Pegadas ecológicas no turismo: dá para diminuir o impacto das nossas viagens?

Apesar de eu separar o lixo, diminuir meu consumo de carne vermelha, tentar comprar mais de pequenos produtores, não ter carro e comprar poucas coisas durante o ano, tem uma aspecto da minha vida que transforma minhas marcas nesse planeta em pegadas de mamute: viajar de avião. Você já calculou as suas pegadas ecológicas (ou carbon footprint, em inglês)? Eu nunca tinha pensado em calcular as minhas e, quando descobri o tamanho delas, vi que os resultados não são nada animadores.

“Não acho que seria viável limitar o turismo. Mas a gente não pode negar que é uma das atividades mais destrutivas para o planeta”, afirmou o Dr. Niko Paech, professor de Pluralismo na Economia pela Universidade de Siegen, na Alemanha e especialista em economia pós-industrial. “A operação e mobilidade são um problema, já o turismo é um luxo. Ninguém morre por causa de turismo, mas a falta da mobilidade mata as pessoas. A aviação cresceu muito, virou uma questão de massa e um problema de proteção do clima”.

Leia também: Turismo sustentável: um guia para um viajante consciente

Ele discursava para a plateia da maior feira da indústria de turismo do mundo, a ITB Berlin. No auditório lotado – tão lotado que eu estava sentada no chão – havia jornalistas, empresários, estudantes e diferentes representantes da indústria do turismo, que volta e meia precisam se lembrar do enorme problema que têm nas mãos. Dr. Niko debatia com Michael Lutzeyer, dono de uma reserva natural privada na África do Sul, sobre a relação conflituosa entre turismo e sustentabilidade.

A Associação Internacional de Transportes Aéreos (Iata) prevê um aumento para 7,2 bilhões de viajantes em aeronaves até 2035. “Uma viagem longa destrói o potencial de não poluir e diminuir o uso de gás carbono. A quantidade de passageiros é um desastre em termos de proteção do clima”. Segundo o Prof. Paech, a meta mundial é que cada pessoa emita, no máximo, 2.5 toneladas de gás carbônico por ano. Ele convidou as pessoas da plateia para que fizessem o tal teste das pegadas de carbono. Segundo um grupo ambiental chamado Germanwatch, uma única pessoa fazendo uma viagem transatlântica de ida e volta produz quatro toneladas métricas de CO2. Essa pesquisa também afirma que esse volume é o mesmo que o de 80 residentes na Tanzânia, no ano inteiro. E um avião num voo internacional raramente tem menos de 200 pessoas dentro dele.

Não encontrei nenhum teste do tipo em português que funcionasse ou me parecesse confiável. Então, usei a calculadora “oficial”, da Global Footprint Network. Segundo os resultados do meu teste, seriam necessárias existirem quatro planetas Terra se todo mundo vivesse como eu.

pegadas de carbono sustentabilidade

Fiz a análise em relação aos últimos 12 meses, período em que tive uma quantidade enorme de viagens longas de avião

“Num nível individual, não existe outra atividade humana que emita tanto em tão pouco tempo quanto a aviação, pois ela consome grande quantidade de energia”, explica o mediador do debate na ITB, Dr. Stefan Gössling, professor de turismo sustentável nas universidades suecas de Lund e Linnaeus.

Segundo ele, a aviação tem um impacto real de 5% nas mudanças climáticas. Isso se explica por conta do gasto enorme de energia necessário para um avião voar, além dos efeitos adicionais, como as emissões de óxido de nitrogênio, vapor dꞌágua, material particulado, trilhas de condensação e alterações das nuvens do tipo cirro .

A indústria da aviação x sustentabilidade?

A Organização de Aviação Civil Internacional, OACI, agência da ONU para o desenvolvimento do setor, da qual o Brasil é signatário, determina metas para 2020 e 2050, para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Além disso, eles determinaram, em 2016, um novo padrão global para redução das emissões, para que as aeronaves passem a combinar fatores estruturais, aerodinâmicos e de propulsão que garantam menos emissões.

Isso seria aplicado em novos tipos de avião a partir de 2020 e em todos os aviões em produção a partir de 2023. O padrão novo para a aviação é mais severo com aeronaves mais pesadas, que são responsáveis por 90% das emissões internacionais de CO2, mas têm mais potencial tecnológico de incorporar novas tecnologias para redução do problema.

Experiência de viagem avião

Para completar, em 2015, numa convenção ambiental da ONU, em Paris, o Brasil assinou uma lista com metas de redução das emissões de carbono de 37% (até 2025) e de 43% (até 2030), com base nos níveis de 2005.

Uma das possibilidades para alcançar essa meta, segundo a ABEAR, é o desenvolvimento e uso de biocombustíveis, como o bioquerosene. A barreira ainda é o custo e a falta de investimento nesse tipo de energia. No Brasil, existe desde 2016 uma Política Nacional de Biocombustíveis, a Renovabio. No entanto, segundo o engenheiro de Desenvolvimento de Produto da Embraer, Marcelo Gonçalves, em entrevista para o site da Urabio, o processo para utilização desses produtos ainda está numa escala muito pequena:

“Estritamente do ponto de vista técnico, a produção de bioquerosene já ocorre e está inclusive certificada. O Brasil é um país promissor neste sentido e internacionalmente conhecido pela sua grande experiência no uso de biomassa, como etanol de cana-de-açúcar, o óleo de soja para o biodiesel e eucalipto para a polpa de papel. Por causa destes fatores, acreditamos que podemos liderar o processo de substituição dos combustíveis fósseis na aviação por biocombustíveis. Todavia, ainda não há produção em escala suficiente para tornar o produto economicamente atrativo”.

E as pegadas ecológicas dos viajantes?

pegadas de carbono luiza

Não é o caso de “culpar” viajantes em nível individual, considerando que a escala do problema é muito maior. E nem em falar em limitar o turismo, o que o próprio Prof. Paech considera impossível. Mas, talvez, uma forma de tornar o turismo mais sustentável é diminuir o ritmo e repensar a forma como viajamos. Essa é a filosofia do “slow movement”, sobre o qual já postamos a respeito com os textos da jornalista Alexandra Duarte:

“Em suma, (o slow moviment) defende retomar o controle da própria vida e do ritmo dela, tomar o tempo necessário para cada coisa e recusar a aceleração constante – muitas vezes sem propósito – em que vivemos, que se tornou a marca da sociedade pós revolução industrial (…) Vivemos no automático e queremos produzir mais, aproveitar mais, viver mais e com mais velocidade. Viajar é quase sempre sinônimo de uma equação que inclui meios de transporte de eficiência e uma matemática complexa de quantos dias temos para fazer tudo que um destino tem de imperdível. Quebrar essa lógica durante viagens de lazer é um desafio mesmo para quem, como eu, é adepta às práticas do movimento Slow”

O prof. Paech completa esse pensamento: “Quem estaria disposto a viajar por um dia, ao invés de uma hora, pra um destino que é naturalmente sustentável?”


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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 30 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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