A Cartagena que fez Gabriel García Márquez sonhar

Uma mulher com um vestido colorido e esvoaçante leva uma bacia de frutas na cabeça enquanto caminha por entre os casarões coloniais pintados em tons pastéis, alguns deles com tantas flores na varanda que transformam a rua inteira em um jardim. Um velho ônibus pela cidade. Lá dentro, um grupo musical toca rumba para embalar os passageiros que festejam com uma garrafa de rum e coca-cola. E, do lado de fora dos portões da cidade, ao lado de uma floricultura, pessoas fazem fila para ter seus documentos datilografados à maquina. Você se esquece que é o século 21. Esse é só um dia comum em Cartagena das Índias.

“Você é apenas um tabelião sem imaginação alguma”, disse, certa vez, um amigo de Gabriel Garcia Márquez quando o escritor o levou por um passeio em Cartagena das Índias. O realismo mágico encontrou nos absurdos cotidianos da América Latina um terreno fértil para florescer. Mas Cartagena é outra coisa. Cartagena é a materialização desse universo fantástico, e García Márquez soube muito bem como se apropriar dessa atmosfera e plasmá-la em seus livros.

Roteiro pela Cartagena de Gabriel García Marquez

O escritor nasceu em Aracataca, um pequeno município distante 250 quilômetros de Cartagena, mas teve que se mudar para a cidade caribenha quando, para fugir de uma onda de violência e turbulência política que assolou Bogotá no fim dos anos 1940, viu-se obrigado a transferir de universidade. Passou ali apenas dois anos, 1948 e 1949, quando largou o curso de direito para dedicar-se à escrita e ao jornalismo. Dois anos depois, sua família se mudou para lá, e ele continuou visitando a cidade nos anos que se seguiram. A curta estadia foi o suficiente para marcar a ele e sua obra para sempre. “Todos os meus livros tem algum cabo solto com relação a alguma história que eu vi ou vivi em Cartagena”, disse o escritor certa vez em uma entrevista para um documentário.

Leia também: O extraordinário na América Latina de Gabriel García Márquez

Dica de leitura: Do Amor e Outros Demônios

Em Minas, o fantástico está a cada esquina

Foi de uma dessas histórias que nasceu o personagem Aureliano Buendía, do aclamado Cem Anos de Solidão. No Camellón de los Máritires, uma rua de pedestres localizada no bairro Getsemaní, o escritor passava horas conversando com amigos e escutando histórias de pescadores e pessoas recém-chegadas de outras partes da Colômbia. Um dia, alguém lhe contou sobre um general que havia sobrevivido a muitas guerras. Pronto, estava plantada a semente para um clássico mundial.

Apesar da extrema conexão entre a obra de García Márquez e cidade, Cartagena não parece explorar essa glória com muito afinco. A casa laranja que ele manteve até o fim da vida, em uma esquina do centro histórico, está fechada e passa desapercebida se você não sabe o que está procurando. O único museu dedicado a sua obra fica em Aracataca, lugar sem outros grandes apelos turísticos. A única forma de reviver seus dias ali ou conhecer, ao vivo e a cores, alguns dos cenários de seus livros, é unindo-se a um tour de agência ou através de uma pesquisa independente. Algumas esquinas, que podem parecer totalmente ordinárias à primeira vista, revelam a magia captada pelo autor para quem, assim como ele, souber enxergar.

Roteiro pela Cartagena das Índias de Gabriel García Márquez

Dizem que García Márquez recebeu o lampejo de inspiração para “O Amor nos Tempos do Cólera” observando o movimento do porto da cidade, enquanto notava a mistura de alegria caribenha com a melancolia que ainda se respirava na cidade que era porto de desembarque de pessoas capturadas na África para se tornarem escravas nas Américas. A Praça dos Evangélhos, na qual, no livro, vive a mocinha Fermina Daza, é, na realidade, a Praça Fernandez de Madrid. Foi precisamente na casa branca, com uma varanda no segundo andar e coberta de trepadeiras, na esquina à esquerda da praça, que Florentino Ariza viu sua amada pela primeira vez e iniciou uma história de amor e rejeição que durou cinquenta anos. Também nessa praça, está o banco em que o protagonista fingia ler um livro enquanto esperava Fermina passar. Segundo a própria descrição do livro, era o banco mais escondido da praça, à sombra das amendoeiras.

