirava contra, até que tudo começou a mudar.

Nat baixou o Tinder. A ideia de usar o app era só pra praticar o inglês e perder o medo de se comunicar com estrangeiros. Conheceu alguns caras legais, mas nunca teve coragem de se encontrar com eles. Até que um dia o algorítimo mágico mostrou alguém que realmente se destacava: era o Shane, um irlandês. Mesmo após várias madrugadas de conversas, ela ainda tinha medo de marcar um encontro. Demorou quase um mês pra se encontrarem em um dos vários parques de Dublin. O encontro deu tão certo que em dezembro de 2016 eles noivaram, em janeiro ela foi morar com ele e em fevereiro de 2017, se casaram, na Dinamarca. Em março, ela descobriu que estava grávida e em dezembro a pequena Eileen nasceu. Hoje em dia, ela continua morando na Irlanda e vem ao Brasil somente para as férias.

Intercâmbio na Irlanda

Nat foi fazer intercâmbio em Dublin para estudar inglês, mas acabou encontrando o amor

“Meu inglês está bem melhor, já consigo fazer minhas coisas sozinha, porém sinto algumas dificuldades, muito pelo fato de não estar mais estudando. Hoje em dia não consigo mais ver a minha vida sem o Shane. Sempre que eu falo sobre ele, eu me emociono. Ele faz de tudo pra mim e faz a maior questão da minha presença aqui. No final do ano, vamos trazer a minha outra filha para morar com a gente e deixar a família completa. Ele está longe de ser perfeito, mas é o cara mais perfeito que já conheci e que me deu um dos meus maiores presentes, a nossa filha, Eillen”. (Natacha Duarte é enfermeira e mãe da pequena Eileen e da Júlia, de 15 anos)

Confrontando os Knackers

Que a Irlanda é um país bem mais seguro que o Brasil, isso é indiscutível. Contudo, não quer dizer que não exista criminalidade por lá. Eu mesma já fui assaltada e, em outra ocasião, fui alvejada com maçãs pelos Knackers. Mas, afinal, quem são eles?

Os famosos “nanás”, como são conhecidos, são protagonistas nos casos de xenofobia e praticam pequenos roubos e atos de vandalismo. As práticas mais comuns são roubar bicicletas, celulares e jogar ovos nos estrangeiros. Eles são facilmente reconhecidos pelo combo de moletom cinza com tênis da Adidas e por sempre andarem em grupo.

O uso do termo “knacker” é considerado bem pejorativo. Por isso, muito cuidado ao falar sobre eles nas ruas. Até o termo “naná”, que foi inventado pelos brasileiros, eles já conhecem. Tacam ovos, pedras, cuspe ou, na melhor das vezes, só xingam muito. No meu caso, foram maçãs. Doeu muito, só pra constar! Na Irlanda, o porte de armas é totalmente proibido e é uma coisa levada muito a sério, até mesmo pelos Knackers, que podem perder o benefício social se forem pegos arma de fogo. Tenho um amigo que, ao ajudar outro brasileiro que estava apanhando deles, acabou levando pedradas.

Quando um deles roubou meu celular, eu estava saindo do supermercado, guardando as minhas compras na mochila (não há sacolas plásticas nos supermercados. Você precisa levar a sua própria sacola, comprar uma ecobag ou sair carregando os produtos pela rua). Um “naná” adolescente acabou levando o meu Iphone, novinho. Como eu estava no meio da rua, resolvi tentar recuperar o aparelho. Minha ideia brilhante foi sair correndo atrás dele, jogando batatas em um adolescente, que fugia de bike. Seria cômico se não fosse trágico.

Convivendo na mão-inglesa

Apesar de não fazer parte do Reino Unido há quase um século, a República da Irlanda ainda adota a mão-inglesa. Demorou quase um mês para que eu não me assustasse mais com os carros que pareciam ser dirigidos por fantasmas e para conseguir olhar pro lado certo ao atravessar a rua. Dirigir e pedalar do “lado errado” da via é outro problema enfrentado pelos brasileiros na Irlanda.

Quando eu andava de bike, sempre tive receio na hora de virar uma esquina. É mais do que comum ver ciclistas se atrapalhando em vias públicas. Em alguns casos, até mesmo se acidentando.

“Eu estava andando de bike, cheio de sacolas de compras. Um carro bateu em mim e as minhas compras voaram e foram parar no chão. A motorista parou pra ver se eu tinha me machucado, foi super solícita. Ela ficou bastante preocupada com o fato de eu querer processá-la. Na hora, outras pessoas também vieram ver como eu estava, me ajudaram a recolher as minhas compras. Isso foi logo quando eu cheguei e não sabia andar na mão-inglesa. Só aí eu descobri que o errado era eu”.  (Fabrício Bedeschi, analista de TI, mora em Dublin desde Outubro de 2016)

Natal longe da família

Algumas datas comemorativas são mais difíceis de encarar quando estamos do outro lado do Atlântico, mas o natal, pra alguns, é a mais complicada de todas. Isso muito se deve ao fato de que, na Irlanda, o natal é no inverno, quando os dias são mais curtos e o frio mais intenso. Os dias se tornam mais melancólicos e um feriado, que passamos a vida inteira em família, acaba se tornando uma imagem na internet e uma chamada de vídeo pelo celular.

