Grandes Viajantes: Sarah Bernhardt, a atriz mais famosa do mundo

“Existem cinco tipos de atrizes. Atrizes ruins, atrizes razoáveis, atrizes boas, grandes atrizes e, depois, Sarah Bernhardt,” teria dito o autor americano Mark Twain. Muito antes de existir a televisão, Sarah Bernhardt era dona de um teatro, tinha uma companhia itinerante que rodava o mundo e lotava apresentações do Brasil à Austrália.

A atriz francesa também foi uma das primeiras mulheres a interpretar Hamlet nos palcos e a primeira a fazê-lo para o cinema. Foi amante de importantes dramaturgos e interpretou obras como Salomé e a Dama das Camélias. Você pode até nunca ter ouvido falar dela, mas se vivesse no início do século 20, é bem provável que a admiraria.

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Sarah não veio de família rica. Nasceu em 1844, sua mãe era cortesã, seu pai não se sabe quem era. Por conta de um acidente, era uma criança frágil, que logo a mãe despachou para viver numa pensão e depois num convento. Quando tinha uns 16 anos, a mãe, desesperada para se livrar da filha impetuosa, tentou fazer com que ela também investisse na prostituição de luxo.

Sorte de Sarah que um dos amantes de sua mãe, o Duque Charles de Morny, era meio-irmão de Napoleão III. Ele ofereceu outra opção de carreira para a moça: uma vaga no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris, mas a jovem considerou o lugar antiquado demais. Conseguiu, com o apoio do Duque, ser aceita na companhia de teatro nacional, a Comédie-Française.

A jovem aprendiz logo seria expulsa da companhia porque seu espírito nada tinha a ver com as regras rígidas daquele universo. Ela esbofeteou, sem pensar duas vezes, a atriz principal do grupo porque ela havia empurrado sua irmã mais nova, que pisou na barra do vestido da veterana.

sarah Bernhardt joan d arc

A atriz interpretando Joana D’Arc

Nos três anos seguintes, Sarah Bernhardt vagou entre diferentes companhias, sem grande sucesso. Nesse período também teve um filho, fruto de um caso com o Príncipe de Ligne. Então, finalmente, em 1866, assinou um contrato com o Teatro Odéon, onde começou a estabelecer uma reputação como boa atriz. O dono do Odéon, Félix Duquesnel, escreveu sobre ela:

“Ela não era só bonita, era mais perigosa do que isso… uma criatura maravilhosamente dotada de inteligência rara, energia e força de vontade ilimitadas.”

Seu grande sucesso veio com a peça Le Passant, de François Coppée. Ela era uma mulher de 25 anos interpretando um menino e usando bermudas. Ela atuou essa mesma performance em frente a Napoleão III.

A guerra e a carreira internacional

Em 1870, eclodiu a guerra Franco-Prussiana e a popularidade de Sarah Bernhardt na França aumentou vertiginosamente. A atriz fez com que o Teatro Odéon fosse um refúgio para soldados feridos. Circulava pelos mais ricos, intimando-os a doar comida e roupas.

Com o fim do conflito, o francês Victor Hugo voltou do exílio e Bernhardt estrelou sua peça de retorno, Ruy Blas. Foi tão aclamada pelo papel que a Comédie-Française, com o rabo entre as pernas, a convidou de volta.

Com tamanho sucesso na França, Bernhardt decidiu aventurar-se pela primeira vez fora de seu país, nos palcos ingleses. Tinha 36 anos. A temporada de seis semanas em Londres a levou a destinos mais distantes: uma turnê nos Estados Unidos, para interpretar A Dama das Camélias. Henry James, escritor americano, narrou a loucura da chegada da atriz francesa no país. Afirmou que ela era um: “gênio publicitário; podendo, de fato, ser chamada de musa dos jornais… ela é muito americana para não ter sucesso na América”.

sarah Bernhardt selo correios

Um selo em Cuba feito em homenagem a atriz

Ela então organizou uma turnê mundial, em que viajava de trem e navios. Girou pela América do Sul e do Norte, Europa, Norte da África e até Oceania. O único continente que não desbravou foi a Ásia. Só no Brasil, esteve quatro vezes. Por aqui, encenou em palcos do Rio de Janeiro recém-independente, no governo de Dom Pedro II. Sobre sua segunda apresentação, Joaquim Nabuco escreveu em 1886, no jornal O Paiz:

(…) a estrada que ella pisa é a mesma no Rio de Janeiro que em Moscow: é a estrada triumphal que as realezas artísticas do nosso século encontram em qualquer lugar onde a fantasia as leve, bordada da eterna multidão humana, que parece outra, mas é sempre a mesma. (Revista Sala Preta, 2017)

Sua volta ao mundo pelos palcos atraia somente elogios por sua voz belíssima, seu carisma e seu talento. Com isso, também ganhou muito dinheiro. Além de joias, roupas caras e peças de arte, Sarah Bernhardt também tinha um pequeno zoológico, com leopardos, leões, um macaco e um jacaré. A atriz, inclusive, usava um chapéu feito de morcego empalhado e levava tudo para seus shows itinerantes.

