O ressurgimento dos mercados e a importância dos produtos locais

A globalização é um fenômeno relativamente novo, mas que influencia nos mínimos detalhes nossa sociedade. Na gastronomia, assim como nas artes, o intercâmbio entre culturas tem uma diversidade e potencialidade pouco exploradas. Em maio de 2017, no 3º Fórum de Turismo Gastronômico da Organização Mundial do Turismo (OMT), duas conclusões me chamaram a atenção, por demonstrarem esse momento de retorno à valorização do local, da tradição e de uma cultura alimentar.

A primeira afirmação diz que “a globalização pode e deve coexistir com a defesa da cozinha e dos produtos locais.” A outra defende que a “gastronomia deveria ser incorporada como uma disciplina de estudos na escola fundamental e precisa ser reconhecida e protegida como parte da herança cultural dos povos.”

Essa revalorização do regional e do que é produzido localmente na gastronomia é também uma reação do mundo inteiro ao grande impacto negativo – climático, de produção de resíduos e social – de uma cadeia de alimentação em massa e industrializada. A volta aos mercados é uma solução viável para a retomada de relações econômicas, ambientais e sociais mais justas na cadeia de produção de alimentos das grandes cidades no mundo inteiro.

Mercado em Paris

Mercado em Paris (Foto: Alexandra Duarte)

A tomada de consciência desse contexto mudou a minha percepção como viajante. Antes, comer bem em viagens ficava em segundo plano. Mesmo adorando comer, descobrir sabores e colecionar memórias e experiências gastronômicas, muitas vezes eu deixava isso de lado por questões de custo. Ano passado tive a oportunidade de visitar lugares muito distintos entre si na Europa e já não conseguiria mais viver de comida de supermercado. Nesse momento, defini um foco para a viagem e em todos destinos escolhidos incluí ao menos um mercado local na lista.

O resultado foi uma experiência antropológica incrível, cheia de cores, sabores e muitas descobertas. E a melhor notícia é que é uma escolha de baixo custo e que contribui para um impacto mais positivo enquanto turista. Inclusive, em termos de gastronomia, a grande diferença entre a Europa e o Brasil, no momento, é mesmo a prática do preço justo. “É a tendência mundial” foi a resposta que o Eduardo Maya, professor de gastronomia e idealizador do Projeto Aproxima, me deu em relação a essa prática.

E ele explica a razão: “Os preços praticados no Brasil estão fora de proporção completamente. Principalmente hoje, já que as pessoas estão voltando a cozinhar e têm dimensão do custo. Elas têm noção do quanto custam as coisas. Os grandes chefs franceses foram os primeiros a se dar conta disso. E depois todos os seguiram. Nós temos que criar acesso à gastronomia e não fechar esse acesso.”

Nesse sentido, valorizar os mercados e levar público, turistas e os chefs de cozinha para atuarem neles é o caminho, a exemplo do que foi feito no Mercado de Pinheiros, em São Paulo.

Veja também: Seria a gastronomia a grande experiência do século 21?

O que a Itália me ensinou sobre uma vida sustentável

Slow travel em Cinque Terre e a pressa como inimiga das viagens agradáveis

Uma experiência de cheiros, cores e sabores incríveis, da Suécia a Portugal

A valorização da cozinha regional transformou em destinos gastronômicos países como a Suécia e a Dinamarca. Não por acaso, mas justamente por terem estabelecido uma política de valorização dos mercados, revitalizando antigos e criando novos, e, principalmente, um forte incentivo aos produtores locais. Foi através de uma ação conjunta do governo e da sociedade que a gastronomia nórdica se transformou em uma das apreciadas e sustentáveis na atualidade.

A pesquisadora Lina Gordon, do Stockholm Resilience Centre (SRC), na conferência anual do centro de pesquisas, em agosto de 2017, revelou que “Na Suécia, o crescimento do interesse público na gastronomia, como experiência cultural, produziu uma nova geração de chefes que abraçaram e desenvolveram a cozinha nórdica contemporânea. A maior parte deles trabalha com produtores locais, estabelecendo novos laços entre a cidade e comunidades rurais. Tais conexões que formaram esse panorama gastronômico.” Ou seja, mesmo a considerada alta gastronomia tem se reinventado a partir de uma volta aos mercados e ao campo.

comida sueca

Pão doce sueco e chocolate quente (Foto: Alexandra Duarte)

Tanto na Dinamarca como na Suécia é fácil encontrar frutos do mar, peixes frescos e uma confeitaria incrível. Além disso, os dois países têm bastante consciência da dificuldade que é produzir o próprio alimento e das implicações que a importação acarreta. As lojas de frutas e legumes têm sempre discriminada a origem do produto e gostam de destacar o que é possível de se produzir localmente. Embora muitos vegetais e frutas sejam importados de países mediterrâneos, não encontramos frutas brasileiras ou argentinas. Diminuir o impacto ecológico da cadeia da alimentação é uma prioridade, por isso o que não se produz vem de países que geograficamente sejam os mais próximos.

