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Atlas: Hong Kong, Macau, Shenzhen, China

120 milhões de habitantes: a cidade sem fim que está nascendo na China

Do alto do teleférico que leva ao Buda Gigante, em Hong Kong, turistas avistam também outra construção, uma ainda mais impressionante. É uma ponte gigantesca, que cruza o mar e alcança uma pequena ilha artificial, onde a estrutura desaparece. “Mas aonde aquilo vai dar?”, foi a pergunta feita de imediato. Eu só descobri a resposta dias depois, já em casa, ao pesquisar o assunto: aquela ilha artificial é, na realidade, o começo de um túnel submarino, que junto com a ponte forma uma ligação de 55 quilômetros entre Hong Kong, Macau e Zhuhai.

Finalizado em 2017, com custo de 15 bilhões de dólares, esse complexo de pontes e túneis é o maior do planeta a cruzar um oceano. Quatro vezes maior que a ponte Rio-Niterói; 20 vezes mais extenso que a icônica Golden Gate, em São Francisco. A ponte já está finalizada e testemunhou, no final de 2017, um show de fogos para comemorar o feito, mas será aberta para o trânsito de veículos entre maio e junho de 2018.

A partir desse momento a distância entre três das principais cidades do Delta do Rio das Pérolas será contada em minutos ao invés de horas, mas o simbolismo da construção vai além de seus efeitos práticos mais imediatos. É que a gigantesca estrutura é só a mais importante das centenas de ligações urbanas que estão criando a maior metrópole do planeta. Atualmente 63 milhões de pessoas vivem no Delta do Rio das Pérolas, um número que no começo do século superou a quantidade de habitantes da Grande Tóquio, a maior metrópole mundial.

delta do rio das pérolas

Delta do Rio das Pérolas (Wikimedia Commons)

Até 2050, a expectativa é que essa área seja casa para 120 milhões de pessoas, a primeira Mega Cidade da História. Ou, como diz um relatório da ONU apresentado no Fórum Mundial Urbano de 2010, realizado no Rio de Janeiro, essa área do sul da China está vendo nascer a primeira “cidade sem fim”, uma megalópole que será 26 vezes maior do que a Grande Londres e terá mais habitantes que o esperado para países inteiros na mesma época, como Japão e Rússia. Tudo isso numa área que corresponde a menos de 2% do território da China.

O crescimento está longe de ser desordenado – é política de governo. Começou ainda nos anos 1980, quando lugares como Shenzhen eram apenas vilas de pescadores. Se naquela época essa cidade tinha só 58 mil habitantes, quase nada em comparação com a vizinha Hong Kong, menos de quatro décadas depois há pelo menos 13 milhões de pessoas vivendo ali.

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Shenzhen (Foto:Shutterstock.com)

Crescimento monstruoso e que veio após a criação da Zona Econômica Especial, principal capítulo da abertura chinesa, pensada pelo governo de Deng Xiaoping, sucessor de Mao Tsé-Tung no comando do Partido Comunista Chinês e considerado o pai do “socialismo de mercado”. Em nenhum lugar da China as políticas de Deng Xiaoping foram mais sentidas que nessa parte, onde o líder comunista, cujo governo também foi responsável pelo Massacre da Paz Celestial, em Pequim, é homenageado em parques, praças e prédios públicos.

A criação das ZEEs, entre elas Shenzhen, provocou uma migração para cidades litorâneas, onde as regras eram mais flexíveis, salários maiores eram garantidos e a presença de empresas estrangeiras era estimulada. “Desde o início, havia opiniões diferentes sobre o estabelecimento de zonas econômicas especiais, temendo que isso significasse a prática do capitalismo. Os feitos que alcançamos aqui responderam aos que têm preocupações sobre isso: a zona especial é socialista, e não capitalista por natureza”, afirmou Deng Xiaoping, num célebre discurso realizado em Shenzhen, em 1992.

