Alcântara: roteiro de bate-volta a partir de São Luís

Era para ser fácil. Alcântara, um vilarejo colonial que parou no tempo, está a apenas 1h20 de barco de São Luís. Esse é o bate-volta ideal para quem vai passar mais dias por lá antes de seguir para os lençóis. Casinhas de estilo português, ruas de pedra, azulejos, construções que exalam os marcos do passado e uma área histórica mais conservada e agradável que a da capital.

No entanto, nossa visita por pouco não foi frustrada. No meio de um feriado prolongado e com a cidade vazia, não havia forma fácil de chegar até o outro lado da Baía de São Marcos, onde fica o vilarejo. Em geral, o acesso se dá por barcos ou catamarãs que saem do Cais Praia Grande, no Centro Histórico de São Luís, pertinho do terminal de ônibus. Os horários mudam de acordo com a maré, mas, em geral, há um catamarã que deixa a capital pela manhã (entre 7h e 10h) e um que retorna de Alcântara por volta das 16h. Nesse dia fatídico, nenhum barco ia fazer o trajeto.

Veja também: Onde ficar em São Luís, no Maranhão

Casas em Alcântara (MA)

“Vocês podem ir de carro, pegar a balsa e na volta pegar o catamarã que sai de lá às quatro”, sugeriu um senhor que trabalhava por ali. Foi ele quem nos informou desse meio de transporte alternativo.

“Pra voltar tem?”

“Tem. Pra voltar sempre tem, ficar lá vocês não ficam.”

Não preciso nem dizer que não tinha catamarã para voltar coisa nenhuma, né?

Ainda que fosse verdade e nossa volta estivesse garantida, nós não tínhamos carro para chegar até o Terminal da Ponta da Espera, local de saída das balsas, a cerca de 20 minutos de estrada dali. Por sorte, um casal de viajantes que estava com o mesmo problema nos ofereceu carona. O problema é que todo mundo na cidade teve a mesma ideia e, ao chegarmos ao terminal de balsas, enfrentamos mais uma hora de fila debaixo do sol antes de embarcar.

Assim, a viagem a Alcântara, que deveria ter durado apenas 1h20 e alguns balanços, nos tomou três horas. Quando desembarcamos do outro lado da baía, no Porto Cujupe, foram mais 50 minutos de estrada até, finalmente, vislumbrarmos as simpáticas casinhas da cidade.

Ruas de Alcântara, Maranhão

Enfim, Alcântara

Depois da saga, o encantamento. Alcântara é o tipo de destino turístico pelo qual eu me apaixono. Pequenina, rústica e charmosa, cheia de histórias para contar. Mas faltava alguma coisa. Depois de perambular um pouco pelas ruelas, percebemos que não havia nada aberto na cidade e que eram poucas  as pessoas que se aventuravam pelas ruas. Não sei se é assim em qualquer feriado ou se o fato de ser Sexta-Feira da Paixão contribuiu para deixar a cidade deserta.

Crianças em Alcântara, Maranhão

Entre os séculos 18 e 19, Alcântara foi uma das cidades mais ricas do Maranhão. Suas ruas já viram barões, escravos, palacetes e sinhás que se emperequetavam para a missa. Teve até uma disputa de gente rica para ver quem construía a casa mais digna de receber Dom Pedro II, que, por sinal, nunca deu as caras por lá. Depois da abolição da escravatura, a cidade entrou em decadência e tudo o que resta desse passado são as ruínas, as memórias que atravessam gerações e a vida pacata de um interior esquecido.

Alcântara, Maranhão

Mesmo com tudo fechado, deu para perceber que estrutura turística não é o forte da região, um problema que eu também notei no Centro Histórico de São Luís. Não espere encontrar restaurantes e bares charmosos, lojas de souvenirs ou objetos de arte e decoração, a exemplo do que acontece em outros destinos semelhantes no Brasil e no exterior.

Entre os principais atrativos locais, estão as próprias construções históricas. A Igreja do Carmo, considerada a mais bonita e importante da cidade, foi construída em estilo barroco, no século 17, e possui painéis internos formados de azulejos portugueses.

