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As cartas de amor de grandes mulheres

Eu circulava pela Shakespeare and Company sem muito objetivo. A adorável livraria em Paris estava, como sempre, cheia de turistas. Mas era possível, num canto ou outro, encontrar paz entre as centenas de livros. Foi num desses momentos que me deparei com a edição do livro Love Letters of Great Woman, cuja tradução vendida no Brasil é Cartas de Amor de Mulheres Notáveis.

Não nego, comprei o livro pela capa. Mas estava certa de que o conteúdo, de uma forma ou outra, seria interessante. Bastou ler a introdução escrita pela autora, Ursula Doyle, para confirmar minha teoria. Eu não sabia, mas Doyle já havia lançado outro compilado de correspondências românticas, o Cartas de Amor de Grandes Homens. Segundo ela conta no prefácio, muitas pessoas lamentaram, após ler o primeiro livro, como a comunicação instantânea de hoje suplementou as palavras no papel. Mas pelo que autora havia percebido, o que muitas pessoas reclamavam não era de emails ou mensagens de texto, mas quão pouco os homens de hoje em dia falam de seus sentimentos.

love letters of great woman capa love letters of great woman contracapa

Ao mesmo tempo, conta Ursula, ao compilar as cartas de grandes homens ela percebeu que elas pareciam ser escritas com um olhar para a posteridade ou o fato de que mesmo a carta de amor era só mais um veículo para apresentar a genialidade do autor. Muito diferente do compilado das grandes mulheres: “Para os grandes homens da história, quem eles amavam e com quem ele talvez se casariam era só um de vários aspectos de suas vidas. A grandiosidade estava em suas conquistas em outras esferas.”

Por outro lado, como até muito recentemente nenhuma mulher tinha possibilidade de se aventurar fora do ambiente doméstico, Doyle comenta que se as mulheres notáveis da coleção não tivessem se casado ou dado à luz a alguém importante, suas cartas sequer teriam sido preservadas.

Ao contrário dos homens, pondera Doyle, “as questões do coração poderiam alterar completamente o curso da vida de uma mulher”. O amor não era um luxo para essas mulheres, era uma necessidade para manter seu status – e muitas vezes o de toda a sua família. E também é triste pensarmos que pelo longo período em que essas cartas foram escritas, de 1399 a 1917, não eram poucas as mulheres que não sabiam ler ou escrever. Afinal, até hoje isso ainda é uma realidade. A própria autora aponta que aquelas que conseguiam lutar contra as convenções eram em geral excepcionalmente brilhantes ou bastante ricas. Ou os dois.

“O que brilha no meio dessa coleção é a resiliência dessas mulheres no que parece ser dificuldades insuperáveis: sua coragem, seu estoicismo, sua esperteza, seu charme e sua generosidade. O amor escrito aqui vem em muitas formas, tolerante, iludido, ambíguo, ambicioso, egoísta, puro e louco – mas amor o é, e esse é um legado para se estimar.”

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Eu não sabia o que esperar de Cartas de Amor de Mulheres Notáveis, mas dentre as coisas que encontrei, certamente não estavam romantismo, desejo e poesia. O amor romântico que tantos escritores homens atribuem a heroínas femininas vem mesmo é dos homens. Algumas das cartas são muito diretas e sérias, com questões sobre a vida e decisões práticas que precisam ser tomadas. São correspondências em diferentes fases de romances: do cortejar ao casamento, incluindo também pequenos casos e términos.

Vinte e oito mulheres fazem parte da coleção: Ana Bolena, Rainha Victoria, Imperatriz Josefina, Emily Dickinson e Rosa de Luxemburgo são alguns dos nomes mais famosos. Essa também é uma chance de conhecer histórias maravilhosas sobre escritoras e pensadoras que nunca tiveram a chance de brilhar. Acredito, porém, que seria interessante ter uma seleção mais diversa e multicultural, já que a grande maioria delas são europeias.

Algumas cartas são bastante difíceis de entender, dada a forma rebuscada da escrita de séculos atrás. Além disso, como cartas são escritas num momento específico e direcionadas para um destinatário privado, muitas vezes é difícil compreender o contexto do que está sendo dito, até porque não temos acesso à carta que elas estão respondendo.

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Sem dúvida, minha parte favorita do livro está nas pequenas introduções que contam as histórias desta coleção de grandes mulheres. Ao terminar cada trecho de história e sua respectiva carta, eu precisava correr para a internet para saber mais sobre aquelas pessoas maravilhosas. Nunca tinha me interessado, até então, por Catarina de Aragão, a esposa espanhola de quem Henrique VIII desejou tanto se divorciar que fundou uma nova igreja. Nunca tinha ouvido falar de Nell Gwyn, a divertida amante do rei Charles II, no século 17, ou da fascinante Madame Roland, decapitada durante a Revolução Francesa porque desejava ser uma mulher educada.

Entre tantas histórias maravilhosas, que possivelmente podem se tornar pauta para a nossa série Grandes Viajantes, minha carta favorita foi a de George Sand, o pseudônimo usado por Amandine Dupin, uma escritora francesa de sucesso e que viveu de 1804 a 1876. Sand vivia uma vida de muitas aventuras e era bastante controversa para a época: questionava as leis do casamento, lutava pela educação e direitos das mulheres e ainda se vestia de homem. Sua carta para um amante com quem conviveu pouco tempo em Veneza é ao mesmo tempo reflexiva e irônica. Após discorrer por duas páginas sobre todas as diferenças culturais no romance dos dois, ela finaliza com a seguinte pérola:

“Devemos permanecer assim. Não aprenda minha língua e eu não deverei procurar, na sua, palavras para expressar minhas dúvidas e medos. Eu quero ser ignorante do que você faz com a sua vida e qual o papel que você desempenha junto a seus amigos. Eu nem ao menos quero saber o seu nome. Esconda a sua alma de mim e assim eu eternamente acreditarei em sua beleza”

Caso você leia Cartas de Amor de Mulheres Notáveis, te desafio a terminar e não querer pegar um papel e uma caneta e escrever também, seja para um amor de hoje, do passado ou do futuro, uma carta de amor.

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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 34 anos e atualmente moro na Inglaterra, quando não estou viajando. Já tive casa nos Estados Unidos, Índia, Portugal e Alemanha, e visitei mais de 45 países pelo mundo afora. Além de escrever, sempre invento um hobbie novo: aquarela, costura, yoga... Siga minhas viagens em @afluiza no Instagram.

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Um comentário sobre o texto “As cartas de amor de grandes mulheres

  1. Luiza gosto muito de escrever cartas, principalmente de viagens e amor! Como faço para participar do grupo? Moro em Recife-PE-Brasil.

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