Rosita Forbes e as mulheres chamadas selvagens

Com o dinheiro que conseguiu com a venda de seu anel de noivado, Rosita Forbes subiu no barco e, mais tarde, no dorso de um cavalo – e assim começou a primeira de suas inúmeras aventuras. Aos 27 anos, deixava para trás o casamento de três anos e as comodidades de ser esposa de um coronel britânico, tempo durante o qual, ela dizia, foi absolutamente infeliz.

Naquela vida pregressa, que em pouco tempo se transformaria em apenas um detalhe de sua biografia, a jovem inglesa teve a oportunidade de acompanhar o marido em missões pela China, Índia e Austrália e, ao lado de outra esposa entediada, chegou a conhecer 30 países asiáticos. Mas foi ali, naquela viagem de barco, que ela começou a aproveitar de fato sua maior vocação: explorar o mundo com curiosidade e espírito aberto.

Rosita era, afinal de contas, uma viajante das mais genuínas, dotada de uma facilidade natural para se comunicar com as pessoas e compreender suas culturas, fazia amigos por onde passava e se integrava à vida local – de mercados vibrantes a caravanas nômades pelo deserto -, sem deixar de lado a observação minuciosa e sensível de tudo o que viu. 

Desde então, sua vida foi marcada pelo movimento. Em 1921, percorreu os desertos da Líbia e se tornou a primeira mulher europeia a visitar o oásis de Cufra, local sagrado de peregrinação do clã Senussi e um dos pontos mais remotos do Saara.

Na década seguinte, alugou um carro e dirigiu de Cabul a Samarkand, no Uzbequistão. Visitou incontáveis cidades perdidas, lugares proibidos e alguns dos locais mais perigosos do mundo, como Peshawar, que na época pertencia ao Afeganistão e era considerada uma cidade sem lei.

Para isso, sendo mulher e sozinha, recorria, muitas vezes a disfarces e trapaças – como vestir-se de homem, de muçulmana ou ter que drogar um ou outro servente. Mas é fato que, em todas essas viagens, conseguiu se conectar com as pessoas que cruzaram seu caminho, fossem mercadores, andarilhos, membros da nobreza, serventes, chefes tribais ou nômades.

Rosita Forbes em peregrinação

Rosita Forbes em uma de seus peregrinações. Foto: Domínio Público.

E foi essa habilidade, misturada com um bocado de sorte, que a tirou ilesa de diversas situações complicadas. Como no dia em que teve que negociar sua liberdade, junto com seu grupo de peregrinos, com mercadores de escravos no deserto da Etiópia. Ali, o que a salvou foi o sal que levavam na bagagem.

Ou quando, na caravana para Cufra, ela chegou a caminhar 10 dias sem água. Quando parecia que sua garganta ia se fechar para sempre, ela acordou com uma neblina úmida que serviu para amenizar os efeitos da desidratação e para que ela terminasse o percurso, não sem antes encontrar outro grupo de peregrinos que morreu no mesmo caminho que eles tentavam vencer. 

Sobre suas andanças, Rosita escreveu 18 livros, entre relatos, tratados, ensaios e romances. Em um deles, intitulado Women called Wild (Mulheres chamadas Selvagens, tradução livre), ela se recorda de mulheres que cruzaram seu caminho em diferentes pontos do globo e as transforma nas protagonistas de suas histórias. Com uma riqueza de detalhes fotográfica, bom humor e sagacidade, ela traça um compilado de seus encontros com mulheres das mais diferentes condições e contextos: escravas do antigo Império Etíope, senhoras, guerrilheiras revolucionárias na Rússia e na China, odaliscas em um harém, xamãs na América Central, espiãs na Turquia, monjas no Tibet…

Longe de ser um tratado feminista ou um manifesto, o livro é uma homenagem de uma mulher cheia de coragem para tantas outras que cruzaram seu caminho e que sobrevivem em sociedades muitas vezes hostis a suas próprias condições, uma declaração de admiração por essas mulheres que tanto enriqueceram suas viagens e relatos.

A partir de uma visão lúcida do mundo, permeada por seus conhecimentos sobre história e ciências políticas, Rosita consegue traçar um panorama que se distancia da visão eurocêntrica da “mulher exótica” e se aproxima de seus personagens sem preconceitos bobos, porém sem omitir suas críticas quando considerava pertinente. Com isso, tece um relato rico e que, quase um século mais tarde, permanece atual e, acima de tudo, muito divertido. 


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Natália Becattini

Já chamei de casa a Cidade do Cabo, Chandigarh, Buenos Aires e Barcelona, mas acabo sempre voltando pra minha querida BH. Gosto de literatura, cervejas, música e artigos de papelaria, mas minha grande paixão é contar histórias. Por isso, desde 2011 viajo o mundo e escrevo sobre o que vi. Também estou no blog sobre escrita criativa Oxford Comma e compartilho minhas impressões de mundo também no instagram @natybecattini e no twitter.

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2 comentários sobre o texto “Rosita Forbes e as mulheres chamadas selvagens

  1. Que história sensacional! Que coragem da Rosita em abandonar sua vida de casada e seguir pelo mundo.
    Se ainda hoje é difícil para muitas mulheres colocarem o pé na estrada, imagina no início do século XX!

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