A relação entre língua e cultura

Em tupi, o verbo não indica o tempo, mas há o tempo do substantivo. Quem explica é o linguista Sérgio Freire, em uma postagem curta em seu perfil de Facebook. Segundo ele, os sufixos “rama” (o futuro) e puêra (o passado) são acrescentados aos nomes para indicar o que já foi e o que está por vir. Na Amazônia, uma tribo que usa o idioma pirahã não possui palavras para contar e o próprio conceito de números é inexistente.

Talvez pensar em como essas sociedades podem ser funcionais sem alguns dos conceitos que pra gente são tão básicos e fundamentais, como o tempo verbal e os números, pode dar um nó na nossa cabeça. Todo nosso raciocínio e estrutura de pensamento são moldados por nossa língua e fica até difícil imaginar como é possível que seja de outra forma. “É um belo exemplo de como as línguas recortam o mundo de forma diferente: em tupi, o movimento no tempo é o movimento das coisas. Lindo isso, não?”, acrescenta Sérgio Freire em sua postagem.

A língua é a expressão da mente. Ela é a base que utilizamos para elaborar nosso pensamento e para nos expressarmos. Se deixamos de olhar para um indivíduo e encaramos um grupo social mais amplo, é fácil observar a relação entre o idioma e a cultura. Durante uma aula do mestrado, o professor de Divulgação Histórica, Arqueológica e Cultural no Jornalismo de Viagens perguntou à turma por que eles acreditavam que os catalães e os bascos, mesmo depois de tanto tempo incorporados à Espanha, ainda possuíam uma identidade tão forte enquanto grupo cultural. “Porque eles ainda carregam a língua”, respondeu. Isso explica, por exemplo, a perseguição que sofreram os dois idiomas durante a ditadura franquista. “Mate uma língua e você mata uma cultura”, afirmou.

Em uma palestra do TED, o economista comportamental Keith Chen mostra como as sociedades que falam idiomas que possuem uma forma verbal específica para expressar o futuro possuem uma tendência a poupar menos que as sociedades nas quais o futuro é expresso pela mesma forma verbal que o presente. Segundo ele, ao mudar o verbo, separamos o presente do futuro, ao contrário das outras sociedades nas quais os dois tempos são vistos como parte de um mesmo plano.

A língua não apenas influencia nosso comportamento, mas também define as categorias e distinções que são importantes para aquele grupo. Tentar entender um conceito que não está presente no nosso idioma pode ser um verdadeiro exercício mental. Não é a toa que palavras consideradas sem tradução são realmente difíceis de serem explicadas em outras línguas: o máximo ao que podemos chegar são significados parciais. Os significados completos ficam perdidos no ar.

A forma como falamos pode até mesmo afetar nossas habilidades cognitivas. Qualquer criança pormpuraaw, uma pequena comunidade aborígene na Austrália, é capaz de apontar o norte sem muitos problemas, ainda que esteja em um ambiente desconhecido. Isso porque, em sua língua, não há palavras para indicar a localização relativa de objetos, como direita e esquerda. Tudo ali é indicado por meio da localização absoluta. A mesa está à leste da cadeira. O copo fica ao norte do prato. Há estudos que mostram ainda que as sociedades em que a língua não faz distinção de gênero ou aquelas em que essa distinção é menos marcante tendem a ser mais igualitárias que as que possuem uma forte distinção, como as línguas latinas.

Mas, afinal, é a língua que influencia a cultura ou a cultura que influencia a língua? A pergunta parece ser do gênero “o que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”. Uma se ampara na outra e juntas constroem e alteram a dinâmica social. Seja qual foi a primeira a influenciar a outra, a verdade é que, para aprender um idioma, não basta apenas decorar as regras gramaticais e ter um bom vocabulário. É preciso também aprender a cultura.

Foto destacada: Shutterstock


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Natália Becattini

Já chamei muito lugar de casa, mas é pra Belo Horizonte que eu sempre volto. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Além do 360, mantenho uma newsletter sobre o a vida, o universo e tudo mais, que eu chamo de Vírgulas Rebeldes. Vira e mexe eu também estou procrastinando lá no instagram @natybecattini e no twitter.

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