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Atlas: Noruega

A Noruega é mesmo um paraíso da diversidade?

A história começa em um bar forrado de pelúcia rosa até o teto em Berlim. Cheguei no Roses, como fazia quase toda quinta-feira quando morava na capital alemã, e me sentei em uma mesa. Dali a pouco cola um casal meio extravagante e pergunta se pode se sentar comigo. Algumas biritas depois, surge o convite de boteco: “vai visitar a gente, moramos em Trondheim, no norte da Noruega!”. Brindamos à ideia e no dia seguinte eu comprei as passagens. Recuperados de sobriedade, talvez a Siv e o Sveinung tenham se arrependido, mas já era tarde. Algumas semanas depois eu desembarcava em Oslo.

Trondheim é uma cidade de 170 mil habitantes (cidadezona para os padrões noruegueses), nas bordas do Círculo Polar Ártico. Levei 9 horas de trem para percorrer o trajeto entre a capital do país e Trondheim. Ainda meio incrédula, Siv me recebeu na estação: eles estavam superfelizes e ansiosos para me apresentaram seus amigos e amigas. Logo entendi que eles constituíam uma comunidade LGBTQI+ informal por lá, e o bar que possuíam era como um gueto das minorias.

Veja também: Para que serve uma coluna LGBTQI+?  
Deixa as bichas gritarem gol!

Entre um trago e outro de uma bebida de nome impronunciável e teor alcoólico que só os povos do norte são capazes de engolir, conheci a mulher trans Victoria Fjellberg. De traços muito delicados e tímida no início, aos poucos ela foi se abrindo. Conversamos bastante sobre o assunto e relatei minha impressão de que a Noruega era evoluída em questões de gêneros. Sim, o casamento igualitário é lei desde 2009 e também é crime ofender alguém baseado em sua sexualidade. Mas Victoria me contou que a medida, por exemplo, não vale para pessoas trans, as mais vulneráveis a ataques. Descobri que o paraíso não existe.

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Victoria

Já contei nesta coluna um pouco sobre como é ser gay na Rússia, na Tailândia, e na louca Berlim, e por isso decidi retomar essa série e entrevistei a Victoria para relatar um pouco mais sobre a não-tão-maravilhosa-quanto-imaginamos Noruega. Tudo bem, estão a anos-luz da Rússia e ela diz que hoje em dia é difícil ouvir falar em crimes de ódio e bullying por lá. “Mas pode ser só minha idade e o fato de não estar próxima dos mais jovens”, diz.

Victoria conta que um primo ainda vive na pequena cidade de Svolvær, de 4 mil habitantes. Ele acaba de sair do armário e foi bem recebido pela família e os amigos. “Mas, para mim, não foi assim”. Desde criança ela era um garoto afeminado, e, à medida crescia, as provocações ficavam cada vez mais sérias.

“Eu não podia caminhar da escola até a minha casa sem ter pelo menos três carros me seguindo e as pessoas gritando insultos contra mim”

Uma vez um homem a atacou com uma garrafa, e depois de anos de perseguição Victoria acabou desenvolvendo problemas de ansiedade severa que a assombram até hoje.

Aos 18 ela decidiria se mudar para Trondheim, onde nos conhecemos, para experimentar o processo de transição — que só conseguiu dar início depois de dois anos na cidade maior e com uma rede de suporte. “Comprei meu primeiro vestido em uma viagem a Paris, em um mercado de roupas vintage nos fundos de uma igreja”. Levaria mais um ano até que ela se apresentasse como mulher o tempo todo. Desde o começo Victoria já era socialmente vista como mulher, e sentiu as coisas mudarem. “Estranhos passaram a me tratar diferente, homens seguravam a porta para mim e faziam pequenas gentilezas”.

Quando finalmente voltou à sua cidade para uma visita, encontrou total apoio na família e amigos (até da avó de 92 anos). Alguns de seus bulliers a procuraram para pedir desculpas. “Acho que sempre vai ser menos difícil em uma cidade maior por encontrar diversidade e conseguir criar um espaço seguro para você”. Victoria faz a ressalva que hoje, até em sua reduzida comunidade, há um sacerdote gay e uma lésbica. “As coisas mudaram”, comemora.

Por outro lado, lembra que discursos de ódio crescentes em diversos lugares do mundo também ressoam na Noruega. Recentemente, um pequeno grupo extremista chamado TERFS ganhou atenção na mídia local criticando a presença de pessoas trans em banheiros e vestiários com outras pessoas cisgêneras. Seja no Brasil, Rússia ou Noruega, o caminho é longo.


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Victor Gouvêa

Meu pai sempre me disse que a melhor coisa da vida era viajar. Eu acreditei. Misturei as formações em Turismo e Jornalismo para viver de viajar e contar tudinho. Parti de uma cidadela de 30 mil habitantes para morar em SP, EUA e Alemanha, visitar mais de 40 países (e contando) e acumular as histórias mais malucas.

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