Desventuras em série em Montenegro

Desventuras em série em Montenegro

Não importa quantos anos de prática em viagem você tenha, quantas planilhas bem montadas com um roteiro redondinho você organize ou como você seja talentoso para fazer mala de mão para viajar em um mês. Experiência ajuda muito um viajante, mas não o torna imune a erros idiotas no planejamento aqui ou ali. E muito menos faz alguém imune a Murphy.

Ninguém escapa da Lei de Murphy. E eram essas palavras que eu repetia na minha cabeça quando, embaixo de uma chuva fina de verão, circulava pelas ruas do labirinto que é o centro histórico de Budva, em Montenegro, a procura de algum lugar que pudesse nos abrigar depois que tudo deu errado.

Tudo começou com um erro besta no roteiro. Quando fui comprar as passagens de avião de Portugal para os Balcãs, descobri que chegar em Sofia seria a escolha mais econômica. Com isso, tive que inverter todo o trajeto inicialmente pensado e acrescentar um novo país na viagem: a Macedônia. Com um país a mais na rota, tive que cortar tempo em outro. E esse país foi Montenegro, que não podia sair totalmente do roteiro porque teríamos que passar por ali por terra, entre a Albânia e a Bósnia Herzegovina.

Leia também: O misterioso caso das vans na Albânia

Assim, contrariando meu estilo de viagem, teríamos pouco tempo ali, apenas a tarde do dia da chegada e mais um dia inteiro. A primeira questão que surgiu não foi exatamente um problema. Qualquer pessoa que viaja pelos Balcãs eventualmente vai descobrir que transporte lá é bem complicado. É difícil achar informações atualizadas na internet. Por isso, já estávamos viajando quando descobri que havia um ônibus noturno de Budva para Mostar, na Bósnia, o que parecia uma boa opção, visto que a viagem duraria de 8 a 9 horas.

budva montenegro

“Tudo bem”, eu pensei, “ainda teremos o dia inteiro em Budva, já que o ônibus só sai às dez da noite”. Isso, porém, é apenas uma meia verdade. É muito diferente (1) sair de manhã do hotel, passear o que quiser e voltar para um quarto com ar-condicionado e um chuveiro para recarregar as energias; ou (2) antes de sair para passear ter que fechar a mala, fazer check out, deixar tudo na recepção e no final do dia quente só poder lavar o rosto na pia do lavabo e pegar um ônibus para outra cidade.

A qualidade do passeio na opção 2 é pior, não há dúvidas, mas se esse tivesse sido o único problema, tudo bem. Não foi.

Os problemas de verdade começaram no momento da partida de Tirana, na Albânia. Pagamos o equivalente a 20 euros na passagem do busão, que sairia às 8h e chegaria às 14h no destino. Na hora de colocar as malas no bagageiro, uma surpresinha: tinha que pagar em euros (moeda de Montenegro, não da Albânia) para o ônibus levar sua mala. Não adiantou a argumentação de “porra motorista, nem a Ryanair cobra para levar essa malinha”. Não adiantou falar que não tínhamos dinheiro trocado. Lá se foram 2 euros por mala.

E então passamos uma viagem inteira com um motorista mais preocupado em falar no telefone e responder mensagens do que em dirigir. Ele diminuía a velocidade do ônibus para ficar nessa comunicação intensa com sei lá quem. Mal desligava o telefone com um, já ligava para outra pessoa. E a gente lá, olhando para aquela situação com cara de tacho. A viagem, obviamente atrasou duas horas. Chegamos às 16h em Budva. Descemos do ônibus e lá fomos nós arrastando as malinhas pelo trajeto que o Google dizia ser de apenas um quilômetro até o hostel.

budva montenegro

Estávamos hospedados lá na subida para as montanhas

O Google Maps nunca nos conta, porém, sobre subidas. E encaramos uma particularmente grande até chegar no endereço indicado, num calor de uns 37º. Lá no alto não havia qualquer sinalização indicando o hostel, apenas um monte de prédios residenciais. Encontramos duas pessoas que moravam no tal prédio e elas começaram a falar com a gente em montenegrino sem parar. Não entendemos nada e seguimos subindo até quase o último andar, onde a reserva indicava que ficava o hostel.

Nem preciso dizer o quanto estávamos cansados e suados nesse momento, precisando de um bom banho e uns minutos de descanso. O que encontramos quando o senhor dono do hostel abriu a porta foi só mais uma dor de cabeça para acrescentar na nossa lista. Imagine um apartamento comum, sala, cozinha, quartos, banheiro. O cidadão simplesmente colocou um monte de beliches – de péssima qualidade, diga-se de passagem – no meio da sala, amontoadas, e chamou aquilo de hostel.

As camas ficavam coladas umas nas outras e mal havia espaço para passar. Eu olhava para aquilo chocada, me perguntando como é que eu tinha reservado um local assim. Não fazia sentido na minha cabeça, porque durante a viagem revezamos entre pousadas, hotéis de quartos duplos e alguns hostels com quartos até seis camas. Também nunca tinha pego locais com nota menor do que 8 no Booking. Por algum motivo que até hoje me foge à memória, fizemos aquela reserva de um quarto para dez pessoas, num lugar com nota 6,9 (na verdade, hoje a nota já desceu para 6,5).

