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De Belford Roxo para uma universidade nos EUA: a história de um intercâmbio

Como um aluno da escola pública de Belford Roxo, no Rio de Janeiro, foi parar em um intercâmbio nos EUA?

“A primeira escola pública bilíngue da Baixada Fluminense me abriu os olhos para os caminhos que eu poderia seguir fora de sala de aula. Foi mais um passo em quebrar as fronteiras do meu bairro. Se no Ensino Fundamental eu tinha dado a volta ao mundo com os livros do Júlio Verne, com o apoio do CIEP 117 eu comecei a viajar no mundo de possibilidades que eu poderia explorar dentro de mim”.

Ele tem uma história incrível. E não mede esforços e nem palavras pra contá-la – e assim incentivar jovens em passos semelhantes aos dele. Conheça a história de Lucas Martins Carvalho, 22 anos, estudante de Relações Internacionais e Política na University of the South, em Sewanee.

Tudo começou com o Programa Global Citizens of Tomorrow, um projeto que premia os estudantes que têm bom desempenho escolar com bolsas de intercâmbio para estudar fora do país. O objetivo é aumentar a consciência intercultural e o aprendizado de uma segunda língua. No caso do Lucas, a indicação do projeto veio do professor de sociologia dele, em 2015. Ele conta a história nesse vídeo no canal dele no YouTube.

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“Em 2015, escrevi um miniconto sobre a minha trajetória de Belford Roxo à Chicago chamado ‘O Peregrino’. Lembro que escrevi em terceira pessoa, como quem ainda se sentia desconfortável e um peixe fora d’água ao expor a realidade periférica da minha cidade, com todas as suas dificuldades sociais. Como explicar o contexto da Baixada Fluminense, de violência e precarização de serviços básicos, para uma comunidade nos Estados Unidos que desconhecia totalmente a nossa realidade e que estava acostumada a enviar seus filhos, por exemplo, para Harvard?”

Era um momento em que ele ainda estava em processo de descobrimento das riquezas que a comunidade tinha oferecido. De como Belford Roxo, por muitos considerado o “fim do mundo”, o havia preparado. Daí, então, surgiu a definição dele como peregrino.

“O peregrino dos Estados Unidos foi antes o peregrino que transitou por muitas realidades diferentes dentro do próprio município de Belford Roxo. Sempre busquei compreender cada experiência única dos vizinhos, família, amigos, no cobrador do ônibus às 5 horas da manhã, na moça com a bolsa pesada e o filho no colo esperando para embarcar no trem lotado, nas risadas de botequim, onde o tempo passava de forma diferente e na felicidade do primeiro dia de aula, onde crianças ficavam ansiosas para voltar à escola e rever os amigos. Esses e outros momentos são uma inspiração e força para continuar lutando pelo meu desenvolvimento e pelo de minha comunidade”.

Ele conta que muito da sua trajetória e de como ele vê o mundo vem do impacto dos referenciais que ele possui. “Muitas pessoas acham que os exemplos estão em lugares distantes, fora do país. Mas, às vezes, eles estão do lado de fora do portão, bem próximo. Meus primeiros referenciais vieram da história de minha família. Meus pais me apresentaram às realidades de uma classe trabalhadora que enxergava na educação uma ferramenta poderosa para ler o mundo. Me ensinaram a ler. Não só palavras, mas pessoas, emoções, realidades, dificuldades. Pais assim, sem prestígio (no sentido econômico do termo), mas que me ensinaram a questionar as coisas que são vendidas como grandes e a reconhecer as coisas pequenas que nascem gigantes, inclusive a celebração do “nós”. O amor, o carinho e o senso de pertencimento que recebi de minha família e de outros ‘mentores’ da vida, como professores e outros jovens que estavam também realizando vários projetos de transformação, é um espelho do que eu devolvo à sociedade”.

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A escola que mudou a vida do Lucas e abriu as portas do intercâmbio Rio-EUA

“O fator especial do CIEP 117 Carlos Drummond de Andrade foi ser o primeiro colégio público bilíngue (Português-Inglês) na Baixada Fluminense. A escola, localizada em Comendador Soares, era integral e tinha todas as disciplinas comuns de um ensino médio normal, mas contava com o ‘extra’ de oferecer uma carga horária maior em inglês e também disciplinas na língua, como Matemática e Geografia. Tínhamos algumas disciplinas mais diferenciadas, por exemplo, o Projeto de Integração Global, que nos estimulava a desenvolver projetos, elaborar ações fora da escola e trabalhar em grupo. Admiro também muito a forma como os professores nos estimulavam a ler, não só no sentido de ler livros, mas de desenvolver habilidades críticas”.

No CIEP 117, ele e seus colegas tinham atividades como debates em sala de aula que, aos poucos, iam dando confiança a todos os alunos para construir pontos de vista e os preparando para se apresentar na frente de pessoas.

“Uma de minhas experiências mais marcantes foi a de editor-chefe do jornal escolar, o Intercultural News. O jornal era uma família de jovens extremamente apaixonados em desenvolver suas capacidades em fotografia, redação, edição de vídeo, entrevistas, jornalismo, comunicação com o público e por aí vai! Na época eu pensava que era um projeto pequeno, mas agora vejo o quanto contribuiu para a minha formação. Estávamos levando notícias da escola para o mundo e trazendo o mundo para a nossa comunidade”.

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Intercâmbio Rio-EUA e a Bolsa de estudos Global Citizens of Tomorrow

“Essa bolsa foi um divisor de águas. Foi quando tudo passou a ficar dividido entre dois mundos e países; amigos, famílias, experiências, saudades – e por aí vai!”. Resume Lucas sobre a bolsa de estudos que deu a ele a oportunidade do intercâmbio Rio-EUA.

O Lucas não esperava passar no processo seletivo. “Lembro, como se fosse ontem, que eu me inscrevi no último dia e não estava nada preparado, pelo menos pensava que não. Também, lembro que estava me mudando para uma nova casa e a situação toda estava um caos. Meu pai gritava do portão para ajudar ele com a mudança e eu tentando terminar aquelas redações altamente introspectivas e filosóficas no meio disso tudo. Acho que a pressão do meu pai gritando deve ter ajudado, não? (risos)”.

A resposta veio enquanto ele estava no ônibus voltando da escola. “Eu lembro que fiquei em choque, gritava por dentro e ria por fora. O programa não tinha dado uma data certa para a divulgação dos resultados então eu entrava no site toda hora para ver se tinha alguma atualização. A cena é bem viva. Eu pressionava o telefone no meu peito com o resultado e as lágrimas corriam de alegria por eu ter sido aprovado – cheguei correndo em casa para contar as boas novas! A viagem da escola para casa nunca tinha ficado tão longa”, lembra Lucas.

O programa deu suporte para ele e a família, oferecendo muitas orientações durante todas as fases do intercâmbio entre Rio-EUA. A bolsa cobriu todos os custos da viagem, até mesmo com as malas, e também ofereceu uma espécie de “mesada” para ajudar com despesas pessoais durante o intercâmbio.

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A bolsa Global Citizens of Tomorrow tem três fases de seleção. A primeira é online, em que você tem mais ou menos uma hora e meia para responder perguntas de matemática, inglês e escrever uma redação em português sobre um tema que é dado na hora. O tema da última edição pedia para discorrer sobre um problema em sua comunidade e como o estudante poderia solucioná-lo. Nesta primeira etapa, você também precisa anexar alguns documentos pessoais, como comprovante de residência e histórico escolar.

A segunda fase é simplesmente a divulgação dos semifinalistas no próprio site da bolsa, e então passam para a terceira fase, que é presencial. Nela, 15 semifinalistas fazem uma prova de proficiência em inglês (o nível intermediário é o recomendado, pois você estará estudando em uma escola regular, não em uma escola de idiomas).

A prova é corrigida no mesmo dia e aqueles estudantes que atingem a nota mínima no inglês passam para as etapas de dinâmicas de grupo e entrevistas individuais, que acontecem todas no mesmo dia. Depois que todas as atividades terminam, os resultados são divulgados nas redes sociais da organização e no próprio site da bolsa.

“Olha, eu tenho que confessar que toda essa situação foi tão nova na minha vida que eu nem parei para pensar muito as reais chances de ser aprovado em cada etapa”.

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Primeiro intercâmbio nos EUA e a primeira vez fora do Rio, em uma cultura diferente

Quando Lucas contou a novidade na escola, a reação foi bem engraçada. “O meu professor (que o indicou para o processo seletivo) então, que estava super empolgado, pegou o microfone lá no meio do evento e anunciou para a escola inteira que eu estaria abandonando a escola por um ano, para um intercâmbio! Primeiro, silêncio, daqueles que deixa o estádio inteiro quieto por alguns segundos antes do jogador bater o pênalti e, depois, o gol com a escola toda vindo me abraçar e parabenizar. Me senti, novamente, acolhido por toda a comunidade escolar”, se diverte ao lembrar.

“Eu fui estudar na New Trier High School, uma das melhores escolas de ensino médio da região de Chicago e também reconhecida nacionalmente pelo alto rigor do ensino e pelos times de esportes. Chegar em New Trier foi uma surpresa. Era uma escola localizada em uma região muito afortunada da cidade e que colocou a realidade de Belford Roxo como objeto de estudo. Dois mundos contrastantes, ponto de partida para a minha busca por explicações para as desigualdades sociais no Brasil.”

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A escola tinha uma infraestrutura muito apropriada para atender a todo tipo de aluno. As aulas eram rigorosas e exigiam tempo fora da escola para a leitura dos materiais. “Tínhamos provas ou quizzes (inclusive surpresas) todas as semanas, o que forçava a gente a manter um ritmo constante de estudos”.

Ele voltou para o Brasil no fim de Junho de 2016, super animado para compartilhar a experiência com os familiares e amigos na escola. A vontade de contar as novidades vividas no intercâmbio Rio-EUA eram grandes. Entretanto, o Rio estava em um período de paralisação de quase cinco meses nas escolas estaduais. Primeiro, por uma greve; depois, pelas Olimpíadas. “Tudo estava muito instável – o que foi o primeiro choque nas minhas expectativas. Foi muito estranho, eu me sentia o peixe fora d’água na minha própria comunidade. Era o mesmo Lucas, mas diferente. Tinha muito do Lucas pré-intercâmbio, mas muito em mim já não era do mesmo menino que tinha embarcado um ano atrás”.

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Como surgiu o Intercultural News: a oportunidade de informar a comunidade

O Intercultural News, primeiro jornal comunitário bilíngue (Português-Inglês) da região de Belford Roxo, surgiu em 2014, do compromisso e paixão de 16 estudantes que queriam trazer a escola para o mundo e o mundo para a escola.

Hoje, muitos dos membros do jornal estão na universidade, cursando Jornalismo, Design Gráfico, Letras, Relações Internacionais, etc. “Tenho certeza que a experiência no Intercultural News me ajudou com a escrita, foi fundamental no processo seletivo do intercâmbio e também com a volta ao Brasil, com a redação do ENEM. Definitivamente, me ajudou a me relacionar melhor com as pessoas em diferentes contextos, como profissional, escolar, online e nas ruas”.

Com o Intercultural News, ele viu que o jornalismo tem muito do potencial de unir a juventude com diferentes habilidades. E também de criar algo coletivo que toca a vida de pessoas de formas que ele nem poderia imaginar.

“A nossa linha editorial focava em educação e cultura para a juventude. Nosso maior objetivo era apresentar essas duas frentes como uma alternativa de transformação na vida das periferias do Rio. Queríamos trazer pautas relevantes, críticas, mas sem perder a personalidade jovem. Por isso, postávamos sobre oportunidades”.

Lucas e amigos do intercambio rio EUA

O retorno ao Brasil e o início da educação superior

“Quando retornei ao Brasil, fiz o ENEM para Relações Internacionais, e comecei a estudar na Universidade Federal da Paraíba (João Pessoa), onde fiquei por dois anos. A mudança casava com o meu pós-intercâmbio e o desejo de querer compreender mais as diferenças entre as regiões brasileiras. Se Belford Roxo era diferente de Chicago, achei interessante compreender como o Brasil era internamente diferente. A Paraíba é hoje uma casa para mim. Nunca vou esquecer das pessoas que conheci e que se tornaram família. João Pessoa é a cidade onde o sol nasce primeiro (e quente) nas Américas, a hospitalidade e o amor também”.

Em agosto de 2019 ele foi aprovado com uma bolsa de transferência para a University of the South, onde continua estudando Relações Internacionais, mas agora com uma concentração na região da América Latina, Caribe e no capitalismo global.

lucas no gramado da escola nos EUA com a turma do intercambio

O risco de ter que voltar pra casa e o trabalho na universidade durante a pandemia

No começo de julho, uma notícia deixou os alunos estrangeiros que estudam nos EUA de cabelo em pé. O presidente norte-americano, Donald Trump, disse querer mandar de volta para os países de origem todos os estudantes internacionais que estivessem tendo aulas online em instituições de ensino no país. Dias depois, sob pressão das universidades e dos alunos, o governo voltou atrás na intenção.

“Foi uma notícia desanimadora e estressante para toda a comunidade de estudantes internacionais nos Estados Unidos. Estes estudantes contribuem para o país através da ciência (inclusive, muitos estão à frente das pesquisas pela vacina do Covid-19 aqui nos Estados Unidos), da pesquisa e inovação, da diversidade cultural e com mão de obra”.

Houve uma mobilização muito grande por parte dos setores da educação, principalmente de universidades de grande porte e com grande capacidade de influenciar na política, como Harvard e MIT.

Além disso, muitos estudantes começaram petições online para revogar a decisão. Empresas do Vale do Silício, na Califórnia (Google, Apple, Microsoft, Netflix, Twitter, e etc), que têm interesses na inovação e mão de obra desses estudantes também pressionaram o governo para voltar atrás. Lucas fez um vídeo na época, explicando a situação.

parado na porta do prédio da ONU intercambio rio eua

Se por um lado o governo tinha a ideia de que os alunos estavam parados, tendo aulas somente online, esse não foi o caso do Lucas. Mesmo durante a pandemia, o trabalho no Campus não parou. Lucas está envolvido com um projeto de pesquisa que analisa as desigualdades sociais nos estados Sul dos Estados Unidos em relação a questões demográficas como raça, etnia, gênero, nível de renda e nível de escolaridade.

“Estou voluntariando com o mercado de agricultores locais e ajudando-os a venderem seus produtos, já que a demanda caiu muito com as medidas de isolamento e o fechamento dos restaurantes da cidade. Junto com uma amiga da Ruanda, acabei de me tornar o diretor da International and Global Home, onde irei coordenar um dormitório com oito estudantes internacionais de todos os continentes do mundo”.

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Fernanda Pádua

Tenho BH como meu ponto de partida e o meu porto seguro. Entrei pela primeira vez em um estádio de futebol aos 10 anos e ali descobri que queria ser jornalista. 20 anos depois, me tornei repórter esportiva e viajante nas horas vagas. Fiz intercâmbio na Irlanda em 2016/2017, pra estudar inglês. Tenho um objetivo de visitar todos os estados brasileiros e metade dos países do mundo e já percorri boa parte do trajeto, mas várias histórias e paisagens legais ainda estão por vir.

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