No que diz respeito às refeições oferecidas, são porções fartas que, além dos pratos típicos, têm uma variedade de opções de outras cozinhas. Representadas pelos imigrantes, encontramos comidas árabes, iraniana, japonesa, chinesa e italiana, para citar algumas. Desfrutar de uma refeição no mercado, além de ser delicioso, é mais barato. Mesmo assim, é preciso ficar atento ao fenômeno do “raio gourmetizador”. A exemplo do que acontece no Brasil, o preço das refeições pode variar até 50% dentro de um mesmo mercado. O ideal é ter disposição para conversar com os donos, observar os pratos que estão sendo servidos e, sempre que possível, experimentar antes de se decidir. Visitando os mercados de Torvehallerne, em Copenhague, e o Malmö Saluhall, na Suécia, consegui comer o que era típico gastando em torno de 10 a 12 euros.

mercados de rua
                                                 Malmö Saluhall (Foto: Karina Szuter / karinaszuter.com)

Em Londres, a política de valorização dos produtos locais data de 1998, ano que marca o renascimento do Bourough Market, um mercado de rua que tem sua origem na Idade Média. O espaço sofreu com o crescimento dos supermercados a partir da década de 1970. No início dos anos 1990, estava desvalorizado e muitos dos expositores não conseguiam se sustentar. Foi quando ativistas e gastrônomos se reuniram para criar, em 1998, o Food Lover’s Day (O dia dos amantes da comida), que reuniu os 50 melhores produtores artesanais do país. O sucesso foi tanto que em menos de um mês o mercado voltou a funcionar diariamente, repleto de produtores locais vendendo seus produtos diretamente para os consumidores.

O Borough é, sem dúvida, um dos mercados mais incríveis que já visitei. É onde muitos londrinos vão para comprar queijo, vegetais frescos, tortas, pães e também para almoçar durante a semana. Há variedade de opções de comida de rua com refeições completas, de muita qualidade, com preços acessíveis e bem no centro de Londres – um lugar imperdível para se comer na cidade!

Além dos pratos típicos ingleses como, o fish and chips e as tradicionais tortas recheadas e servidas com purê de batatas ou ervilha, a presença de imigrantes oferece opções variadas e surpreendentes de culinárias como a egípcia, a vietnamita e a chinesa. Passear pelo Borough é sentir a atmosfera do centro de Londres e respirar a história e, ao mesmo tempo, aproveitar de uma deliciosa refeição que pode custar entre 6 e 12 Libras.

Mercado de Londres

Bourough Market, em Londres

Já na Itália e na França, basta literalmente andar pela rua. Feiras a céu aberto acontecem todos os dias nos grandes centros urbanos como Milão, Torino e Paris. Em Paris, há também pelo menos um mercado municipal por arrondissement e vale sempre dar uma espiada neles. A dica é pesquisar antes de viajar e conferir onde tem mercado de rua no dia que você vai estar lá. Eu comprava pão, queijo e vegetais e montava lanches para carregar comigo ao longo do dia. Mas, se faltar ânimo, há sempre uma pizza ou uma focaccia prontas para consumo na Itália, ao passo que na França crepes, quiches e queijos em porções menores são excelentes opções. A média de preços varia bastante. Na França, queijos podem ser muito baratos; na Itália vi os preços variarem muito conforme o bairro e região da cidade e, obviamente, o apelo turístico do lugar.

Feira de rua Milão

Feira de rua em Milão (Foto: Alexandra Duarte)

E Portugal tem um dos melhores custos/benefícios para se comer em toda Europa. O país tem investido milhões no turismo e dado especial atenção aos mercados. Porém, a exemplo do mercado “gourmet” no Brasil, por lá tem acontecido um movimento parecido. É preciso mais atenção em relação aos preços e, principalmente, em relação aos produtos e produtores que de fato valorizam o local. Vale a pena conhecer o Mercado da Ribeira, mas eu destacaria outras feiras que tem acontecido no Centro Cultural de Belém (CCB) e também no Mercado de Santa Clara, ambos em Lisboa. Já em Porto, vale conhecer o Mercado do Bom Sucesso, que, apesar de parecer um shopping, guarda deliciosas refeições completas por cerca de 12 Euros.

mercado portugal

Bacalhau no Mercado do Bom Sucesso (Foto: Alexandra Duarte)

Claro, é preciso destacar que a Europa e, especialmente, a Inglaterra e os países nórdicos citados aqui, possuem uma realidade muito diferente da brasileira. Talvez, justamente, por isso, seja interessante tomá-los como exemplo e perceber que investir em mercados não seria tão difícil ou oneroso para o Brasil. O básico já está feito, já temos muitos estabelecimentos, uma gastronomia consagrada, produtos tradicionais de excelente qualidade e de uma variedade incrível.

