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Atlas: Argentina

A história e a vida de Evita Péron

Ela está nas bancas de jornais, nos muros, nos postes, nos museus e nos prédios de Buenos Aires. Por todos os lados que você olhe, uma imagem, foto ou o nome de Eva Perón vão te encarar. Num país acostumado a idolatrar pessoas, Evita está na prateleira de cima do panteão, numa posição de muito mais destaque que Maradona ou o Papa Francisco.

E a adoração poderia ter sido ainda mais, digamos, extravagante. Não tivesse sido derrubado do poder após a morte da esposa, o presidente (e marido de Evita) Juan Domingo Perón teria construído um monumento faraônico para receber o corpo dela.

Foi o Monumento al Descamisado, que, segundo o jornal La Nación, deveria ser “mais alto que a Basílica de São Pedro, uma vez e meia maior que a Estátua da Liberdade e teria três vezes o tamanho do Cristo Redentor e a dimensão da pirâmede de Keops”. Em resumo, uma mistura  do Colosso de Rodes, uma das sete maravilhas do mundo antigo, com o Taj Mahal, uma das sete maravilhas do mundo moderno.

monumento para Evita

Recorte de jornal mostra Monumento para Evita

Depois de muita discussão sobre o melhor lugar para receber o mausoléu – alguns defendiam que deveria ser na Plaza de Mayo, outros no cruzamento da  Avenida 9 de Julho com a Avenida de Mayo – foi escolhido um terreno no bairro Palermo. As gigantescas estruturas que suportariam a estátua já estavam construídas quando um golpe militar tirou Juan Domingo Perón do poder, impedindo a conclusão da obra.

Como os militares não queriam conviver com a lenda de Evita, o corpo embalsamado dela, até então insepulto e a espera do grande mausoléu, foi sequestrado. Passou alguns anos escondido nos porões de generais, mas por fim foi transportado secretamente para a Itália e sepultado num túmulo com nome falso. Evita finalmente descansou.

Por pouco tempo, é claro, afinal o povo não ficou de boas com o sequestro. “Onde está o corpo de Evita?”, indagavam pichações que surgiam na calada da noite.

Na década de 70, com a volta de Juan Domingo Perón ao poder, o corpo de Evita fez as malas e pegou a estrada de volta para casa. Passou um tempo numa sala da Quinta de Olivos, moradia oficial dos presidentes argentinos. Depois que o próprio Perón também bateu as botas, Evita foi finalmente sepultada onde está hoje: no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires. 

O mausoléu simples, da família Duarte, dificilmente chamaria atenção, não fosse a grande quantidade de flores e pessoas que estão sempre por ali. E, claro, não fosse também uma frase escrita numa placa e erroneamente atribuída a Evita: “Eu voltarei e serei milhões”. Ela pode até não ter dito isso. Mas virou milhões.

Veja também: Visita ao Cemitério da Recoleta

Túmulo da Evita Péron, Buenos Aires

Mas afinal de contas, quem foi Evita?

Ela nasceu Eva Maria Ibarguren, sem direito ao sobrenome Duarte, do pai, que tinha outra família. A condição de filha ilegítima marcou a personalidade de Eva. Desde cedo, ela jurou que seria famosa. Uma atriz de cinema. Para isso, foi para Buenos Aires, onde viveu com o irmão e passou alguns anos no mais completo anonimato.

O começo não foi fácil – há quem diga que ela não tinha qualquer talento ou vocação artística. Mas não faltava força de vontade. Taxada como brega, pobre e caipira, ela não desistiu. E teve uma carreira meteórica – do dia em que se tornou famosa até o dia de sua morte, aos 33 anos, foram necessários apenas 7 anos. Período que a transformou naquele mito descrito acima, capaz de arrastar milhões de argentinos ao seu funeral.

Evita Peron Foto

Para isso, também foi fundamental o casamento com Juan Domingo Perón, na época vice-presidente do país e ministro do trabalho.”Só me casarei com um príncipe ou um presidente”, dizia Evita quando jovem. Promessa que ela cumpriu.

Quando Perón foi derrubado do cargo e preso por militares pela primeira vez, na década de 40, um movimento popular passou a exigir a volta do líder. Para isso, contribuiu a política trabalhista que Perón tinha adotado. E, segundo algumas versões, os discursos de Evita.

