fbpx
Tags:
Atlas: Alemanha

As vítimas esquecidas do nazismo

“Sempre que eu conto que meus pais foram sobreviventes do Holocausto, as pessoas me olham de um jeito estranho e dizem: ‘não sabia que você era judia”. Esse depoimento é da escritora norte-americana Terese Pencak Schwartz. O detalhe é que a família dela não era judia, assim como muitos dos milhões de civis que foram exterminados pelos nazistas e que formam o grupo das vítimas esquecidas do Holocausto.

Abra a Wikipédia. Pela definição disponível lá, no primeiro parágrafo do texto, aprendemos que o “Holocausto foi o genocídio ou assassinato em massa de cerca de seis milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial”. É preciso ler todo o artigo para descobrir que existem outras definições para o termo. Essas, incluem os milhões de assassinados que não eram judeus. Se contados, as vítimas do nazismo deixam de ser seis milhões: o número pula para no mínimo 11 milhões, mas há estimativas que chegam em 21 milhões de pessoas. Mas quem foram as outras vítimas do nazismo?

Os outros

Como esse terreno é instável, cabe uma observação: este texto não tem intenção de diminuir o sofrimento dos judeus, de longe o grupo que mais sofreu com o nazismo em termos quantitativos. O governo de Hitler assassinou quase 6 milhões de judeus, ou 80% da população judia que vivia na Europa na época da Segunda Guerra. Sim, os judeus sofreram e morreram. Nosso objetivo aqui não é negar isso, mas lembrar de outros grupos que também sofreram bastante.

Vítimas do nazismo

Símbolos que indicavam os vários grupos perseguidos, nos campos de concentração

Poloneses

“Matem, sem piedade ou misericórdia, todos os homens, mulheres e crianças de origem polonesa.” Quem disse isso foi o próprio Hitler, em 1939. E os nazistas levaram o desafio a sério. Durante a Segunda Guerra Mundial, cerca de 6 milhões de poloneses foram executados. Só a metade deles eram judeus. Os outros também morreram, afinal era plano da máquina nazista eliminar os poloneses do mundo. “É essencial que o grande povo alemão entenda que sua maior tarefa é destruir todos os poloneses”, disse Heinrich Himmler, um dos homens mais poderosos do nazismo.

Foi o ódio aos poloneses que resultou na prisão dos pais da escritora Terese Pencak Schwartz, citada no começo do texto. Ela conta essa história no site Holocaust Forgotten.

Prisão no campo de Berlim

Campo de concentração de Sachsenhausen

Ciganos

Eles são um dos povos mais perseguidos do mundo. Não foi diferente durante o nazismo, embora o número de ciganos mortos passe longe do consenso. Alguns especialistas falam em 220 mil. Outros, em 1,5 milhão. Assim como os judeus, foram deportados, presos e enviados para campos de concentração, onde muitos foram mortos. E hoje? Será que o preconceito contra os ciganos diminuiu? Errr, não. “Parece que os ciganos vieram ao mundo somente para ser ladrões: nascem de pais ladrões, criam-se com ladrões, estudam para ser ladrões”, escreveu Miguel de Cervantes, em 1613. É triste perceber que o mundo pouco evoluiu nesse sentido ao longo de 400 anos.

ciganos durante o holocausto

Mulher cigana e oficial alemão (Foto: Arquivo Público Alemão)

Eslavos

Generalplan Ost. Essas duas palavras foram usadas para descrever o maligno plano nazista para os territórios ocupados pela Alemanha no leste europeu. Significava uma só coisa: genocídio. Portanto, estava dentro do mesmo plano geral de eliminar etnias e liberar a Europa para a raça ariana. Dentro do Generalplan Ost estava prevista a eliminação dos poloneses e de muitos judeus, mas também a dos eslavos. Bielorrussos, tchecos e ucranianos também foram massacrados. As estimativas mais pessimistas indicam que 12 milhões de civis eslavos foram assassinados durante os anos da Alemanha nazista.

Homossexuais

Alô você que acha legal desrespeitar os direitos dos homossexuais: não tem nada de novo nessa atitude. Em 1936, os nazistas criaram um Escritório Central do Reich para o Combate à Homossexualidade e ao Aborto. Estima-se que 15 mil gays alemães tenham sido enviados para os campos de concentração, mas o número de presos em outros locais chegou a 100 mil. Eles eram acusados e julgados por um crime, a homossexualidade. Sim, isso era crime na Alemanha. Por isso, a Gestapo, Polícia Secreta nazista, invadia bares gays e prendia qualquer pessoa que tivesse a assinatura de revistas suspeitas. Durante esse período, gays foram castrados, torturados e mortos. Organizações gays foram banidas.

Nos campos de concentração, os homossexuais eram conhecidos por usarem triângulos rosas nos uniformes e tratados de forma extremamente cruel, até por alguns dos outros prisioneiros. O pior? A lei que criminalizava a homossexualidade não caiu com o nazismo. Foi só na década de 1980 que os gays passaram a ser lembrados como vítimas do Holocausto. O perdão pelos “crimes” que eles teriam cometido só veio em 2002, junto com um pedido de desculpas da Justiça alemã.

