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Atlas: San Marino

Coronavírus: o trabalho de uma enfermeira em meio à pandemia em San Marino

A Itália é um dos epicentros da epidemia de Covid-19. Com o alto número de casos e mortes no país, que chama a atenção nos noticiários, é fácil esquecer que no norte da Itália existe uma micronação, o Estado de San Marino, com pouco mais de 30 mil habitantes, que também está sofrendo com o coronavírus.

Por ser um país tão pequeno, San Marino é o que mais tem mortos pelo novo coronavírus no mundo. Em números proporcionais, até o dia 10 de abril: são 1002 mortos para cada um milhão de habitantes. Na Itália e nos EUA essa taxa está em 302 e 50 mortes, respectivamente.

É em San Marino que vive e trabalha a enfermeira Priscila Moreira, nossa entrevistada da Vozes. Formada pela PUC Minas, ela atua nos serviços de saúde europeus desde 2010 e hoje está na linha de frente contra o coronavírus na micronação.

A vida da Priscila mudou quando o primeiro caso de contaminação por coronavírus atingiu o país. “Desde o dia 25 de fevereiro, data do primeiro caso de coronavírus em San Marino, faço parte do grupo de trabalho do Covid-19. No grupo, nos ocupamos da sondagem epidemiológica, que seria indagar com quem o paciente positivo teve contato direto nos 14 dias anteriores à positividade do teste, contactar todas essas pessoas e colocá-las em isolamento obrigatório em casa. Preparamos a base de dados para a polícia civil, que se ocupa de controlar todos os dias que estas pessoas não saiam de casa, nem mesmo para ir ao supermercado. Alguém externamente, como um vizinho ou um parente, deve fazer as compras durante o período”, explica ela. san marino micronação coronavírus

Conhecendo San Marino

Apesar de ser um território cercado pela Itália, San Marino – que é um dos 193 países da ONU – é considerado o Estado Nacional mais antigo do mundo: reza a lenda que o país foi fundado em 3 de setembro de 301.

A população hoje goza de grande qualidade de vida: San Marino tem uma das maiores rendas per capita da Europa, de cerca de 55 mil dólares. E é o turismo um dos principais motores da economia, já que  aproximadamente três milhões de pessoas visitam o país por ano. Como comparação, esse número equivale a metade do que todo o Brasil recebe anualmente.

“O sistema de saúde daqui é um dos melhores que eu já vi. Ele é universal e gratuito. E a gratuidade é completa. Ou seja, de qualquer tipo de remédio que o paciente precisar e de qualquer tipo de assistência. As pessoas daqui são muito privilegiadas em questão de saúde. Ela é mantida e defendida por toda a classe política e eles querem manter esse nível a todo custo – e espero que eles consigam. Digamos que, no final das contas, é um sistema de saúde que custa muito, né? Mas que traz muita qualidade de vida de tratamento de saúde para todos os cidadãos”, descreve Priscila.

mapa da itália incluindo san marino

Preparação para o primeiro caso de coronavírus em San Marino

Por ter começado na China em dezembro e só chegado na Europa em fevereiro, o sistema de saúde de San Marino teve algum tempo pra se preparar para a operação de guerra que estava vindo.

“Sabíamos do caso da China, tínhamos já preparado um plano para cuidar de um paciente com suspeita da Covid-19, mas o primeiro plano sofreu grandes modificações”. É que o primeiro caso foi inesperado, de

um idoso que foi passear em Rimini, uma cidade italiana vizinha. “Isto quis dizer que o vírus já estava disseminado e em 10 dias metade do hospital já estava tomado por pacientes positivos para Covid-19”.

Durante a pandemia, Priscila destaca o trabalho que tem sido feito dentro do hospital e por todo o sistema de Saúde de San Marino. “Um trabalho incrível do pessoal da saúde, que transformaram o hospital, fecharam diversos serviços, deixaram o básico. E, mesmo assim, nós ainda nos encontramos nessa situação, até agora os casos não começaram a diminuir”.

