Tags:
Atlas: México

De personagens infantis a políticos, a história das pinhatas mexicanas

A parede colorida da Piñateria Ramirez serve de moldura para os mais diversos personagens, de princesas da Disney a astros de cinema. Essa pequena empresa familiar é gerenciada por cinco irmãos e fica em Reynosa, cidade mexicana que faz fronteira com o Texas, nos Estados Unidos. “Somos a segunda geração da empresa, que tem 30 anos e foi criada por nossos pais”, me contou Dalton Ávalos Ramírez. Ele e os irmãos produzem semanalmente dezenas de pinhatas, aquelas esculturas que são feitas para serem destruídas em festas de aniversário ou no Natal.

As pinhatas existem em várias partes do mundo, incluindo países na América Central, Ásia, algumas regiões dos Estados Unidos e até no norte e nordeste brasileiros. Mas são mesmo um símbolo do México, tão importantes como os mariachis e a lucha libre. A origem delas é controversa. Em geral, há duas explicações: a primeira vem do costume de criar esculturas na forma de animais, principalmente vacas e búfalos, comum na China há séculos. Tal como ocorre atualmente, a imagem era preenchida com alguma coisa (naquele caso, com sementes) e depois era destruída com bastões, durante uma cerimônia.

Marco Pólo, que fez suas famosas viagens pela Ásia entre os séculos 13 e 14, teria sido o responsável por levar o costume para a Europa, onde as pinhatas ganharam esse nome. Mais tarde, elas chegaram ao Novo Mundo.

Por outro lado, e aí vem uma segunda explicação, quando os espanhóis desembarcaram nas Américas e conquistaram o Império Asteca, em 1521, logo perceberam que alguns dos povos que habitavam o continente já tinham um costume muito parecido. Durante as festividades pelo aniversário de Huitzilopochtli, deus da guerra e principal divindade da capital dos astecas, uma imagem de barro era enchida com pequenos presentes e fixada próxima ao templo. Durante a cerimônia, a imagem era destruída com porretes. Tudo isso ocorria ao longo do equivalente asteca do mês de dezembro, próximo ao solstício de inverno, que marcaria a data de nascimento de Huitzilopochtli.

Quando os religiosos espanhóis chegaram e se depararam com essa semelhança, o uso das pinhatas no processo de evangelização se tornou um passo óbvio. Bastou trocar o deus, afinal o Natal e o nascimento de Huitzilopochtli tinham datas semelhantes. Foi assim que surgiu no México a festividade Las Posadas, celebrada entre 16 e 24 de dezembro e que relembra o período em que Maria e José pediram abrigo, pouco antes do nascimento de Jesus. A cada dia da festa, uma pinhata é aberta.

Veja também: O México é muito mais que Cancún

Ex-votos, a arte de dar graças no México

Um costume de 400 anos

E que explica por que as pinhatas – mesmo que, com o tempo, tenham se tornado um sinônimo para aniversários mexicanos – têm sua origem nas festividades religiosas de dezembro, seja para o deus Huitzilopochtli ou durante o Natal. Neste caso, a pinhata tem o formato de uma estrela de sete pontas, representando a Estrela Guia que levou os Reis Magos até onde estava Jesus, conforme narrado nos evangelhos.

Cada uma das pontas da pinhata natalina representa um dos sete pecados capitais e toda a cerimônia está repleta de simbolismos. As tentações devem ser derrotadas e para isso os participantes acertam a pinhata com um porrete enquanto estão com os olhos vendados, o que reforça a importância da fé. Quando a pinhata (a tentação) é vencida, o prêmio é o que está no interior da escultura, que no caso do Natal costuma ser frutas da temporada, como goiabas ou laranjas. Assim como ocorria nos rituais astecas, as pinhatas natalinas são feitas de argila, um material bem mais pesado – e resistente a porretadas – do que o papel machê das pinhatas de festas de aniversário.

pinhata mexicana

Foto: Yavidaxiu, Wikimedia Commons

Quase todo mexicano tem uma lembrança de infância que envolve uma pinhata. “A corda que a sustentava se rompeu e a pinhata caiu bem na minha cabeça”, me contou aos risos Brenda Molina, jornalista de 33 anos que vive na Cidade do México. “Eu tinha entre seis e sete anos e estava doida para acertá-la. Óbvio que chorei muito, mas por sorte nem chegou a sangrar e logo a festa seguiu como se nada tivesse acontecido”.

A pinhata que acertou Brenda era natalina, a estrela de sete pontas feita de barro em que apenas as pontas são de papel – não foi por acaso que a experiência doeu. A Brenda garante que as pinhatas fazem parte das grandes celebrações mexicanas até hoje. “No Natal e no aniversário é mais comum, principalmente nos de crianças. Nas festas de adultos nem tanto, apesar de que sempre tem alguém que quer relembrar sua infância e acaba incluindo uma pinhata na festa”, diz ela.

