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Origens BR: o Brasil que não foi descoberto

 

O gosto das águas salgadas do Atlântico fez com que os espanhóis chorassem de alegria e alívio. O ano era 1542 e os homens de Francisco de Orellana estavam há meses navegando por um rio maior que qualquer outro – rio que, mais tarde, passou a se chamar Amazonas. Extremamente magros, fracos, feridos e doentes, os conquistadores que chegaram ao final da viagem eram uma pequena fração do exército de milhares que tinha começado a aventura, ainda do outro lado da cordilheira.  

Aquela foi a primeira vez que o Rio Amazonas foi navegado, de ponta a ponta, por um europeu – por motivos óbvios, não se sabe se alguém já tinha feito isso antes dos conquistadores. Os relatos que cruzaram o Atlântico e chegaram ao rei da Espanha foram fundamentais para colocar, de uma vez por todas, o Novo Mundo nos sonhos do Velho. E nos pesadelos também. 

Os conquistadores relataram encontros com tribos gigantescas, algumas delas ocupando vários quilômetros das margens do maior dos rios. E o poder daquelas nações amazônicas continuou a ser destaque nas crônicas dos viajantes seguintes. Maurício Heriarte, europeu que passou pelo atual estado do Pará, em 1662, escreveu que apenas um dos povos da região era capaz reunir “60 mil arcos quando manda dar guerra”. Já Bento da Costa, que navegou pelo Rio Amazonas na mesma época, destacou a quantidade de moradores de outra forma: “se do ar deixassem cair uma agulha, há de dar em cabeça de índio e não no solo”.

Os séculos se passaram e os povos da floresta chegaram ao período republicano com população bem menor do que a relatada pelos primeiros cronistas. Será que aquelas histórias foram exageradas, uma mistura de mitos, medos e causos para impressionar reis; ou o genocídio e as doenças trazidas pelos conquistadores eliminaram povos inteiros? 

E não é só o passado da Amazônia que o Brasil desconhece. Enquanto em boa parte da América Latina se usa a palavra conquista para descrever a chegada dos europeus no Novo Mundo, no Brasil perdura, há séculos, a ideia de descobrimento. Essa diferença desvaloriza a cultura e as sociedades que já existiam no território que viria a ser brasileiro – e que naquela época era casa para milhões de pessoas, divididas em mais de 200 etnias e falando duas centenas de idiomas e dialetos. Tribos que foram encontradas, catequizadas e frequentemente caçadas e escravizadas pelos portugueses.

Junte a História com provas ainda mais antigas, mas de outra disciplina: nas últimas décadas a arqueologia começou a descobrir que existem sinais de presença humana no território brasileiro há milênios. O crânio de Luzia, tirada de um sono de mais de 11 mil anos em Minas Gerais e sobrevivente do incêndio do Museu Nacional, que o diga.

O México tem Teotihuacan, Palenque e Chichen Itza. O Peru tem Machu Picchu e o Vale Sagrado. E o Brasil? Se aqui não foram encontradas ruínas de grandes cidades de pedra, por mais que elas tenham sido exaustivamente procuradas, há sítios arqueológicos para Indiana Jones nenhum reclamar. Segundo um levantamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Brasil tem 14 mil sítios arqueológicos. Quatorze mil.

Desses, quantos viraram roteiros turísticos, mesmo que apenas para viajantes mais aventureiros? Ou ao menos são estudados nas aulas de história? Renderam filmes, livros, novelas, enfim, um lugar no imaginário nacional?  Isso para não falar dos locais ainda desconhecidos, ou melhor, há milênios esquecidos. 

Nos últimos 80 anos, o território brasileiro se tornou um imã para arqueologistas, antropologistas e pesquisadores de várias partes do mundo. Passam por aqui algumas das perguntas mais importantes envolvendo o passado não apenas do Brasil, mas da humanidade: quando o ser humano chegou ao continente americano? E que tipo de sociedades existiam no atual território brasileiro, em especial na Amazônia? 

Ilha do Marajó, Pará

Quais histórias um blog de viagens pode contar?

Para o 360meridianos, blogar é contar histórias. Blogs são mais informais que a imprensa tradicional e muitas vezes focados nas vivências de seus próprios membros, como nas crônicas de viagem que há anos fazemos por aqui e que tanto atraem a atenção de nossos leitores. 

Mas um blog de viagens também pode mergulhar em busca de outras histórias. Cruzar divisas e fronteiras, procurar personagens, entrevistar cientistas e investigar. E assim jogar mais luz num passado importantíssimo, mas pouco conhecido pelas pessoas. Em outras palavras: um blog de viagens pode ser um veículo jornalístico como qualquer outro, focando em apuração e reportagem. 