Roteiro pela Cartagena de Gabriel García Marquez

Estátua no meio da Plaza Fernandez de Madrid (acima) e a casa onde supostamente vivia Fermina Daza, no romance O Amor nos Tempos do Cólera (abaixo).

Roteiro pela Cartagena de Gabriel García Marquez

Debaixo dos arcos na lateral da Praça Bolívar – os mesmos onde agora há uma homenagem às muitas misses universo colombianas -, ele ditou as cartas de amor que escreveu a Fermina aos datilógrafos que, no passado, ficavam ali. Hoje, eles foram movidos para fora dos muros do centro histórico, perto da entrada da Torre do Relógio e ao lado de uma floricultura, ainda datilografando documentos e, quem sabe, uma ou oura carta de um romântico incurável. Longe de ser apenas o cenário de um livro, a Praça Bolívar também era um dos lugares favoritos do escritor, que costumava sentar-se ali para observar a vida na cidade e pensar com seus botões. É ali que fica a sede do recém inaugurado Centro Gabo, um espaço cultural que oferece cursos e oficinas voltadas para jornalistas e escritores.

Roteiro pela Cartagena de Gabriel García Marquez

Os arcos da Praça Simón Bolívar (acima) e os datilógrafos que ainda trabalham do lado de fora dos muros do centro histórico (abaixo).

Roteiro pela Cartagena de Gabriel García Marquez

A casa da esquina da Calle Zerrezuela, refúgio que o escritor mandou construir, fica próxima aos limites do centro histórico e de frente para os mirantes de onde se pode ver o mar. Ali perto está o Bar El Coro, pertencente ao Sofitel Legend Santa Clarao qual o escritor gostava de frequentar. Hoje um hotel cinco estrelas, o lugar já foi um convento e ainda preserva as instalações originais. Quando trabalhava como repórter, Gabo foi enviado ali para cobrir a descoberta de uma cripta bem abaixo de onde hoje funciona o bar, com os restos de uma menina que ostentava 22 metros de cabelo. Essa foi a faísca que, mais tarde, gerou a história contata em Do Amor e Outros Demônios. Mais um exemplo de como a fantasia e a realidade se misturam em Cartagena.

Roteiro pela Cartagena de Gabriel García Marquez

Turistas passam em frente à casa construída do Gabriel García Márquez

Hoje, o bar é um dos mais badalados da cidade, tem uma excelente carta de drinks e ainda preserva a atmosfera meio mórbida do convento. A cripta está aberta para divulgação, basta descer a pequena escada localizada no centro do salão. Outros estabelecimentos frequentados pelo escritor em suas noites de boemia eram o Café Havana, no bairro Getsemaní, e o também cubano La Vitrola, um dos mais famosos da cidade.

Roteiro pela Cartagena de Gabriel García Marquez

Hoje um bairro em processo de gentrificação, cheio de arte de rua, cafés e galerias e arte, o Getsemaní, localizado dos lados de fora dos muros do centro histórico, era, na época da passagem do escritor pela cidade, um bairro periférico que o atraia por sua riqueza humana incrementada pela presença de imigrantes de outras partes do país e pescadores que se misturavam nos agitados mercados populares que ele frequentava para descobrir as histórias daquelas pessoas, um mundo completamente distinto daquele que ele experimentava dentro dos limites da aristocrática cidade amuralhada.

A transformação do Getsemaní mudou bastante a atmosfera local, mas essa Cartagena popular que encantou García Marquez ainda existe. No Mercado Basurto, um mercado popular no qual se pode encontrar de tudo um pouco, em uma confusão ilógica e, ao mesmo tempo, fascinante, ainda se pode comprar o peixe fresco direto dos pescadores, ver uma senhora matando um frango que, poucos minutos antes, fazia companhia a vários outros em uma gaiola e observar velhinhos jogando damas. Mais ou menos o mesmo ambiente que o escritor amava experimentar nos anos 1940. O local funciona todos os dias na Plaza de Mercado de Cartagena e, se você decidir passar por lá, tome cuidado com possíveis batedores de carteira.


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Natália Becattini

Já chamei de casa a Cidade do Cabo, Chandigarh, Buenos Aires e Barcelona, mas acabo sempre voltando pra minha querida BH. Gosto de literatura, cervejas, música e artigos de papelaria, mas minha grande paixão é contar histórias. Por isso, desde 2011 viajo o mundo e escrevo sobre o que vi. Também estou no blog sobre escrita criativa Oxford Comma e compartilho minhas impressões de mundo também no instagram @natybecattini e no twitter.

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