Ela conta que a pandemia gerou um grande impacto social na micronação. “O sistema de saúde saturou. Todos os leitos estão ocupados, mesmo abrindo novos. A terapia intensiva também cresceu e continua cheia. Não é fácil comprar o material necessário neste momento, porque o mundo todo está comprando”.

ruas

Como a Priscilla se tornou enfermeira em San Marino

A Priscila mora em San Marino com o marido, o Fabrizio, que é italiano, e a filha do casal, a Teresa. Mas o processo para poder trabalhar lá como enfermeira foi longo.

Quando se mudou para a Europa, em 2010, o primeiro passo foi aprender a língua e revalidar o diploma. “Eu comecei a me informar para saber como que eu ia validar meu diploma aqui. A primeira coisa que eu fiz foi me inscrever em um curso de italiano. Eu já sabia falar um pouquinho, mas bem pouco, e aqui na Itália eles proporcionam cursos de italiano grátis para estrangeiros. Então eu estudava a maior parte do meu tempo e isso me ocupava muito bem”.

Segundo a Priscila, revalidar o diploma não foi fácil, pois a Itália é um país muito burocrático, assim como Brasil – ela precisou de dois anos para isso.  E foram dois anos muito intensos, onde ela e o marido estavam construindo a relação, preparando a casa deles, trabalhando e estudando.

Nesse meio tempo, ela teve que voltar para a universidade, para poder “pagar” algumas matérias e fazer muitas horas de estágio. Com tudo pronto, era preciso entender como funcionava San Marino e arrumar um emprego.

“No meu trabalho, no dia a dia, eu faço parte de um grupo de coordenação para quando o paciente tem alta do hospital, pois ele é um paciente frágil, que precisa ser seguido em casa. Então a nossa rotina é preparar a casa para quando essa pessoa voltar, ativar os serviços de enfermagem, de auxiliares de enfermagem, que podem acudir essas pessoas em casa, cuidadoras, estrutura até mesmo material que o paciente precisa. A minha rotina era muito tranquila, pois o horário de trabalho começava às 8 horas e por volta de 15h30, 16h, eu já estava livre para poder retomar à vida de casa, buscar minha filha na escola, preparar as coisas”.

enfermeira san marino coronavírus

Mudanças na rotina de San Marino com a pandemia de coronavírus

Apesar do país estar em isolamento, as horas fora de casa da Priscilla e do marido só aumentaram – ele também trabalha na área de saúde. “Durante três semanas, o Fabrizio ficou em casa com a nossa filha, porque os ambulatórios de dermatologia foram fechados para consultas de rotina, assim como várias outras especialidades. Mas, para colaborar durante este momento, ele começou a fazer o que chamamos de continuação assistencial.

São médicos gerais que atendem à população durante os horários que os ambulatórios e centros de saúde estão fechados. Neste momento em que população tem medo e tantas dúvidas, eles recebem muitas ligações e pedidos de consultas. Sem contar que San Marino é um país com um número muito elevado de idosos”.

Até o dia 10 de abril, San Marino tinha 344 casos confirmados da Covid-19. Veja os números atualizados do coronavírus em San Marino e no mundo. O trabalho para salvar vidas é contínuo, exaustante e não pode parar. “Antes, eu trabalhava todos os dias, das 8h às 15h30, deixava a Teresa na escolinha e podia buscá-la tranquilamente, depois da merenda da tarde. Agora, saio às 8h da manha e não tenho hora pra voltar. Normalmente chego em casa por volta das 18h ou 19h e seguiremos assim o quanto for necessário”.

É uma nova rotina dentro do caos, pra todo mundo, no mundo inteiro. “Trabalhamos sem cessar, levo o almoço para não perder tempo. No hospital tudo fechou, café só na máquina e por aí vai. O nível de tensão e o estresse é alto, mas o sentimento de trabalho de grupo está superando tudo isto”.

vista aérea

O emocional de uma micronação durante uma pandemia

“Por ser um país pequeno, San Marino funciona como uma cidade pequena, todas as pessoas se conhecem. Então a gente conhece muitas pessoas que foram infectadas e muitas que infelizmente morreram durante esse percurso, nesse último mês. A população tem medo e está respeitando bem as ordens do estado.

A gente tem um grupo de médicos e enfermeiros que contactam essas pessoas que estão em casa. Todos os dias, eles entram em contato para saber o estado de saúde delas e se elas precisam de algo, a gente tem uma equipe que vai em casa para poder ajudar essas pessoas. Até mesmo para poder levar as compras de supermercado, por exemplo. Porque eles não podem sair de casa.