Desde uma viagem ao Peru, em 2016, passei a cavar links e textos que abordavam a história dos sítios arqueológicos brasileiros. E descobri que eu era um ignorante no assunto. O Brasil tem geóglifos enormes, com até 300 metros de largura, desenhos feitos no solo do que era selva e que o desmatamento agora começa a revelar. Tem monumentos de pedra à moda Stonehenge. E o maior conjunto de pinturas rupestres do mundo, além de tantos outros sítios, alguns deles próximos a destinos turísticos badalados. Mas que, muitas vezes por puro desconhecimento, ficam de fora dos roteiros de viajantes. 

Depois de reunir uma grande quantidade de material e colocar algumas dezenas de livros na lista de leitura, resolvemos que o 360meridianos tentaria um projeto audacioso: queríamos investigar o passado do Brasil, da pré-história ao período imediatamente anterior à chegada dos europeus.

Sabemos que essa aventura poderia render anos de viagens temáticas, mas planejamos visitar inicialmente 18 destinos em 7 estados diferentes. Assim nasceu o Origens BR, que o 360 vai realizar nos próximos meses. Entre março e agosto serão quatro viagens – a primeira delas já na semana que vem. Os destinos? Bem, esses vamos revelar aos poucos. Spoiler: temos voos para três cidades do interior do Brasil e duas capitais bem distantes de casa, mas que parecem incríveis. Navegaremos por rios enormes, percorreremos milhares de quilômetros de carro e mais alguns outros a pé, em trilhas por diferentes biomas brasileiros.

Veja também: Descoberta ou conquista – o Brasil antes de 1500
Z, a Cidade Perdida do Coronel Fawcett

Um muito obrigado aos que tornaram o Origens BR possível 

Com o sonho traçado, passamos para outra etapa do planejamento: como financiar um projeto assim? O Origens BR não é uma viagem de férias, mas de investigação. Envolve um exercício jornalístico e demanda o trabalho e a experiência de um fotógrafo e filmmaker. Necessita de veículos 4×4, contratação de guias e muita, muita organização. 

Por isso, resolvemos procurar empresas que acreditassem na importância da História, da Cultura e, claro, no poder de comunicação dos blogs. A primeira e única reunião que marquei para discutir os planos não poderia ter sido em outro lugar: fui até a Seguros Promo, um comparador de seguros de viagem e que é a maior parceria e incentivadora de blogs de viagem, 360 incluído.  

A resposta não só foi positiva, mas deu passos além. A Seguros Promo e sua empresa-irmã, a Passagens Promo, abraçaram o Origens BR de forma imediata e decisiva. Graças a eles, faremos reportagens que pretendem recontar o passado do que hoje é o Brasil. Com o apoio da Seguros Promo e da Passagens Promo, produziremos também vídeos para nosso Canal e fotos de lugares pouco conhecidos – alguns deles receberam pouquíssimas visitas até hoje, a maioria de pesquisadores e cientistas. Por tudo isso fica um agradecimento sincero. Após quase oito anos blogando, sei que não é todo dia que se consegue um patrocínio para projetos assim. E conseguir não apenas um patrocinador, mas um parceiro que acredita e se emociona com a ideia, é certamente algo único. 

Desejamos que vocês, leitoras e leitores, nos acompanhem em mais essa aventura. E que ao final da quarta viagem do Origens BR, em agosto, o passado da nossa terra seja um pouco mais conhecido, desperte mais interesse e curiosidade de viajantes. 


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Rafael

Quando criança, eu queria ser jornalista. Alcancei o objetivo, mas uma viagem de volta ao mundo me transformou em blogueiro. Já morei na Índia, na Argentina e em São Paulo. Em 2014 voltei para Belo Horizonte, onde estou perto da minha família, do meu cachorro e dos jogos do América. E a uma passagem de avião de qualquer aventura. Siga minhas viagens também no instagram, no perfil @rafael7camara no Instagram

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20 comentários sobre o texto “Origens BR: o Brasil que não foi descoberto

  1. Amei a iniciativa e as etapas de execução. Estou feliz é muito ansiosa para ver a produção de vocês. Aguardo que no futuro façam este roteiro conosco. Sou geógrafa e conheço apenas o Nordeste, Sul, sudeste e centro-oeste do Brasil…mas falta muito…pela dimensão continental de nosso país.