O resultado foi a rápida urbanização de um país que até então vivia no campo, contribuindo para o aumento de estatísticas mundiais. “Atualmente metade da população do mundo vive em cidades, mas, em 2050, pelo menos 70% das pessoas do planeta estarão em centros urbanos”, disse Anna Tibaijuka, diretora do UN-Habitat, na época do Fórum Mundial Urbano do Rio de Janeiro.

Nesse contexto, a explosão urbana de Shenzhen é espetacular, mas não é exceção – e muito menos no Delta do Rio das Pérolas. Aumento populacional semelhante foi registrado em outras cidades da região. No mesmo período, as populações de Hong Kong e Macau, antigas colônias de Inglaterra e Portugal, dobraram; Guangzhou foi de 1,9 para 13 milhões de habitantes. A urbanização ocorrida no Delta do Rio das Pérolas é a maior e mais rápida da História. Pra ter uma ideia mais clara disso, veja este artigo do The Gaurdian (em inglês), que compara fotos de cada uma das cidades, no começo dos anos 1980 e atualmente.

mega cidade china

Guangzhou (Foto: Shutterstock.com)

“O Cantão (estado do sul da China onde está o Delta do Rio das Pérolas) deve se esforçar para alcançar os ditos ‘quatro pequenos dragões’ – Hong Kong, Taiwan, Cingapura e Coréia do Sul – na Ásia em um período de 20 anos”, afirmou Deng Xiaoping, também durante as palestras de Shenzhen, no começo da década de 1990. Hoje, a economia do Cantão movimenta mais de um trilhão de dólares anualmente – a única região metropolitana da Ásia cujo PIB é maior é Tóquio, mas convém lembrar que Hong Kong e Macau, regiões autônomas, ainda seguem de fora dessa conta.

Em 2008 veio o passo seguinte, quando o governo chinês lançou um plano que pretende unir numa única megalópole nove cidades do Delta do Rio das Pérolas: Shenzhen, Dongguan, Huizhou, Zhuhai, Zhongshan, Jiangmen, Guangzhou, Foshan e Zhaoqing. Com investimento de dois trilhões de yuans (um trilhão e 49 bilhões de reais) espalhados ao longo de décadas, o projeto envolve mais de uma centena de obras de infraestrutura que pretendem unificar o transporte, aproximando os centros de cada uma das cidades, e também serviços básicos como saúde e educação – o morador de uma cidade dessa megalópole poderá ir ao médico em outro endereço, ao contrário do que ocorre atualmente na China.

E o futuro de Hong Kong?

Hong Kong, devolvida pelo Reino Unido à China em 1997, e Macau, que fez o mesmo procedimento em 1999, não estão no projeto oficial, mas na prática já fazem parte da cidade sem fim do Delta do Rio das Pérolas. HK foi a última colônia relevante do Reino Unido, que governou a cidade por 156 anos, após a Guerra do Ópio, quando os britânicos, que importavam uma grande quantidade de chá da China, tentaram balancear a relação comercial vendendo a droga para os chineses.

O resultado? Milhões de viciados e o protesto do governo chinês, que proibiu a entrada da droga no país. Os britânicos passaram então a contrabandear ópio; os chineses apreenderam parte dele. Foi aí que o Reino Unido, então maior potência do mundo e um império que controlava um quarto da Terra, enviou seus exércitos. A vitória foi rápida, arrasadora e humilhante.

Os canhões britânicos foram os argumentos diplomáticos que levaram ao Tratado de Nanquim, um dos mais desiguais da história – e olha que não faltam exemplos do tipo. A China foi obrigada a ceder Hong Kong, um ponto estratégico na Ásia, indefinidamente para os colonizadores. Teve também que pagar pela guerra e abrir seus portos para os britânicos. Num capítulo seguinte, na Segunda Guerra do Ópio, o Reino Unido obrigou a China a tornar legal a entrada da droga no país. Isso só mudou em meados do século 20.