“No caso de Sarah Bernhardt, a alta frequência das viagens ao longo dos anos evidencia que as turnês se tornaram um elemento estruturante da carreira da atriz”, conta Monize Oliveira Moura, autora de um artigo sobre as turnês de Sarah no Brasil.

Atriz, empreendedora e dona da p* toda

sarah Bernhardt praga

Restaurante em Praga com a imagem da atriz

A fortuna acumulada com as viagens e turnês garantiu que Sarah Bernhardt pudesse, em 1883, arrendar seu primeiro teatro, o Teatro Porte Saint-Martin. Ali produziu e atuou em obras e durante suas viagens mantinha peças estreando continuamente, apoiando produções de vanguarda e novos autores. Mais tarde, tornou-se gerente do Teatro de la Renaissance. Por fim, em 1899, ela se fixou no enorme Theâtre des Nations, que ela renomeou como Théâtre Sarah Bernhardt, e geriu o espaço por 25 anos. Esse também foi o único palco em que ela atuou até o fim de sua vida. O nome do espaço se manteve até a Segunda Guerra Mundial, com a ocupação da França, e hoje chama-se Théâtre de la Ville.

Sua vida profissional era um sucesso consistente e ela conseguiu um feito pouco usual para atrizes até hoje: sua vida pessoal bastante controversa nunca afetou sua popularidade. Além de ter um filho fora do matrimônio, o que por si só já seria um escândalo, Sarah teve como amantes praticamente todos os seus companheiros de palco, além de importantes escritores da época. Casou-se apenas uma vez, com o aristocrata grego Aristides Damala – homem que inspirou Bram Stoker a escrever Drácula. O casamento não durou muito, visto que Damala usava muitas drogas, tinha várias amantes e morreu de overdose.

1899: Hamlet, Shakespeare

sarah Bernhardt hamlet

Quando Sarah Bernhardt decidiu interpretar Hamlet, um dos papéis mais icônicos escritos por Shakespeare, ela queria um desafio e também, obviamente, a fama e as manchetes que isso geraria. Um dos seus biógrafos,  Robert Gottlieb, afirmou que tratou-se de “a jogada mais controvertida de todas as que fez”.

Ela interpretou Hamlet nos palcos de Paris e Londres e, no ano seguinte, também fez história no cinema. Já tinha 55 anos e não havia mais papeis femininos que lhe interessassem.

Em sua última turnê pelo Brasil, em 1905, quando apresentava La Tosca, sofreu uma queda no ato final, em que precisava pular de um muro. O ferimento na perna piorou com a idade e a passagem dos anos. Em 1915, o membro já estava tomado por gangrena e foi necessário amputar a perna da atriz, que já tinha 70 anos.

Mas isso não parou sua carreira, muito pelo contrário. Com o início da Primeira Guerra Mundial, Sarah organizou uma turnê pelas trincheiras francesas, para animar as tropas. Era carregada numa liteira. Mesmo com a saúde se deteriorando cada vez mais, seguiu com as viagens e apresentações internacionais por meses a fio.

Por exemplo, sua última turnê pelos Estados Unidos foi em 1916 e ela ficou por 18 meses na estrada. Quando chegou de volta a França, decidiu seguir com uma turnê pelas principais cidades europeias, em papéis que pudesse atuar sentada. Seu último trabalho foi no filme La Voyante, que estava sendo filmado em Paris, em sua casa, quando ela morreu. Foi no dia 26 de março de 1923.

O enterro de Sarah Bernhardt moveu multidões em Paris. Foi decretado luto público após sua morte. Seu túmulo está no Cemitério do Père Lachaise. Ela também tem uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood. 

sarah Bernhardt calcada da fama


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Luiza Antunes

Sou jornalista, tenho 30 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite "morar no aeroporto". Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

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6 comentários sobre o texto “Grandes Viajantes: Sarah Bernhardt, a atriz mais famosa do mundo

  1. Mulher fantástica, determinada, guerreira e a cima de tudo muito moderna para sua época! Obrigada por partilhar conosco a história dessa mulher extraordinária.

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