Os idosos têm medo, muito medo, porque a gente tem um índice de morte mais elevado, né? Talvez porque a gente tenha uma população ainda mais velha do que do que a da Itália. Eles estão em casa, pedem ajuda externa só de pessoas que podem cuidar deles com os dispositivos necessários. Mas digamos que eles estão bem disciplinados, não saem de casa e respeitam também todas as ordens de restrição”.

O nível emocional, é claro, tem afetado bastante a população, principalmente quem está diretamente envolvido no combate à pandemia.

“Realmente tem muito estresse, muito cansaço, de todos, porque já passou mais de um mês que a gente tá nessa situação, mas a estrutura foi muito bem formada. O governo de San Marino tem estimulado a população a espalhar a bandeira nas ruas, nas fachadas das casas, dando um sentimento de união no país.

Esse sentimento de união é geral mesmo, seja das pessoas que estão trabalhando, até mesmo as pessoas que estão em casa. San Marino já é um país com uma população muito nacionalista, muito mesmo. Você sente esse orgulho que eles têm do país deles e do que eles construíram durante todo o ano, em qualquer momento”.
italia san marino

“Tudo pode mudar na vida em questão de dias, de semanas”

Priscila, que é de Minas Gerais, conta que a experiência dela em San Marino tem servido para alertar familiares e conhecidos aqui no Brasil. “O que eu estou vivendo aqui ajudou eles a entenderem a gravidade e em como que isso pode crescer, como que tudo pode mudar na vida em questão de dias, de semanas”.

E completa: “Fiquem em casa, fiquem em casa e fiquem em casa… Não é fácil, tem muitas consequências econômicas, políticas e sociais, mas é o único modo de diminuir a velocidade da transmissão. Não visitem amigos ou parentes. Os meios de comunicação estão aqui para nos ajudar a nos mantermos pertinhos. Lavem sempre as mãos, limpem constantemente a casa e não se esqueçam de deixar os calçados de fora da porta”.

Priscila já espalhou o recado, mas é sempre bom lembrar que quando uma pessoa no Brasil apresentar sintomas respiratórios – febre, tosse, dor de garganta ou dificuldade para respirar – a(o) médica(o) vai prescrever o isolamento, emitir o atestado para o doente e todas as pessoas que residem no mesmo domicílio (mesmo que não apresentem sintomas) por 14 dias, conforme a Portaria Nº 356 de 11 de março de 2020.

Enquanto a luz no fim do túnel não aparece, o jeito é torcer por dias melhores. “Ainda não temos nenhuma condição para pensar no fim deste momento. Estamos trabalhando muito e as regras são rígidas, mas os números ainda não demonstram uma diminuição dos contágios. Mas não vamos desistir ou perder forças!”.

A Vozes

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Fernanda Pádua

Tenho BH como meu ponto de partida e o meu porto seguro. Entrei pela primeira vez em um estádio de futebol aos 10 anos e ali descobri que queria ser jornalista. 20 anos depois, me tornei repórter esportiva e viajante nas horas vagas. Fiz intercâmbio na Irlanda em 2016/2017, pra estudar inglês. Tenho um objetivo de visitar todos os estados brasileiros e metade dos países do mundo e já percorri boa parte do trajeto, mas várias histórias e paisagens legais ainda estão por vir.

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Um comentário sobre o texto “Coronavírus: o trabalho de uma enfermeira em meio à pandemia em San Marino

  1. Olá, sempre é bom estar por dentro das notícias pelo mundo. Gosto de ler e aprender.
    Parabéns a enfermeira Priscila e marido. São guerreiros! Deus os abençoe e proteja sua família.
    Também tenho planos para viajar. Fazer um Cruzeiro nas Ilhas Gregas. É um sonho antigo.
    Se Deus permitir, um dia conhecerei a Grécia. A Itália é linda! Espero um dia conhecer a Região Toscana da Itália.
    E tem tantos outros países lindos. A Islândia, Canadá, Inglaterra, Escócia,…
    Por enquanto vou viajando pela internet até esta crise passar. Tomara que passe logo!

    Att
    Neila

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