Testemunhas de Jeová

Maior grupo religioso cristão perseguido pelo nazismo, as Testemunhas de Jeová sofreram com o Holocausto. O número de mortos é estimado em 5 mil, cerca de 25% de todas as Testemunhas de Jeová que viviam na Alemanha antes do governo nazista. Elas eram perseguidas por se negarem a prestar serviço militar e a fazer a saudação “Heil Hitler”. Antes da Segunda Guerra, as Testemunhas eram um dos maiores grupos de prisioneiros enviados para campos de concentração. Ao contrário de outros grupos, perseguidos por questões étnicas, os membros dessa religião poderiam sair do campo a qualquer momento: bastava renunciar a fé e apoiar Hitler.

vítimas esquecidas do holocaustoDeficientes Físicos e Mentais

Aktion T4, ou Ação T4. Esse foi o nome do projeto de purificação genética da população alemã. Inciado em 1939, esse projeto fez com que médicos assassinassem pessoas consideradas incuráveis, fossem eles deficientes físicos ou mentais. Os números oficiais indicam que 70 mil foram mortos, mas outras estimativas sobem o número para 250 mil.

O nome do projeto era uma referência a Tiergartenstraße 4, endereço da Fundação de Caridade para Cuidados Institucionais, entidade que cuidava do massacre, em Berlim. Além dos assassinatos, milhares de deficientes foram esterilizados, já que eram considerados imprestáveis pela doutrina nazista, que nem por isso deixou de usá-los em experimentos científicos.

Maçons

Os historiadores acham complicado determinar quantas pessoas foram perseguidos e mortas apenas por serem maçons. É que muitos deles eram também judeus ou opositores políticos, tendo sido perseguidos por esses motivos. O fato é que Hitler não gostava muito dos maçons, embora eles não tenham sido tão perseguidos quanto os judeus e até pudessem ser aceitos no partido nazista. Quando eram enviados para os campos de concentração, os maçons usavam triângulos vermelhos.

Campo de concentração

Campo de concentração de Sachsenhausen

Negros

Os negros eram considerados inferiores e sofreram as consequências da propaganda nazista, embora tenham escapado do genocídio. É por isso que a gente não escuta falar deles quando o assunto é o Holocausto. Mas os afro-alemães, que eram chamados de bastardos de Rhineland, sofreram na mão de Hitler. Muitas crianças negras passaram por esterilização forçada, de forma a garantir o embranquecimento da população alemã.

Os outros dos outros

O período nazista não foi fácil para muita gente. Líderes de igrejas, membros da oposição política, comunistas e, claro, prisioneiros de guerra sofreram com os nazistas. Decidimos fazer este texto após duas visitas emocionantes a campos de concentração na Alemanha: Dachau e Sachsenhausen. Nos dois, vimos um testemunho vivo de milhões de pessoas que sofreram e morreram pelos mais variados motivos, mas com um ponto em comum: eram consideradas pelos nazistas como desnecessárias ou ameaças.

Memorial do Holocausto, Berlim

Memorial do Holocausto, em Berlim

Visitar um campo de concentração nazista ou um memorial do Holocausto é um dos programas mais impactantes que um turista pode fazer. Ao ajudar a humanidade a não se esquecer dessas atrocidades, esses monumentos evitam que essa triste história se repita e tornam o mundo, que ainda é muito intolerante, um lugar um pouquinho melhor.

Clube Grandes Viajantes

Assine uma newsletter exclusiva e que te leva numa viagem pelo mundo.
É a Grandes Viajantes! Você receberá na sua caixa de email uma série de textos únicos sobre turismo, enviados todo mês.
São reportagens aprofundadas, contos, crônicas e outros textos sobre lugares incríveis. Aquele tipo de conteúdo que você só encontra no 360 – e que agora estará disponível apenas para nossos assinantes.
Quer viajar com a gente? Então entre pro clube!

Avalie este post

Compartilhe!







Banner para newsletter gratuita

Receba grátis nosso kit de Planejamento de Viagem

Eu quero!

 

 




Rafael

Siga minhas viagens também no perfil @rafael7camara no Instagram - Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014, voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura.

  • 360 nas redes
  • Facebook
  • YouTube
  • Instagram
  • Twitter

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

30 comentários sobre o texto “As vítimas esquecidas do nazismo

  1. Rafael, gostei do resultado da sua pesquisa e do que você escreveu. Assim como a escravidão, o genocídio do holocausto são atos que envergonham eternamente a humanidade. É uma parte da história que sempre tem-se que falar e se aprofundar, nunca esquecer. Me impressiona que alguns países europeus se mantiveram neutros na guerra contra o Nazismo. Se manter neutro é apoiar. Inclusive alguns destes países teriam lucrado com fornecimento de insumos para construção dos campos de extermínio, de armamentos para as forças nazistas etc.

    1. Concordo totalmente, Lucas. E temos que sempre lembrar da história – só assim para evitar que ela se repita, né?

      Abraço e obrigado pelo comentário.

    1. Mas os judeus são citados em todo o começo do texto, José. Fora que a ideia do artigo é justamente falar das vítimas esquecidas…

      Abraço.

Carregar mais comentários
2018. 360meridianos. Todos os direitos reservados. UX/UI design por Amí Comunicação & Design e desenvolvimento por Douglas Mofet.