Rota 66: tudo sobre a estrada mais famosa dos EUA

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Talvez você já tenha sonhado em cortar desertos em um carro conversível, ao som música de tiozão num toca fitas vintage, percorrendo cidades com letreiros clássicos de “Welcome to…” no meio do nada. Pode ser clichê, mas é um clichê maravilhoso cruzar os EUA sem pressa, com uma trilha sonora boa e a câmera fotográfica nas mãos.

Em 2026, a Rota 66 completa 100 anos. Um século de histórias, migrações, rebeldia, cultura pop, abandono e renascimento. Aproveitei a data pra reunir aqui tudo o que faz dela um mito sobre rodas: com história, curiosidades, dicas práticas e algumas esquisitices que só se encontram no meio de uma road trip americana.

Então, coloca o cinto, baixa os vidros, e vem comigo nessa viagem sem GPS!

De Chicago a Santa Monica: o começo da Rota Mãe

Rota 66 - EUA

A U.S. Route 66 foi uma das primeiras rodovias federais dos Estados Unidos. Sua missão era prática: ajudar no transporte de mercadorias e pessoas no pós-guerra. Mas o que nasceu como uma linha estratégica no mapa logo ganhou história, relevância cultural e uma alma própria.

É que a rodovia cortava o coração do país e atravessava paisagens tão diferentes que aqueles que a percorriam tinham a chance de ver em primeira mão o tamanho dos Estados Unidos: das praias ensolaradas da Califórnia, passando por pradarias, cidadezinhas, fazendas e desertos.

8 estados, milhares de histórias

Ao longo de seus quase 4.000 km, a Rota 66 passa por:

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A estrada da esperança: a Rota 66 e a migração na Grande Depressão

Nos anos 1930, os Estados Unidos enfrentaram uma das maiores crises econômicas da sua história: a Grande Depressão. Para piorar, uma sequência de secas violentas assolou o centro agrícola do país, criando o fenômeno conhecido como Dust Bowl, uma mistura de solo ressecado, tempestades de areia e colapso ecológico que deixou milhares de fazendas inviáveis.

Para as pessoas atingidas pela crise, a Rota 66 passou a representar a possibilidade de recomeço.

Milhares de famílias, principalmente de estados como Oklahoma, Texas, Arkansas e Kansas, empilharam o que podiam em caminhonetes, carroças e carros antigos e partiram rumo ao oeste. O destino? A Califórnia, vista como uma terra de oportunidades, com colheitas abundantes e promessas de trabalho.

“66 é a estrada da gente. Levou-nos à fuga. Levou-nos à esperança.”
— John Steinbeck, em As Vinhas da Ira

Esse fluxo migratório foi tão marcante que a estrada virou símbolo da luta por sobrevivência. Ao longo do caminho, surgiram pequenos acampamentos improvisados, apelidados de Hoovervilles, onde famílias descansavam antes de seguir viagem.

Curiosidade: em certos trechos, especialmente no Arizona e na Califórnia, algumas cidades chegaram a restringir a entrada de migrantes de outros estados com barreiras e inspeções que tentavam impedir o êxodo dos pobres do meio-oeste. Tem algo nisso que te lembra os Estados Unidos de hoje?

Rota 66 EUA - Illinois

Um ícone da cultura pop

Quem nunca ouviu (Get Your Kicks on) Route 66? A música foi escrita em 1946, gravada por nomes como Nat King Cole, Chuck Berry e Rolling Stones, e ajudou a eternizar a rota como trilha sonora oficial das road trips.

Nos cinemas, o filme Carros, da Pixar, é basicamente uma carta de amor à Rota 66 e às cidades esquecidas depois da construção das rodovias modernas. Mas ela também aparece, direta ou indiretamente, em filmes como Easy RiderThelma & Louise e Into the Wild, sempre associada à ideia de movimento, ruptura e à busca por sentido pra vida comum.

Na literatura, a estrada foi eternizada por As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, que a chamou de “The Mother Road”, a estrada-mãe, e retratou como ninguém a rota como caminho de fuga daqueles que cruzaram o país em busca de trabalho e dignidade.