Eva e Perón

Eva e Perón discursam na Praça de Maio (Foto: Domínio Público, autor desconhecido)

Com a pressão popular, Perón foi solto. Os militares tinham criado um líder: na eleição seguinte ele foi eleito para a presidência. Presidente e primeira-dama passaram a ser adorados pelo povo, muito por conta das políticas sociais e trabalhistas adotadas pelo governo Perón. Foi nessa época que os argentinos ganharam direito ao 13º salário, folgas semanais e uma jornada máxima de trabalho foi definida.

Discurso de Evita Perón

Evita discursa para mulheres (Foto: Domínio Público, autor desconhecido)

Ao mesmo tempo, Evita encabeçava uma luta pelo direito ao voto feminino, conquistada a tempo da eleição seguinte, mas não sem muita resistência dentro do próprio governo.  Na candidatura de reeleição de Perón, pela primeira vez mulheres puderam votar ou se candidatar a um cargo eletivo. E o povo pediu que Evita ocupasse o cargo de vice-presidenta.

Milhões de argentinos lotaram o centro de Buenos Aires para ouvir um discurso de Evita e do presidente. Ali, exigiram que Evita fosse parte da chapa – a multidão queria que ela assumisse a candidatura ali, na frente do povo. A multidão só se dispersou quando Evita pediu tempo para poder anunciar sua decisão ao país, fala que foi encarada como um sim.

Só que Evita estava com um câncer de útero terminal, doença que ela escolheu não se tratar e que a mataria em meses. Dias depois do discurso, Evita recusou a candidatura num programa de rádio.

Morta e quase canonizada, Evita não conseguiu evitar que Perón fosse derrubado do poder pela segunda vez. Mas influenciou sua volta: quando a ditadura caiu, ele foi eleito para um terceiro mandato. Perón se candidatou numa chapa que tinha sua terceira esposa, Isabel Perón, como vice-presidente. A morte de Perón levou Isabel – apelidada de Isabelita – ao poder.

Veja também: Uma visita à Casa Rosada

morte de Evita

É impossível pensar na Argentina sem pensar na Evita e no peronismo. Ela e o marido são até hoje as duas figuras políticas mais importantes do país, dando nome a salas, museus e prédios oficiais.  Mais do que isso: o Partido Justicialista, também chamado de peronista, é até hoje o maior partido da Argentina e mantém a tradição de casais fortes, com Cristina e Nelson Christner.

Nem tudo que se pode escrever sobre Evita são flores. Segundo diversos historiadores, junto com o marido, ela foi responsável por ajudar na fuga de vários criminosos de guerra nazistas para a Argentina. Ela ajudou a perseguir militantes de esquerda e colaborou na expulsão de sindicalistas comunistas. Também apoiou governos ditatoriais, como o de Francisco Franco.

Vista de Buenos Aires

É fácil entender Perón, até porque o Brasil tem em Getúlio Vargas uma figura semelhante. Complicado mesmo é entender a Evita. Em alguns momentos, Evita foi representada e tratada de forma semelhante com o que é usado com Nossa Senhora, pelos católicos, semelhanças que chegaram a irritar a Igreja, mas que devem ter contribuído para que o Congresso Nacional da Argentina declarasse que Evita era a chefe espiritual do país.

E o que isso tudo importa para o turista que visita Buenos Aires? Tudo. Não é preciso gostar, odiar e nem mesmo ter uma opinião formada sobre o casal. Não é preciso entender o fenômeno Evita. Mesmo assim, Evita vai te encarar enquanto você viaja pela Argentina. De cada prédio, muro, poste ou banca de jornal. Ela estará lá, aos milhões.

Veja também: História e luta das mães da Praça de Maio


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Rafael

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

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8 comentários sobre o texto “A história e a vida de Evita Péron

  1. meu nome e Eva mas gosto de que me chame de Evita deis da primeira vez que me chamaram assim eu ja gostei mas nao sabia o pq entao fui pesquisa entrei no seu site e amei o muito bem resumido e bem fácil de entender vc esta de parabéns

  2. Tua postagem é antiga, porém é perfeita. Estou com a minha filha de 15 anos em Buenos Aires e ao vermos algumas homenagens à Evita, ela me perguntou: quem foi Evita? E confesso que o teu texto, com uma linguagem jovem e objetiva, foi o mais perfeito pra que ela entendesse tudo acerca de Eva e Peròn. Grande abraço e parabéns!

  3. Ai ai Rafa, você escreve muuuuito bem, se destaca. Parabéns pelos ótimos posts, leio todos. Sou fã.

    Obs: nunca vou esquecer o post de saudades da Índia, o do tuk tuk.

    😉

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