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“Deveria estar em casa cuidando da neta, fazendo tricô e não ficar por aí viajando”

Claudete Roth Trojbicz completa 72 anos este mês. Viúva, mãe de três filhos e avó de três netas, aos 66 anos ela embarcou para sua primeira viagem totalmente sozinha. Já Florisbela Cordeiro Intagliata tem 63 anos, mora com a filha recém-divorciada e a netinha de um ano. Começou a viajar sozinha em 2011, quando ficou viúva.

Conheci as duas – entre várias leitoras da mesma faixa etária – em comentários aqui no blog. Claudete contou – muito animada – que tinha passado sozinha seu aniversário de 70 anos, no Japão. A Florisbela está sempre presente nos posts, relatando suas aventuras de ficar hospedada em hostel e completar o Caminho de Santiago, duas vezes. E sozinha.

“Tenho muitas histórias, mas precisaria de muito tempo para contá-las”, diz Claudete. “A melhor consequência das viagens foi o amadurecimento e independência que elas trouxeram. E também a satisfação em realizá-las com toda a segurança, no meu ritmo, horário e orçamento. Sem depender de ninguém, sem perturbar meus filhos”. Os filhos, aliás, têm muito orgulho de contar para os amigos sobre a viagem. “Eles só têm o trabalho de me levar e buscar no aeroporto”.

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Claudete na fila para assistir o teatro Kabuki

Sua primeira viagem solo foi para Portugal. Planejou o roteiro cuidadosamente por um ano e embarcou para Lisboa, Sintra, Cascais, Queluz, Coimbra e Évora. Dois anos depois, a Espanha foi o destino escolhido para mais uma jornada solo: Madrid, Toledo, Barcelona e  Granada. A escolha de Claudete para comemorar seus 70 anos de idade foi nada mais, nada menos, que o Japão, completamente sozinha. Esteve em Tóquio, Quioto, Nara, Hiroshima, Takaiama, Shirogawa e Nikko.

Para ela, a única preocupação mesmo foi deixar os dois cachorros em casa sozinhos. “Meus filhos, minha nora e minhas netas se revezaram para dar comida”. Ela confessa também que o Japão foi motivo de preocupação da família: “Um dos meus filhos ficou muito apreensivo, com medo de que eu fosse me perder. Não domino muito tecnologia, não comprei chip local e a informação que tive no Tourist Information quando cheguei é que o sistema do meu celular poderia não ser compatível”.

A solução encontrada por ela foi o velho método de anotações: “Na estação de metrô, escrevia em letras latinas aonde queria ir e me informavam qual a cor da linha, qual trem tomar, qual estação fazer baldeação, número da plataforma e do trem a prosseguir. Tenho a cadernetinha guardada junto com todos os folhetos da viagem. Não me perdi nenhuma vez! Precisão japonesa.” Também conta que, com a tecnologia de hoje, fica muito mais fácil se comunicar: “Falei com meus filhos quase todos os dias pelo Whatsapp”.

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Uma japonesa pediu para tirar foto com a Claudete, em Tóquio

Já para Florisbela, a ideia de liberdade, de sair por aí sozinha sempre existiu. “Nunca antes tinha visto alguém falar sobre o Caminho de Santiago de Compostela, nem tinha a mínima ideia do que seria. Então, fiquei sabendo por intermédio de uma amiga sobre esse roteiro mágico e de muita energia. Me interessei imediatamente pesquisando no Google. Mas, pra iniciar esse sonho, eu teria que ter um preparo físico, psicológico e din din também. Comecei a preparar-me comprando livros, pesquisando na internet e assistindo palestras sobre o Caminho.”

E lá foi ela: de Sain-Jean-Pied-de-Port, na França, atravessando a Espanha até Santiago de Compostela, um trajeto de 890 quilômetros, com uma mochila de 6,3kg nas costas. “Fiz com toda intensidade possível: não tive medo, controlei minha ansiedade. A paixão não terminou por ai, e em 2016 voltei novamente e refiz o trajeto”.

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A Florisbela no início do Caminho de Santiago de Compostela, nos Pirineus, em 2016 

Florisbela tem a resposta na ponta da língua quando perguntam porque decidiu fazer o caminho duas vezes, sempre sozinha: “Pelo interesse artístico e histórico existente ao longo do Caminho. Descobrir coisas, vilas, aldeias, pessoas, culturas, de tudo mesmo. Nessas minhas caminhadas descobri que para ser feliz não é preciso depender de alguém, um lugar, um momento ou bens materiais”.

Depois da primeira viagem, anos atrás, ela sempre se programa para um novo destino no verão. “Por enquanto continuo indo sempre pra Europa. Já estive em Portugal, Itália, Espanha, Inglaterra e outros…. Acredito que eu tenha encontrado um diferencial em mim, nas minhas viagens, tenho interesse no conhecer e não visitar somente. Faço o roteiro, um destino e as cidades que me interessam e fico pelo menos uma semana em cada uma. Vasculho tudo, tenho curiosidade pela gastronomia, pelos nativos, festas regionais, museus, igrejas, parques, mercados, etc”.