No começo dos anos 1990, a China dava passos largos para se tornar a segunda maior potência do mundo. A devolução de HK, acordada anos antes entre Margaret Thatcher e Deng Xiaoping, era irreversível. Pelo tratado entre chineses e as antigas potências europeias, HK e Macau têm autonomia garantida por cinquenta anos, sendo consideradas Regiões Autônomas da China.

hong Kong china

Hong Kong

As duas cidades têm suas próprias moedas, fazem controle de fronteiras e garantiram assim um nível de liberdade de imprensa, opinião e até político e econômico que não existe no restante da China, onde a internet é censurada e opositores são perseguidos e presos. “Um país, dois sistemas”, é o lema do acordo que permite que Hong Kong, capitalista, faça parte, mesmo que de forma autônoma, de um país que há décadas é comandado pelo Partido Comunista.

Os anos de colonização fizeram com que a área crescesse de forma diferente. No final do século 20, nenhum canto do mundo tinha mais arranha-céus que HK, que era um dos maiores centros bancários do planeta e tinha mais consulados e representações estrangeiras que Nova York. Local de encontro entre oriente e ocidente, mistura cantonesa, chinesa, britânica e com toques portugueses da vizinha Macau: Hong Kong chegou ao século 21 como o umbigo do mundo.

Já Macau cresceu e apareceu como o centro do jogo da Ásia, algo que começou ainda no século 19, quando os portugueses liberaram a jogatina no território, uma forma de arrecadar mais impostos. No começo do século 21, já de volta ao comando chinês, o dinheiro movimentado em Macau com cassinos e outros jogos de azar superou o de sua irmã norte-americana. Macau só não é a Las Vegas do Oriente porque Las Vegas é a Macau do Ocidente.

macau china

Macau

2047 é logo ali

A grande pergunta, feita desde que o Príncipe Charles devolveu oficialmente a antiga colônia para a China, num dia de muita comemoração por parte dos chineses, é o que ocorrerá com Hong Kong em 2047. As teorias são as mais diversas possíveis. Há quem garanta que os hongkongers jamais aceitarão a perda de suas liberdades, enquanto outros defendem que a luta pela independência comece já ou que um referendo seja feito ao final do tratado que criou a Região Autônoma. E parece óbvio, mas não custa lembrar que grande parte da população de Hong Kong tem origem chinesa, então não são poucos os que veem com bons olhos a volta total da cidade ao país.

No Quora, um site de perguntas e respostas organizado pelos próprios usuários, essa questão é polêmica. Glenn Luk, um ocidental que viveu por três anos em Hong Kong, baseou sua opinião num cenário em que a China continue a crescer, ao ponto de ultrapassar a economia dos Estados Unidos. “Nesse cenário, Hong Kong quase certamente será integrada à República Popular da China. A cidade perderá seu status de Região Autônoma e provavelmente será combinada com Shenzhen, Guangzhou, Zhongshan, Zhuhai e Macau em uma enorme megalópole que abrangerá todo o Delta do Rio das Pérolas, com o mesmo sistema legal que o resto do país. Em algum momento, em vez de ‘Hong Kong’, pessoas de fora começarão a falar mais como os chineses – ou seja, Xianggang ou a megalópole “Guang-Shen-Gang-Ao”.

Stephen Thompson, um britânico que viveu na China por 10 anos, escreveu que “o melhor cenário é que (a China) se torne mais tolerante com culturas divergentes e permita que Hong Kong mantenha seu sistema único e separado sob o guarda-chuva de um ‘Um País, Dois Sistemas’ indefinidamente estendido”. Já Joseph Wang, que é de Hong Kong, opinou em direção parecida: “A Declaração Conjunta Sino-Britânica expira em 2047, mas a Lei Básica de Hong Kong não tem prazo de validade, e meu palpite é que as pessoas apenas a manterão após 2047, porque não haverá bons motivos para mudar nada”, escreveu.

Para muitos especialistas, porém, Pequim jamais aceitará sequer discutir esse assunto e a tendência é que, ao final do período, Hong Kong e Macau já estejam totalmente reinseridas na China – e não é difícil perceber que a formação da mega cidade, totalmente integrada, é um facilitador para que isso seja possível. “Eu acho que o plano de Xi Jinping (presidente da China) não é que o sul do país comece a se parecer mais com Hong Kong, mas que Hong Kong comece a se parecer mais com o sul da China”, disse Chris Patten, último governador colonial de Hong Kong, numa entrevista recente para o The Guardian.