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Placas da Rota 66 - Estados Unidos

Mas se nos anos 1930 ela era uma rota da fuga e da sobrevivência, a partir dos anos 1950 ela ganhou outra camada simbólica: virou o palco da rebeldia.

Com o crescimento da classe média americana, o surgimento da cultura jovem e a explosão do rock’n’roll, a estrada se tornou sinônimo de liberdade. Ou melhor, de libertação. Afinal, quem tinha um carro e uma estrada aberta não precisava de mais nada. Era só ligar o rádio, jogar as malas no banco de trás e ir embora sem destino certo.

Foi aí que ela virou símbolo de um certo tipo de EUA: nostálgica, rebelde e motorizada.

Os beatniks

Antes dos hippies, vieram os beatniks, a geração de escritores e poetas dos anos 1950 que rejeitava o materialismo, a guerra e a caretice dos EUA pós-Segunda Guerra. Para eles, viajar era uma forma de resistência e muitas vezes, essa viagem acontecia pela Rota 66.

Foi nessa época que Jack Kerouac escreveu o clássico On the Road, um livro que (embora não mencione a Rota 66 diretamente) capturou a essência de uma geração que viajava sem rumo, à procura de sentido, de liberdade, de algo que talvez nem ela mesma sabia o que era.

Os hippies

Na década de 1960, os hippies transformaram a estrada em rota espiritual. A Rota 66 passou a ser usada para chegar a festivais, comunidades alternativas, praias californianas e desertos onde, acreditava-se, era possível encontrar a verdade geralmente com a mãozinha do LSD.

Vans psicodélicas, roupas coloridas, placas feitas à mão e caronas se tornaram parte da paisagem da estrada. Parte dos EUA estava louca para sair do controle e a Rota 66 era o trilho dessa loucura (no bom sentido), com direito a incenso e trilha sonora da Janis Joplin.

Os motoclubes

Gigantes da Rota 66 - EUA

Não dá pra falar de contracultura na Rota 66 sem citar os motociclistas. Grupos como os Hells Angels transformaram a estrada em seu próprio território. A moto virou símbolo de autonomia e rebeldia, e cruzar a Rota 66 de Harley Davidson era um verdadeiro ritual de iniciação.

O filme Easy Rider (1969), estrelado por Peter Fonda e Dennis Hopper, é a síntese disso: dois motociclistas percorrendo a América profunda, confrontando preconceitos, vivendo a liberdade (e também a solidão) que a estrada oferece.

O rock’n’roll e o barulho dos motores

Enquanto os motores rugiam, o som dos rádios era dominado por Chuck Berry, Elvis Presley, Buddy Holly. O rock’n’roll nasceu junto com a estrada moderna: ambos rápidos, barulhentos, rebeldes e inquietos.

Em muitos bares de beira de estrada, shows improvisados eram regados a música e cerveja barata. E assim, a Rota 66 foi ganhando ainda mais dessa alma própria que ela tem hoje: além de levar a lugares geográficos, ela incorporava também um estado de espírito.

Desativada, mas nunca esquecida

A Rota 66 viveu seu auge entre os anos 1940 e 1960, quando era considerada a “espinha dorsal da América”. Mas, ironicamente, o próprio progresso que ela ajudou a impulsionar acabou decretando seu fim.

Em 1956, foi aprovado o Federal-Aid Highway Act, criando a malha de rodovias interestaduais (Interstate Highways). Essas novas estradas eram mais largas, modernas, rápidas e seguras. Diferente da Rota 66, que cruzava o centro das cidades, as interestaduais passavam por fora, economizando tempo mas desviando totalmente o fluxo de viajantes.

Oficialmente, a Rota 66 foi descomissionada em 1985, mas o culto à estrada só cresceu desde então.

Hoje, trechos inteiros foram restaurados por apaixonados e voltaram a ser transitáveis. Alguns estados passaram a sinalizar esses trechos antigos com placas de “Historic Route 66”. E cidades como Williams (Arizona), Seligman (também no Arizona) e Tucumcari (Novo México) abraçaram com orgulho o visual retrô, reconstruindo a estética original da estrada.