Pinhatas México

Foto: Ivan2010, Wikimedia Commons

A afirmação tem sentido. Entre personagens de Frozen, Alice no País das Maravilhas e princesas de contos de fadas, a Piñateria Ramirez também tem obras focadas num público mais adulto. Isso vale para pinhatas com temas sexuais, como os personagens de Cinquenta Tons de Cinza, que podem ser enchidas com camisinhas em vez de balas e doces. Ou para as que são inspiradas em políticos, como o presidente mexicano Enrique Peña Nieto ou até Donald Trump, e que têm um fundo de protesto. 

Foi com o então candidato republicano ao governo dos Estados Unidos que a Piñateria Ramirez ultrapassou os limites de Reynosa e ganhou fama nacional e até no exterior, a ponto de aparecer numa lista do Buzzfedd como uma das melhores lojas de pinhatas do mundo. É que essa Piñateria foi a primeira a satisfazer a vontade de muitas pessoas de, bem, de acertar a cara de Trump, que na época tinha declarado que o México só envia drogas e estupradores para os Estados Unidos.

pinhata mexicana

Pinhatas no Mercado de Coyoacan, Cidade do México 

“Nós criamos essa pinhata como uma forma de protesto contra o discurso de Trump sobre os mexicanos”, explicou Dalton Ávalos Ramírez. “Cada uma custa entre 650 e 800 pesos (entre 120 e 150 reais), dependendo da dificuldade envolvida na sua confecção. Nós fazemos pinhatas sobre o que estiver em alta, mas hoje em dia são muito pedidas as de políticos e artistas”, acrescentou.

Pelo visto a moda pegou. E não só entre mexicanos, já que as pinhatas de Trump logo ultrapassaram a fronteira e passaram a ser comercializadas também por várias lojas dos Estados Unidos, onde custam em torno de 30 dólares. Num show realizado em dezembro de 2016, semanas após a eleição do republicano para a Casa Branca, a banda Guns N’Roses levou uma pinhata para o centro do palco, na Cidade do México, e liberou as porretadas.

Caminhando pelo tradicional Mercado de Coyoacan, que fica próximo à Casa-Museu de Frida Kalho, na capital do país, vi pinhatas de todos os tipos, das infantis às adultas, passando pelas políticas – a de Trump estava lá. As pinhatas podem ser divertimento, protesto, brincadeira de crianças ou uma cerimônia religiosa. Elas estarão presentes em diversas casas mexicanas todo mês de dezembro, como parte das comemorações de Natal durante Las Posadas. A fusão das culturas asteca e europeia (e com um pé na Ásia) acabou criando um dos grandes símbolos do país.

*Imagem destacada: shutterstock.com

Inscreva-se na nossa newsletter

Avalie este post

Compartilhe!







Eu quero

Clique e saiba como.

 




Rafael Sette Câmara

Sou de Belo Horizonte e cursei Comunicação Social na UFMG. Jornalista, trabalhei em alguns dos principais veículos de comunicação do Brasil, como TV Globo e Editora Abril. Sou cofundador do site 360meridianos e aqui escrevo sobre viagem e turismo desde 2011. Pelo 360, organizei o projeto Origens BR, uma expedição por sítios arqueológicos brasileiros e que virou uma série de reportagens, vídeos no YouTube e também no Travel Box Brazil, canal de TV por assinatura. Dentro do projeto Grandes Viajantes, editei obras raras de literatura de viagem, incluindo livros de Machado de Assis, Mário de Andrade e Júlia Lopes de Almeida. Na literatura, você me encontra nas coletâneas "Micros, Uai" e "Micros-Beagá", da Editora Pangeia; "Crônicas da Quarentena", do Clube de Autores; e "Encontros", livro de crônicas do 360meridianos. Em 2023, publiquei meu primeiro romance, a obra "Dos que vão morrer, aos mortos", da Editora Urutau. Além do 360, também sou cofundador do Onde Comer e Beber, focado em gastronomia, e do Movimento BH a Pé, projeto cultural que organiza caminhadas literárias e lúdicas por Belo Horizonte.

  • 360 nas redes
  • Facebook
  • YouTube
  • Instagram
  • Twitter

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

4 comentários sobre o texto “De personagens infantis a políticos, a história das pinhatas mexicanas

  1. Aqui no nordeste tem um costume parecido (ao menos tinha, lembro quando tinha meus 6~9 anos e sei que teve uma no meu aniversário), muitos chamam de “quebra-panela”, mesmo modus operandi, vendados, gira um pouco e depois vai com o porrete tentar quebrar.

  2. Gostei!!!

    Quase todos os dias estou visitando esse blog e lendo os artigos, gosto muito desse blog, sempre tem artigos excelentes e dicas interessantes..

2018. 360meridianos. Todos os direitos reservados. UX/UI design por Amí Comunicação & Design e desenvolvimento por Douglas Mofet.