Intercambio na Irlanda: natal entre estrangeiros

Estrangeiros se reúnem no natal para esquecer a saudade de casa

No Brasil, nós temos como tradição a ceia na véspera de natal e o almoço no dia seguinte. Na Irlanda e em boa parte do resto do mundo, a tradição é o almoço e um jantar no dia 25. Para celebrar a data, os intercambistas costumam se reunir com os amigos e tentar trazer um pouquinho do sentimento de família. É a família do intercâmbio. O meu foi com os meus amigos. Nós éramos um grupo de cinco, mas a depressão de final de ano abateu um soldado antes do natal.

“Quando eu vi no grupo da família todo mundo marcando a festa de natal na minha cidade, me deu vontade de participar e comecei a ficar com o coração na mão. Todos pedindo pra eu voltar e, numa quarta-feira, tomei a decisão. Comprei passagem para o próximo sábado e larguei o intercâmbio. Alguns amigos não entenderam muito bem a minha decisão repentina, me chamaram de louco. Hoje em dia eu não digo que me arrependo da forma como larguei a Irlanda, mas penso muito em voltar”. (Felipe Fiorentini, estudante de Engenharia de Produção, morou 6 meses em Dublin)

O que eu levo do intercâmbio em Dublin

“A troca de informação e cultura é a melhor parte do intercâmbio em Dublin. É uma ótima forma de conhecer gente nova. Eu brinco com todo mundo que é como um Big Brother da vida real. Em pouco tempo de convívio, você passa a amar uma pessoa, a ponto de sentir muito a falta dela quando estão separados. É uma falta gigantesca que só quem vive o intercâmbio consegue descrever. É uma saudade de gente que a gente conviveu por apenas um ou dois meses”. (Hugo Freitas, jornalista, morou na Irlanda por 1 ano e 8 meses)

“Eu nunca tinha visto o mar antes e conhecer a praia na Irlanda foi bem interessante, pois é bem diferente da ideia que a gente tem de praia no Brasil. No Brasil, a gente fica no sol, de biquíni, e aqui eu fui pra praia de casaco, botas e calça jeans. Mas eu achei bem legal. Apesar da praia ser de pedra e de ventar muito, aprendi a apreciar. Porém, sempre de casaco. Toda vez que tem sol e eu estou com um tempo livre, gosto de ir ver o mar. As praias de pedra são bem mais bonitas que as de areia. Pelo menos aqui na Irlanda”. (Camila Fernandes, analista de BI, mora em Dublin há mais de um ano)

Viagens Intercâmbio na Irlanda

A primeira vez que a Camila viu o mar foi durante o intercâmbio em Dublin

“Muita gente tem ilusão de como é a vida. É claro que a gente só posta nas redes sociais a parte boa, as viagens, os lugares bonitos, mas a parte sombria a gente deixa de lado. Quando eu cheguei, gastei mais dinheiro do que o planejado e estourei o orçamento. Para colocar as contas em ordem, passei 15 dias comendo miojo. O máximo que que conseguia fazer era comprar uma carne moída pra acompanhar. Quem vê as fotos, pensa que é tudo lindo e maravilhoso” (Anna Carolina Torres, jornalista, morou em Dublin por 1 ano e oito meses)

“Minha ideia inicial era achar um lugar maior e colocar um gringo pra morar com a gente para treinar o inglês, só que não consegui. Eu falava português o dia todo e na escola praticamente só tinha brasileiro. Então meu plano foi por água abaixo. Para praticar, acabava lendo livros em inglês dentro do ônibus, a caminho da escola, mas não era o bastante. Poderia ter aproveitado bem mais o meu intercâmbio em Dublin se eu tivesse tido mais contato com estrangeiros” (Caio Augusto, bacharel em Relações Internacionais, morou 10 meses na Irlanda)

“Me ver trabalhando atrás do balcão foi uma experiência nova pra mim e que me mudou. Eu sempre fui muito contra a ideia de dar gorjeta para garçom, mas hoje em dia percebo como o profissional se sente valorizado com o gesto. É sobre se colocar no lugar do outro, é repensar em como as pessoas te olham. Intercâmbio é um aprendizado que vai além de ter dinheiro. O irlandês olha para o prestador de serviços de forma muito igual, eles entendem que se não fosse você ali, servindo, eles não teriam o produto. Por isso, eles têm o costume de te agradecer o tempo inteiro” (Flávia Lovisi, jornalista, mora em Dublin há três anos)


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Fernanda Pádua

Tenho BH como meu ponto de partida e o meu porto seguro. Entrei pela primeira vez em um estádio de futebol aos 10 anos e ali descobri que queria ser jornalista. 20 anos depois, me tornei repórter esportiva e viajante nas horas vagas. Fiz intercâmbio na Irlanda em 2016/2017, pra estudar inglês. Tenho um objetivo de visitar todos os estados brasileiros e metade dos países do mundo e já percorri boa parte do trajeto, mas várias histórias e paisagens legais ainda estão por vir.

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