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Flora em Salamanca, Espanha – Piazza Mayor

Sem medo de estar sozinha

Ao contrário da história da Claudete, a Florisbela não teve tanto apoio da família para seguir nas suas jornadas. Relata que vem de uma família bem tradicional e sempre foi considerada fora dos padrões: “Sempre tive, desde a minha infância, essa vontade de conhecer o mundo afora. Nunca me contentei com esse mundinho fechado em quatro paredes, obedecer ordens, me submeter a pessoas e não ter o direito de sonhar. Fui um pouco rebelde sim. Uma mulher de caráter forte, batalhadora, curiosa, cheia de sonhos e que correu sempre atrás dos seus objetivos”. 

Florisbela conta que assim que sua neta entrou no berçário, aos seis meses, ela já estava novamente com o pé na estrada. “Já tinha conversando com minha filha que sou avó e não mãe, tenho minha vida e nada muda com a chegada desse anjinho em nossas vidas. E mesmo espantada com a minha decisão – aceitou! Assim ela teve que se adaptar a nova vida e se adequar a nova realidade que é ser mãe”.

Já o resto da família não aprovou a decisão, julgaram Florisbela por deixar a filha desamparada. “É julgamento sem fundamento. Quando julga sem conhecer a causa. Ou talvez o receio, o medo, do que pode acontecer. Ou mesmo aquelas coisas que dizem: nessa idade deveria estar em casa cuidando da neta, fazendo tricô e não ficar por aí viajando. Escuto muito isso”.

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Florisbela em Miranda do Douro, Portugal

Mas nenhum desses julgamentos compensa a melhor coisa que ela sente nessas viagens: “A liberdade, realização pessoal, a descoberta que sou capaz. Uma mistura de felicidade e medo, tudo junto. Pensam que falo vários idiomas, nadinha: somente o italiano e entendo um pouco o espanhol, nada mais! Mesmo assim nada me amedronta”, conta Florisbela. 

A única vez que Claudete temeu a solidão foi no Ano-Novo em Coimbra, seu primeiro sem companhia: “Pensei que me sentiria muito só”.  No fim das contas, se divertiu muito: “Encontrei um programa de variedades formidável – dança, comédia, mágicas, entrevistas, transmitido por uma televisão francesa e foi um ótimo divertimento. Em outro 31 de dezembro – em Quioto/Japão – assisti pela NGK um concerto em homenagem aos 80 anos do maestro Seiji Osawa. Fiquei admirada com o talento de cantores líricos japoneses e orquestra formada só por japoneses tocando música erudita ocidental numa perfeição impressionante. Um programa invejável para fechar o ano. Foi uma felicidade!”

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Claudete no Parque dos Bambis, em Nara, Japão

O estilo de viagem de Claudete é tranquilo: “Sempre saí cedo do hotel e voltei cedo também, para descansar, me preparando para explorar o dia seguinte. À noite ficava bem sossegada no meu quarto de hotel, lendo um pouco: carrego livros para minhas leituras antes de dormir”. Ela gosta de viajar no próprio ritmo, visitando as atrações que considera importantes, nos seus horários, sem depender de ninguém. Seu maior receio de estar sozinha ocorreu duas vezes, na Espanha, quando teve que sair durante a noite em Barcelona para pegar um voo e em Granada para fazer um passeio. Mas, nas duas ocasiões, nada de mau lhe aconteceu. 

Florisbela também conta que na estrada passa por situações curiosas, de homens a vendo com um mapa pela cidade e que questionam o porquê de uma mulher da idade dela andar tão longe. E sozinha. Ainda, num dos albergues do Caminho de Santiago, foi sua aparência que entrou em questão: “uma albergueira Italiana me julgou pela aparência, achou que eu andava muito bem arrumada. Por ser uma peregrina, se estava a procura de namorando pelo caminho. Respondi que sou sempre eu mesma em todos momentos, sou vaidosa, não importava em que circunstâncias, gosto de me sentir bem para mim mesma, e por ser uma peregrina nada mudava meu estilo e comportamento. Mas se aparecesse um fidanzato (um homem interessado) seria bem-vindo…rs”.

A única dificuldade mesmo, diz Florisbela, é tirar fotos viajando sozinha: “Sim, esse é um perrengue real. Não tem ninguém para registrar o momento tão especial para você. Saio pedindo um e outro ‘por favor me faça uma foto…’. Estou treinando selfie pra evitar tais transtornos negativos”. 

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 Florisbela nas ruínas de um antigo castelo em Castrogeriz, Espanha

Sobre seu estilo de estilo de viagem, Florisbela não define: vai de mochileira ao tradicional. O que importa é que é uma viajante independente. “Organizo minhas viagens por conta própria, dando ênfase ao conhecimento e diversão. Geralmente utilizo meios de hospedagens mais econômicos e costumo fazer viagens mais longas”. Assim, costuma sempre se hospedar em hostels, por terem preços acessíveis e poder preparar a própria comida.