Minas Gerais, uma porta para o turismo rural no Brasil

Minas reúne o aconchego das refeições italianas e possui pratos tradicionais que exigem um preparo tão minucioso quanto a cozinha francesa. É um estado de rica tradição e com grande potencial turístico ainda por ser explorado. Na capital, Belo Horizonte, visitar o Mercado Central, o Mercado Municipal do Cruzeiro e eventos como as feirinhas Aproxima é certeza do mais puro deleite.

feira aproxima bh

Feira Aproxima, em BH (Foto: Divulgação)

O jornalista gastronômico Eduardo Tristão Girão é um desses profissionais militantes que desbravam Minas em busca de experiências. Ele ressaltou a importância de que, nos próximos anos, tanto o governo quanto instituições privadas se mobilizem para ajudar a desenvolver o turismo rural e gastronômico do estado. E para que não restem dúvidas de que isso é possível, ele relata uma das mais marcantes experiências de sua trajetória: “A meu ver, existe ‘gastronomia’ em toda parte. Uma experiência num restaurante estrelado europeu pode ser tão interessante quanto uma visita a um humilde produtor de queijo artesanal em Minas Gerais. O olhar é determinante. Uma das experiências mais incríveis da minha carreira como jornalista gastronômico até o momento foi a visita aos produtores de queijo Luciano e Helena Machado, em Medeiros, na região da Serra da Canastra. Fui para fazer entrevista, fotos, provar o queijo no local onde é feito e comprar algumas peças, mas qualquer um pode pegar o telefone e agendar uma visita, exatamente como eu fiz. Quanto de ‘bom’ e de refinamento há numa experiência dessas? Não é pouco, tenho certeza. Quem vai até lá a passeio tem contato direto com pessoas de grande conhecimento, aprende sobre o alimento, ouve histórias, prova um queijo de excelência, compra o que quiser a preços mais baixos e sequer paga pela experiência em si. É uma autêntica experiência gastronômica, é turismo gastronômico, e o que se paga por isso é muito pouco pelo que se recebe. Então, isso me faz pensar sobre essa questão de enxergar a gastronomia como algo elitizado. Não faz sentido. Aqui falo de uma visita a uma queijaria, mas poderia ser um passeio para conhecer os melhores tacacás de rua de Belém, as paneleiras do Espírito Santo ou o icônico fígado com jiló do Mercado Central, em Belo Horizonte.”

O que Girão descreve acima é o que propus ao longo de todo esse texto. É uma viagem que pode acontecer em qualquer lugar do mundo, qualquer cidade. Uma ação de impacto social e que proporciona conhecer de dentro uma comunidade, conversar com as pessoas e apreender mais sobre tradições de um lugar. Mesmo que não se possa ir até o produtor, há sempre um mercado com um tanto de história, cotidiano, cheiros e sabores incríveis. O custo é baixo, o valor de troca e a experiência são únicos.


Compartilhe!



Com o 360meridianos, você encontra as melhores opções para planejar a sua viagem. Confie em quem já tem prática no assunto!

 

Reserve seu hotel com o melhor preço e alto conforto

 


Veja as melhores opções para seguros de viagem

 


Transfira dinheiro para o Brasil e exterior com menos taxas

 


Alugue veículos com praticidade e comodidade

 




Quer 70 páginas de dicas (DE GRAÇA!)
para planejar sua primeira viagem?




Alexandra Duarte

Cozinheira e doceira por vocação, acredito que não há felicidade maior do que sentar à mesa e compartilhar uma refeição com quem amo. Viajar, pesquisar, e escrever são paixões que conjugo sempre com a culinária. Atuo como produtora cultural e jornalista em BH, ao mesmo tempo em que vivo uma transição de carreira. No blog Assim ela já vai conto histórias sobre cozinha, afeto e o desejo por uma vida pautada pelo Slow Living.

  • 360 nas redes
  • Instagram

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

2 comentários sobre o texto “O ressurgimento dos mercados e a importância dos produtos locais

2018. 360meridianos. Todos os direitos reservados. UX/UI design por Amí Comunicação & Design e desenvolvimento por Douglas Mofet.