Bom, naquele momento, tudo o que eu conseguia pensar é: “Tá no inferno, abraça o capeta”. Teríamos que ficar apenas uma noite ali, apesar da reserva ser para dois dias. Eu perguntei para o sujeito se por um acaso tinha algum outro quarto disponível. Até havia, com quatro camas, no andar de cima. Mas só estaria disponível para a noite seguinte.

O jeito então foi pagar e nos preparar para tomar banho. Enquanto isso eu tentava, com o cérebro esgotado, não surtar. Em pleno agosto, pensei, vai ser impossível achar qualquer coisa de última hora. Eu estava refletindo sobre isso quando o Matheus volta do banheiro com uma cara de quem vai assassinar alguém: “Não importa o tamanho do prejuízo. Pago o quanto precisar, mas nesse lugar eu não fico”.

Eu perguntei o que tinha acontecido no banheiro para despertar tamanho ódio e a resposta foi mais ou menos essa: “Pêlos. Eu nunca vi tantos pelos na vida. Se eu fosse você não entrava lá”. Mas eu, no meu espírito eterno de eu-já-morei-na-Índia e na necessidade extrema de um banho, falei para ele procurar na internet se achava algum lugar enquanto eu me aventurava pelo tal banheiro, o único do apartamento, dividido com no mínimo 16 pessoas.

Veja bem, como disse, eu já morei na Índia. Já fiquei em incontáveis hotéis-muquifo nessa vida. Daqueles que a água congela no cano ou que a parede tem manchas vermelhas bastante semelhantes a uma cena de crime. Com isso, posso afirmar, sem sentir que eu estou exagerando, que a quantidade de pelos no chão daquele box ultrapassava o nível aceitável para seres humanos. Era provável que o Primo Itt, da Família Adams, estivesse hospedado com a gente e eu perdi a chance de encontrá-lo para uma selfie.

Tomei um banho mais ou menos e saí do banheiro pronta para descobrir o prejuízo que iríamos ter. Encontramos um hostel com quarto privativo bem no centro histórico da cidade. Mas depois daquela experiência terrível, decidimos ir lá conferir o estado do local antes de fazer a troca definitiva. Assim, deixamos as nossas malas para trás no hostel-muquifo e fomos, debaixo de chuva e sem internet, tentar encontrar o local anunciado no site.

Quando finalmente encontramos o local (Freedom Hostel Budva, #ficaadica), uma chama de luz acendeu no meu coração. O tal hostel era um lugar ótimo, com pessoas normais. Porém, não tinha ninguém na recepção e, enquanto esperávamos, chegaram duas pessoas perdidas e também querendo falar com o staff. Olhei para aquilo em desespero e falei discretamente: “Esquece a gente ver o quarto antes, faz essa reserva aí pelo celular mesmo, usa o wifi do hostel”. E ainda bem que fizemos isso, porque 15 minutos depois, quando chegou o moço da recepção, a dupla mal educada tentou passar na nossa frente e pedir um quarto disponível. Mas felizmente já tínhamos feito a reserva, o que eu anunciei com um sorrisinho de vitória no rosto.

O quarto, afinal, era ótimo. Nos restava então a tarefa final, que era subir todo o morro até o muquifo, buscar nossas malas e tentar recuperar pelo menos uma parte do dinheiro pago. Quem nos atendeu dessa segunda vez era uma moça que estava ali no esquema Workaway. Ela tentou nos convencer a ficar (sem muito afinco) e concordou em nos devolver metade de grana, mais o imposto da cidade. Sem querer, deixei cair o papel do hostel que trocamos e ela viu e comentou: “Ah, vocês acharam um lugar bem melhor, eu conheço lá”.

Quando finalmente nos instalamos, com malas e um banho de verdade, já eram umas 19h30 da noite. Não tínhamos comido nada, ou visto nada da cidade. No dia seguinte, passeamos o que podíamos e juramos voltar a Montenegro e à bela Budva em breve. E de preferência sem levar Murphy na bagagem.

budva montenegro

ps. Não vou contar aqui o nome do hostel-muquifo porque assumo a mea culpa do erro na hora da reserva. Atualmente eu acho que, na confusão das reservas para uma viagem de um mês, escolhi o link errado sem querer. Minha dica é que vocês sempre reservem lugares com nota acima de 8 no Booking. 

Sou jornalista, tenho 29 anos e moro no Porto, Portugal, quando não estou viajando. Eu já larguei meu emprego três vezes para viajar e finalmente encontrei uma profissão que me permite “morar no aeroporto”. Já tive casa em quatro países diferentes, dei a volta ao mundo e cumpri minha meta de visitar 30 países antes dos 30. Mas o mundo é muito maior e, se puder, quero conhecer cada canto dele e inspirar vocês a fazer o mesmo. Siga @afluiza no Instagram

2 comentários em Desventuras em série em Montenegro

  1. Ahahaha, me desculpe rir da desgraça alheia mas aparentemente foi daquelas experiências tragicômicas.

    Luiza pelo pouco que viram lá em Montenegro o que acharam do custo das coisas? Estou pensando em morar durante mais ou menos 1 mês.

Deixe um comentário

RBBV - Rede Brasileira de Blogueiros de Viagem
ABBV - Associação Brasileira de Blogs de Viagem

Parceiros: