Congonhas, a cidade dos profetas de pedra do Aleijadinho

Quando o português Feliciano Mendes adoeceu, talvez por conta dos anos de trabalho nas minas da região de Ouro Preto, nasceu um ermitão. Querendo evitar a morte, Feliciano abraçou a fé e ergueu um oratório no alto do Morro Maranhão, em Congonhas do Campo, onde ele mesmo foi viver. Ele doou sua fortuna para a construção de uma igreja, que foi autorizada pelo bispo e pelo rei de Portugal.

Enquanto o templo era erguido – com a ajuda e, garantem alguns, projetos do próprio ermitão -, ele fez sua travessia, deixando o projeto para outros fiéis. Feliciano Mendes nunca soube disso, mas aquele santuário não só ficou pronto, como também se tornou um marco no barroco brasileiro. Séculos depois, o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG), foi declarado Patrimônio Mundial pela Unesco. E permanece como um local de peregrinação, atraindo, todo mês de setembro, cerca de 100 mil fiéis.

Santuário Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas

O responsável por tanta fama é outro mineiro: Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, que projetou os 12 profetas em pedra-sabão que fizeram a fama mundial do Santuário. Além disso, a oficina de Aleijadinho também recebeu a encomenda de 66 estátuas de madeira que foram colocadas em seis capelas anexas ao templo central. Elas contam a história dos passos da paixão de Cristo.

Congonhas, MG

Congonhas, MG: como chegar

Eu aprendi essa história na infância, com as professoras do ensino fundamental. Mas foi só em 2016, já com 30 anos e depois de adiar a visita várias vezes, que conheci de perto os profetas do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. Sabe qual a parte mais vergonhosa? Congonhas está a apenas 80 km de Belo Horizonte, onde eu nasci e vivo. Distância que demorei cerca de 1h20 para percorrer, com a Viação Sandra, que faz várias viagens diárias entre a capital dos mineiros e a dos profetas. O deslocamento de carro também é fácil, pela BR 040. Alugar um carro mesmo que por um dia pode valer a pena para quem viaja em grupo. Se optar por isso, aqui explicamos como fazer a reserva e garantir o melhor custo/benefício.

Por falar nisso, já deixo a dica de uma vez: Congonhas combina com Tiradentes e São João del-Rei. Além do templo e de um museu muito bom, não há muito o que fazer na cidade e até os restaurantes ao redor do Santuário deixam a desejar. O ônibus que vai até São João del-Rei para em Congonhas, o que torna o roteiro simples mesmo para o viajante não motorizado: deixe cedo Belo Horizonte, passe parte do dia em Congonhas e siga no final de tarde para São João del-Rei. Um táxi da rodoviária de Congonhas até o Santuário dos profetas custa cerca de R$ 25.

Quem vai de carro faz o roteiro ainda mais facilmente e não é complicado juntar Congonhas também com Ouro Preto, Mariana ou mesmo Inhotim. Mas voltemos a falar dos profetas.

Congonhas, MG, profetas

Os profetas do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos

A Igreja em si não é muito diferente de tantas outras que existem nas cidades mineiras. O grande destaque do Santuário está no adro, área ao redor do templo. São 12 estátuas feitas em pedra-sabão e que têm as marcas da genialidade de Aleijadinho. Elas representam 12 profetas. E não confunda com os apóstolos de Cristo – os profetas retratados por Aleijadinho são os do Antigo Testamento e viveram séculos antes de Jesus.

O que fazer em Congonhas, MG

A entrada do adro é vigiada por dois dos mais importantes: Jeremias e Isaías, que, entre outras coisas, profetizaram a queda de Jerusalém e o exílio dos judeus em Babilônia, segundo a doutrina judaico-cristã. Em seguida você vai se deparar com Baruc, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Habacuque, Jonas e Naum. A obra-prima do conjunto é o profeta Daniel, retratado perto de um leão. Todos os profetas têm marcas que os identificam com suas histórias. Jonas e a baleia, por exemplo.

o que fazer em congonhas

Outro gênio, o escritor Carlos Drummond de Andrade, escreveu sobre o talento de Aleijadinho, que está presente em várias cidades mineiras, mas em poucas é tão visível como em Congonhas:

“Era uma vez um Aleijadinho,
não tinha dedo, não tinha mão,
raiva e cinzel lá isso tinha,
era uma vez um Aleijadinho,
Era uma vez muitas igrejas
com muitos paraísos e muitos infernos,
era uma vez São João, Ouro Preto, Sabará, Congonhas,
era uma vez muitas cidades,
e um Aleijadinho era uma vez.”

