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Atlas: Itália

Da poltrona para o trono: uma viagem de trem trancada no banheiro

Era o primeiro mochilão do casal pela Europa. Uma aventura sonhada e planejada com cuidado – e, como sempre são essas viagens, sem muita grana disponível. Estavam em Lisboa e partiriam naquela noite para Pisa, e de lá seguiriam para Florença, onde já tinham um Airbnb pago e reservado.

Como o voo sairia apenas às 21h, havia tempo para passear por Lisboa durante o dia e ainda enrolar um pouquinho até dar a hora de chegar, arrumar as malas e seguir para o próximo país do roteiro. A ideia era chegar bem mais cedo para o embarque, algumas horas antes da partida. Mas, parados no saguão do aeroporto, conferiram atônitos o painel de partidas daquela noite. Checaram as informações no bilhete uma, duas, três vezes. Não podia ser! O voo estava programado, na verdade, para duas horas antes do que pensavam. A chegada adiantada ainda os permitiria embarcar, não fossem as malas, que precisavam ser despachadas. Não dava tempo.

Com esse dilema, decidiram encontrar o próximo voo mais barato para a Itália. O destino seria Veneza, mas só na manhã seguinte. Dormiram no aeroporto. Uma vez que a Ryanair finalmente os levou à terra do macarrão, era hora de descobrir como seguir para Florença sem sequer ver os canais de Veneza e também sem a chance de, como antes planejado, ver a torre de Pisa.

O trem – mais barato impossível – era uma confusão de baldeações. De Veneza para Bolonha, de Bolonha para Prato e, enfim, de Prato para Florença. Conexões curtas, em que era preciso sair de um trem e entrar no outro, sair de um trem e entrar no outro…

Assim, desceram do primeiro trem, correndo com as malas, em busca da outra plataforma. Entraram no vagão da locomotiva que já estava para partir e quando a namorada foi pegar a sua passagem para confirmar se aquele era de fato o comboio certo, só encontrou uma das três: justo aquela que já havia sido usada. Nem sinal das próximas duas. O Com o trem já saindo, o jeito era ficar lá mesmo.

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Conformados, já estavam sentados quando o sistema de som anunciou que passariam conferindo as passagens. Somando todos os prejuízos que as últimas 24 horas haviam acumulado, uma multa de 10 vezes o preço do bilhete perdido não cabia em seus bolsos. E o namorado não havia perdido os bilhetes deles. Foi assim que a garota tomou uma decisão: se enfiou no banheiro mais próximo e contou que era ali que passaria o resto da viagem.

Mas o destino não quis que as coisas fossem tão simples. Uma senhora, a certa altura, precisou usar o toalete. Bateu na porta e ouviu a resposta da menina lá dentro: “Desculpe, está ocupado”. A senhora aguardou um pouco e retornou. Mais uma vez, a jovem respondeu: “Desculpe, está ocupado”. A senhora então, ao invés de fazer o que qualquer pessoa normal faria, que é ir a outro banheiro num trem cheio de vagões, fez a coisa mais constrangedora que poderia ter feito: foi até a pessoa que fazia a conferência das passagens e reclamou que havia alguém no banheiro há muito tempo.

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A funcionária do trem se aproximou e deu três socos fortes na porta. Numa atuação digna de Oscar, a menina ensaiou uma cara de pau de doente, abriu uma pequena fresta e disse: “me desculpe, não estou me sentindo bem”. A funcionária, comovida, perguntou se a menina precisava de alguma ajuda. Ela disse que não. E estrategicamente, foi para o lado oposto ao que a conferente das passagens se encaminhou.

Seguiu seu caminho: encontrou outro banheiro, entrou e trancou a porta. “E fiquei lá, vendo a paisagem da janelinha do banheiro”. Toda a viagem. No banheiro. Por quase duas horas.

Este é um conto da nossa série de histórias baseadas em casos reais. Quem me contou essa história foi a Priscila, namorada do meu primo, Arthur. Tem um relato interessante que pode aparecer aqui? Fale com a gente, no email [email protected], e nos ajude a contar boas histórias.

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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 30 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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