  2. Parabéns 360!!

    Estou super feliz de ver o caminho que vocês estão trilhando. Mais feliz ainda em saber que vão das visibilidade aos povos indígenas (meu tema de pesquisa).

    Sucesso pra vocês!!

  3. Oi, meninos!

    Acompanho vocês desde 2015 acredito eu kkkk

    Então, sou arqueóloga(formada pela UFS – Universidade Federal de Sergipe) e adorei essa ideia/projeto de vocês. O Brasil tem muito a revelar e esse sítios no site do IPHAN não são todos, muitos não estão atualizados no CNSA(Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos) e infelizmente muita coisa foi destruída, pois as nossas leis não ajudam, como também a arqueologia é vista com um empecilho dentro do licenciamento ambiental e o IPHAN está sucateado(infelizmente). As superintendências regionais não tem verbas nem para fiscalizações =/

    No portal do IPHAN está aberta uma consulta pública – http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/5004/aberta-consulta-publica-para-portaria-de-identificacao-e-cadastro-de-sitios-arqueologicos – para melhorar o cadastro dos sítios, como também georreferenciá-los para ajudar a vida de todos.

    Sugiro também, de vocês irem as superintendências estaduais para olharem os projetos e seus respectivos relatórios, acredito que ajudará nessa jornada. E no site do IPHAN vocês conseguem acompanhar eventos ligados ao patrimônio em todas as superintendências regionais que também pode ser legal de vocês participarem.

    No mais acho que é isso e se precisarem de uma arqueóloga podem me chamar hahahahaha

    Boa viagem e boa jornada

    #gratidão

    Abraços

    1. Oi, Izabella, nossa, que comentário ótimo! Lembro de você aqui na caixa de comentários há anos, não sabia que era arqueóloga! 🙂

      Vou seguir suas dicas sim, pode deixar!

      Abraço.

    1. Parabéns pela iniciativa!!!!.
      Acabei de voltar de uma viagem a Portugal e Espanha e fiquei ainda mais apaixonada pelo Brasil.
      Quando fui para Manaus, Belém e Ilha do Marajó , não foram poucas as pessoaa que me perguntaram o que iria fazer por lá. E respondia: Vou conhecer o Brasil que os brasileiros não conhecem.
      É isso aí mostre o Brasil que os brasileiros não conhecem.

      1. Belém e a Ilha do Marajó são destinos incríveis, Maria! E tão fáceis de serem visitados. Infelizmente parece que o Marajó é mais conhecido por estrangeiros do que por brasileiros.

        Abraço e obrigado pelo comentário.

    2. Obrigado, Gabriela. E a Seguros Promo e a Passagens Promo são, francamente, exemplos ótimos nesse sentido! Que sejam mesmo seguidas por outras.

      Abraço.

  4. Rafael,
    Que projeto lindo! Inspirador!
    Estou emocionada, de verdade. Será que vocês passam pelo meu Maranhão?rs Parabéns a vocês do 360 Meridianos e ao pessoal da Seguros Promo e PassagensPromo, por acreditarem nesse projeto. Que orgulho de vocês! Contem comigo na divulgação.
    PARABÉNS mesmo pela iniciativa!

    1. Oi, Karine. Obrigado pelo comentário. 🙂

      Estamos muito empolgados, a primeira viagem foi ótima! Passamos pela Serra da Capivara, no Piauí, e também por Bahia e Pernambuco. Os próximos destinos são segredo, hehehe.

      Muito legal mesmo ter o apoio da Seguros Promo e da Passagens Promo, são empresas incríveis.

      Abração.

  5. Que ideia genial! Se antes já era leitora do 360, agora vocês ganharam uma “fazona”. Há algum tempo, por coincidência, tenho procurado aprender sobre os povos originários do Brasil, sua história esquecida e/ou escondida. Tenho encontrado um movimento muito forte dos povos descendentes engajados numa luta de resgate, que vai da cultura ao território. E me senti uma ignorante também. Esse projeto de vocês, penso eu, vai alcançar e, de alguma forma, dar notoriedade a eles.
    Tô imaginando o tanto do Brasil que vamos começar a conhecer e entender com esse projeto. O tanto de beleza, história e cultura que irão nos trazer dessas viagens e instigar nossa curiosidade.
    Beijão nos corações iluminados de vocês que tiveram a sensibilidade em enxergar a carência que temos de informação e de conhecimento em tudo que se relaciona ao Brasil antes de ser invadido pela ganância do homem além mar.

    1. Obrigado pelo belíssimo comentário, Graziella! Esse é o objetivo, recontar uma história que muitos não conhecem, que foi propositalmente esquecida.

      Abração.

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