No ano passado, em Hong Kong, Xi Jinping aumentou os temores nesse sentido e deu um aviso para os que organizam protestos e pedem por democracia – apesar do que previa o tratado de devolução de Hong Kong, as eleições na região seguem indiretas e realizadas por um conselho controlado por Pequim. “Qualquer tentativa de colocar em risco a soberania e a segurança da China, ou que desafiem o poder do governo central, ou qualquer tentativa de usar Hong Kong para realizar atividades de infiltração e sabotagem contra o continente serão consideradas um ato que ultrapassa a linha vermelha e é absolutamente inadmissível”, disse o presidente chinês.

A visita do governante comemorava os 20 anos da saída do Reino Unido de Hong Kong. Meses depois, em fevereiro de 2018, Xi Jinping aprovou uma reforma constitucional que permite mandatos por tempo indefinido, algo que não ocorria há décadas na China. O atual presidente chinês é tido como o mais poderoso desde Mao Tsé-Tung.

Se o sistema político e econômico que existirá nas antigas colônias do Delta do Rio das Pérolas é uma incógnita, uma coisa é certa: Shenzhen não para de crescer. Os arranha-céus da maior cidade do Cantão se aproximam cada vez mais da fronteira com Hong Kong. 2047 pode até ser uma dúvida, mas 2050 é uma realidade. A questão é saber se a primeira cidade sem fim será parte comunista, parte capitalista (e com uma fronteira no meio) ou se será um só aglomerado urbano, sem muitas distinções entre suas partes. Ou ainda algo diferente – afinal a própria China e o restante do mundo podem mudar em 30 anos.


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Rafael

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

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15 comentários sobre o texto “120 milhões de habitantes: a cidade sem fim que está nascendo na China

  1. Muito bem escrito e ótima abordagem, parabéns pela postagem… Amo viajar , mas pelo que percebi ao me deparar com chineses (sexo Masculino) são bastante machistas, os venho observado em viagens pela Europa , tratam muito mal as mulheres , além de parecerem mto toscos, em geral , não generalizando mas… , daí pensei que para uma viajante mulher e sozinha não será uma boa viagem a esse imenso e interessante país, digo ,uma viagem por conta e sozinha não se encaixa, infelizmente .Talvez uma excursão em grupo…?! De certo para uma mulher , sagitariana, de meia idade, que ama viajar por conta e solitária( adoro!) , penso que EU deveria ter nascido Homem… rsrsrs…

    1. Oi, Rosely. Tem uns blogs de mulheres brasileiras que moram na China, tipo o https://nomundodapaula.com/

      E tem também uma repórter da Folha que mora lá, chama Luiza Duarte (procura ela no Instagram!)

      Por que você não troca uma ideia com elas? 🙂

      E veja nossos textos sobre mulheres que viajam sozinhas pelo mundo, a Luiza e a Natalia não foram pra China, mas têm muito a dizer sobre isso. 🙂

  2. Top artigo, super bem abordado geografia, política, demografia, história … Já compartilhei nos grupos chineses que participo

  3. Excelente artigo Rafael, turismo, economia, demografia e política, tudo ao mesmo tempo e bem dosado, uma realidade de suma importância na qual em até agora nunca havia ouvido sequer falar. Sem dúvida será um lugar fantástico, um excelente laboratório para fazermos turismo!

  4. Sensacional seu artigo parabéns. Realmente a situação nesta área é uma incógnita e acredito que mesmo 2047 sendo logo ali muita coisa ainda vá mudar nas relações geopolíticas, “coisas” estas influenciadas pela globalização, tecnologia, pois até lá Xi Jinping não estará mais vivo, novas guerras e novas “pazes” surgirão e a maneira que a população encara as fronteiras está mudando, mas teremos que aguardar as cenas dos próximos capítulos porque infelizmente não temos spoilers confiáveis.

    1. Fico feliz que tenha gostado, William. Pois é, muita coisa pode mudar até lá. Vamos ver o que ocorre.

      Abraço e obrigado pelo comentário.

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