Já me deparei com franceses e alemães tomando banho sem roupas tranquilamente. Quase morri de susto, mas fiz como se fosse natural! Ufa! Outra vez, na Espanha, em Toledo, perdi o trem de retorno a Madri e tive que me virar. Fui procurar um local para dormir e tudo correu bem. Nesses casos, uso sempre essa técnica de respirar fundo e acabo tomando a decisão certa. Em viagem devemos sempre manter a calma!”

Suas dicas de organização para viagens são: “primeiro vejo o pais de destino e inicio a consultar passagens em promoções, pesquiso hostels com preços acessíveis. Sempre bem localizados, por exemplo: centro histórico, próximo a metro, ônibus, estação de trem, bares, restaurantes e casas de shows. Então, dou sequência a um roteiro bem detalhado, nada feito com pressa. Gosto de permanecer no mínimo uma semana em cada cidade. Não gosto de conhecer 5 a 10 países em 15 dias, é uma viagem muito superficial e cansativa”

Claudete também dá dicas de como se organiza: “Estudo muito bem a viagem, pesquiso as atrações e lugares que imagino que gostaria de visitar, pesquiso muito na internet, junto informações de viajantes e pronto. Levo pouquíssima bagagem, uma mala pequena que despacho na bagagem, uma mala de mão na cabine. Dentro da mala despachada, levo outra para os presentes para meus dois filhos, filha, genro e netas – que compro sempre na última cidade visitada”. 

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Claudete em Hiroshima no primeiro dia de 2016

E qual é o próximo destino dessas duas aventureiras? Florisbela seguirá explorando a Europa: “Estou planejando agora Paris, já com roteiro pronto. E depois novamente Espanha, dessa vez para conhecer melhor o restante de algumas cidades do norte, em Asturias. E depois San Sebastian, Sevilha e Granada”. 

“Depois do Japão, criei coragem para a China”, afirma Claudete. “A ida já está marcada – 16 de dezembro de 2017. Também já estão marcados os hotéis em Xangai e Zhangjiajie (onde foi filmado o filme Avatar). Estão em meus planos Pequim, a cidade proibida e a muralha da China.” Também quer ir para Hong Kong e talvez outras cidades, mas ainda não planejou. “Viajar é maravilhoso, já estou curtindo antecipadamente”.

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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 30 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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87 comentários sobre o texto ““Deveria estar em casa cuidando da neta, fazendo tricô e não ficar por aí viajando”

  1. Fantastico!!Tambem tenho viajado sozinha ou no máximo com amigas.Mas nessa ultima viagem fui para a Espanha e fiquei 16 dias entre Madrid e Barcelona totalmente sozinha, resgatando a historia de meus antepassados ( meus pais eram catalães) e agradecendo por terem permitido que eu fosse quem sou hoje.Foi fantástico, liberdade inigualável e experiencias inesquecíveis.
    Sim, tenho 65 anos, maridão que me apoia, filhos que adoram minhas aventuras e neto vindo para saber que a vovó é velha, sim, mas ultrapassada..JAMAIS!!! kkkk
    Parabéns a essas grandes companheiras de aventura!!

  2. Florisbela e Claudete, PARABÉNS meninas!!!! Apesar de não vivenciar este tipo de viagem, tenho um super companheiro que como eu, tem uma mala sempre pronta… imagino a realização de vocês. Viajar é maravilhoso, independente da idade, a aventura, a vontade de desvendar e conhecer o novo tem que estar dentro de cada um. Que bom que vocês tem este espirito, com certeza vão inspirar muitos viajantes. Beijo grande pra cada uma.

  3. Gostei muito da reportagem dessas duas mulheres corajosas . Eu ja viajei muitas vezes, sempre em pacotes de viagens , que foram ótimas, mas agora em novembro, vou fazer minha primeira viagem sozinha. Fiquei bem confiante lendo as experiências de Claudete e Florisbela. Vou comecar num local mais facil. Lisboa. E ano que vem vou tentar um local mais dificil, quem sabe Irlanda. Tenho 63 anos. Parabens pela reportagem. Ajudou muito.

  4. Essa matéria foi incrível…. Adorei. Aliás sou fã incondissional desse blog ❤. Uma dica a todas as mulheres depois dos 60 anos…nunca deixe de viajar por falta de companhia… a melhor companhia eh a sua, digo ainda: prefiro fazer chech in do que check up … Até a próxima viagem! Bjssss

  5. Que admirável a atitude e coragem dessas duas!!costumo viajar com meu esposo e sempre encontramos pessoas assim!espero nao perder o pic quando chegar na idade delas!!

  6. Muito legal mesmo essa matéria e os posts.
    Tenho 54 anos, vou me aposentar no ano que vem, me fixar em portugal e passar o resta da vida viajando, os parentes acham que não aguento morar sozinha.
    Digo que quem viver verá!

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