Por conta da poluição e de vândalos, os profetas sofreram com o passar dos séculos. O conjunto passa por obras de revitalização constantes e já até houve quem defendesse que os originais fossem enviados para um museu, com a substituição das obras do adro por réplicas.  A medida, no entanto, não agradou a população local e os profetas continuam em seus lugares.

profetas aleijadinho, Congonhas

Os Passos da Paixão de Cristo

Construídas depois da Igreja, as seis capelas que formam os Passos da Paixão de Cristo também tiveram a contribuição de Aleijadinho, que trabalhou durante três anos na elaboração das 66 peças distribuídas pelas capelas. Mestre Ataíde, outro nome supremo da arte barroca brasileira, pintou as obras, assim como Francisco Xavier Carneiro.

“Vá para a lá de baixo e suba o morro em zigue-zague”, disse o taxista que me levou ao Santuário. A dica dele é a mesma de qualquer guia turístico. As capelas têm uma sequência correta e recontam os últimos passos de Jesus Cristo. Para isso, é preciso subir o morro, num modelo de peregrinação que guarda semelhanças com várias igrejas europeias, como as de Matosinhos e de Braga, em Portugal.

Por falar nisso, uma explicação rápida: a devoção ao Bom Jesus de Matosinhos começou em Portugal, na região do Porto, quando uma imagem de Jesus crucificado foi achada na praia. Os fiéis acreditavam que aquela escultura tinha sido feita por Nicodemos, judeu que viu a crucificação de Jesus e que teria atirado a imagem no mar para evitar a perseguição religiosa. Hoje, a festa de Bom Jesus é uma das mais importantes celebrações religiosas do Brasil.

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profetas de congonhas, MG

Vamos subir o monte? A Primeira Capela, no pé do morro, mostra A Última Ceia. Preste atenção em Judas, com uma bolsa na mão, e nos outros apóstolos, surpresos com o momento em que Jesus revela que será traído. A segunda capela (lembre-se: suba em zigue-zaque) é a Agonia no Horto das Oliveiras. Jesus, angustiado e suando sangue, conversa com um anjo (“afasta de mim este cálice”) enquanto dois apóstolos, João e Tiago, dormem. Já a terceira capela mostra a prisão de Jesus. Repare em Pedro, à direita de Cristo, com a espada na mão, pouco depois de arrancar a orelha do soldado que tentava prender Jesus. Orelha que é mostrada na mão de Cristo – segundo a Bíblia, Jesus recolocou milagrosamente a orelha em seu lugar.

Chegou na quarta capela? Então você vai reparar que essa tem duas cenas. A primeira mostra Jesus sendo zombado e açoitado pelos soldados; na segunda ele está sentado e é tratado ironicamente como o Rei dos Judeus, usando uma coroa de espinhos, um manto vermelho e uma vara, que simulava um cetro.

Mais uma subida e você estará na quinta capela, que mostra Jesus Carregando a Cruz. Ele é seguido por duas mulheres chorando. Além deles, a cena tem soldados com pedras nas mãos, prontas para serem arremessadas, e até uma criança, que carrega um prego que será usado na crucificação. Que ocorre na última capela, onde Jesus está no chão, e também aparecem os dois ladrões que seriam crucificados ao seu redor e até soldados jogando dados, apostando para ver quem ficaria com as roupas de Jesus.

O fim do zigue-zaque leva ao adro da igreja e aos profetas. Todo conjunto é lindo e os jardins foram parcialmente projetados por Burle Marx, que foi contratado para repensar o paisagismo do morro e entregou o projeto em 1974.

profetas do Aleijadinho, em Congonhas

Depois da Igreja, aproveite para conhecer as lojas de artesanato ao redor do templo. E não deixe de visitar também o Museu de Congonhas, inaugurado no final de 2015 e que fica colado com o Santuário e conta a história dele. O museu é completíssimo e moderno – vale a pena passar lá antes de conhecer o conjunto. Abre de terça a domingo, em geral de 9h às 17h – às quartas é de 13h às 21h.

Hotéis e pousadas em Congonhas, MG

Você consegue visitar o Santuário e o Museu em quatro ou cinco horas, sem pressa. Por isso, Congonhas é um ótimo esquema para bate-volta a partir de BH ou para encaixar num roteiro maior, com Tiradentes ou Ouro Preto, como eu expliquei no começo do texto.

Mas, caso você queira passar algumas noites por lá, há opções de hotéis. O Booking lista 22 alternativas, entre hotéis e pousadas, na cidade. A Pousada Casarão da Pedra, a Pousada Circuito dos Inconfidentes e o H2 Hotel são algumas das alternativas mais bem avaliadas.

Veja aqui mais opções de hospedagem em Congonhas


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Rafael

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

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2 comentários sobre o texto “Congonhas, a cidade dos profetas de pedra do Aleijadinho

  1. Estive em Congonhas no ano passado, a caminho de Ouro Preto. Dá pra ver tudo em pouco tempo mesmo e depois esticar a viagem. Pra quem gosta de história, é um prato cheio!

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