Museus e fundações foram criados para preservar essa memória. E é por isso que hoje, mesmo morta no papel, a Rota 66 segue mais viva que nunca. Ela se transformou em patrimônio cultural, destino turístico, referência estética e inspiração para viajantes que sonham em percorrê-la, se não literalmente, ao menos de forma simbólica.

Paradas curiosas (e imperdíveis) pela Rota 66

As paradas ao longo da Rota 66 são parte do que torna essa estrada tão especial. Ali, você vai se deparar com um visual excêntrico, kitsch, decadente e nostálgico, tudo de um jeito beeem americano de ser.

Paradas da Rota 66 - EUA

Cidades fantasmas

Com o desvio do tráfego para as rodovias modernas, várias pequenas cidades da Rota 66 entraram em declínio e viraram quase-cidades fantasmas. Em alguns lugares, o que restou foram postos de gasolina abandonados, placas desbotadas, casas vazias e uma vibe de filme pós-apocalíptico.

Destinos como Glenrio (Texas/Novo México) e Oatman (Arizona) ainda guardam estruturas antigas e histórias de tempos melhores. E rendem fotos incríveis!

Lojas de antiguidades e museus sobre rodas

É quase impossível passar pela Rota 66 sem sentir vontade de parar em pelo menos uma daquelas lojas cheias de placas vintage, fliperamas antigos, objetos de Coca-Cola dos anos 50 e outras bugigangas colecionáveis.

Em cidades como Tucumcari (Novo México) ou Seligman (Arizona), dá pra perder horas caçando tesouros do passado. Sem contar os pequenos museus de carros antigos, como o Route 66 Auto Museum, com relíquias restauradas que parecem saídas de um filme do James Dean.

A maior cadeira de balanço do mundo (Missouri)

No meio do Missouri, na cidadezinha de Fanning, fica uma das atrações mais peculiares da Rota 66: a maior cadeira de balanço do mundo. Com mais de 12 metros de altura, ela foi construída em 2008 e virou ponto obrigatório pra quem ama uma boa foto excêntrica. Não dá pra balançar (por segurança), mas dá pra se sentir minúsculo perto dela.

Os gigantes da Rota 66: uma estrada cheia de personagens colossais

Aliás, um dos elementos mais curiosos da Rota 66 são seus roadside giantsestátuas gigantescas plantadas à beira da estrada. Essas figuras exageradas, muitas vezes kitsch, fazem parte de uma tradição americana conhecida como “novelties” ou “muffler men”: atrações construídas para chamar a atenção de motoristas e turistas.

Elas começaram a surgir nos anos 1960, quando o tráfego intenso da Rota 66 fazia com que cada comerciante precisasse de um truque para se destacar. Resultado? Cowboys, astronautas, animais, garrafas, coelhos e até cachorros com óculos escuros, todos em tamanho família.

Cadillac Ranch: um campo de carros enterrados no chão

Perto de Amarillo, Texas, você encontra uma das instalações de arte mais icônicas dos EUA: dez Cadillacs enfiados de bico na terra, enfileirados como se tivessem caído do céu.

A obra foi criada nos anos 1970 por um grupo de artistas underground com apoio de um milionário excêntrico. Visitantes são encorajados a levar spray e deixar sua marca, o que transforma o lugar numa galeria de arte urbana coletiva.

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Natália Becattini

Sou jornalista, escritora e nômade há mais de 14 anos. Desde 2010, produzo conteúdo sobre turismo cultural e experiências locais ao redor do mundo, com foco em narrativas autorais, sustentabilidade, imersão e o lado B dos destinos visitados. Fundadora do blog de viagens 360meridianos, também compartilho histórias na newsletter Migraciones , no Youtube e no Instagram. Desde 2024, sou Top Voice no Linkedin por meus insights sobre jornalismo, viagens, nomadismo e produção de conteúdo. Meu trabalho já foi destaque em veículos como Viaje na Viagem, TV Brasil, Exame, Correio Brasiliense, O Tempo, JC Online e Rock Content.

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