Igreja do Carmo, em Alcântara (MA)

A Igreja do Carmo fica na Rua Grande. Ali do lado, você vai notar algumas ruínas e casarões que pertenciam ao pessoal mais abastado. As ruínas são dos palecetes que seriam construídos para receber o Imperador e que acabaram causando a discórdia entre dois senhores podres de ricos.

Ruínas em Alcântara, bate-volta de São Luís

Subindo a Rua Grande, em um descampado próximo dali, está a Matriz de São Matias, uma construção de século 17 que nunca foi concluída, ainda que, no passado, tenha sido usada assim mesmo pelos habitantes para celebrar missas e outros tipos de atividades religiosas.

Matriz de São Mateus, Alcântara (MA)

Quase em frente ao descampado, há uma ruela cheia de história. É a Rua da Amargura, onde costumavam viver alguns senhores bem de vida. Ali também ficam as ruínas do Palácio Negro, local onde os escravos eram comercializados. Não se sabe ao certo a origem do nome da rua. Alguns dizem que é porque esse era o caminho que os escravos faziam antes de sofrerem castigos corporais. Outros afirmam que é porque era ali que as mães davam adeus aos filhos que iam estudar em Lisboa.

Rua da Amargura, Alcântara (MA)

Descendo a ladeira do Jacaré em direção ao Porto, você vai encontrar também a pequena e bucólica Igreja do Desterro. Uma igrejinha branca, com um sino na porta, localizada em uma rua simpática. Diz a lenda que quem fizer um pedido e tocar o sino três vezes terá seu desejo realizado. É um ótimo lugar pra tirar fotos, pois há uma boa vista para a Ilha do Livramento.

Sino da Igreja do Desterro, em Alcântara (MA)

Mas valeu a pena o esforço de chegar até lá, mesmo encontrando tudo fechado? O grande atrativo de cidadezinhas como essa é mesmo perambular pelas ruas, fotografar as ruelas, ver as ruínas e a vida local. Para isso não existe dia ruim. Claro, se você puder evitar ir em um feriado (ainda mais um feriado religioso desses), melhor. Não era nosso caso. E eu ainda acredito que a melhor ocasião é aquela que você tem.

Alcântara - MA - Varais nas ruas

Casa em Alcantara (MA)

Parada no tempo, mas nem tanto

Se o nome Alcântara não te é estranho, pode ser porque você já ouviu sobre o lugar nos noticiários de ciência e tecnologia. É que essa cidadezinha que mais parece ter saído do capítulo “Brasil Colônia” do seu livro de história serve de base de lançamento de foguetes do Programa Espacial Brasileiro.

O lugar foi escolhido por sua posição privilegiada, a apenas dois graus da linha do Equador. Essa localização é ideal para atividades desse tipo, pois gera uma economia de até 40% no combustível. A base não está aberta para visitação, mas você pode ter contato com essa história e conhecer melhor o Programa Espacial Brasileiro em um pequeno centro de interpretação do CLA (Centro de Lançamento de Alcântara), na praça Nossa Senhora do Rosário. Ali, estão expostas maquetes e protótipos dos foguetes. A entrada é gratuita.

Serviço – Como chegar em Alcântara

Pessoas em Alcântara, Maranhão

Como os horários dos barcos e catamarãs podem variar a cada dia, a melhor forma de planejar sua visita é ligando para o Terminal Hidroviário (98 3232 0692) no dia anterior ou antes de sair de casa. Ainda assim, programe-se para chegar cedo no Cais Praia Grande. Quem vai por esse meio desembarca no Porto do Jacaré, pertinho do centro da cidade. Ali mesmo, é possível contratar guias, que aguardam o desembarque dos turistas, para um tour guiado por Alcântara. A travessia deve sair em torno de R$15.

Já se você precisar fazer como eu e ir de balsa, partindo do Terminal Ponta da Espera até Cujupe, pode consultar preços e horários de saída aqui.


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Natália Becattini

Jornalista, escritora e mochileira. Viajo o mundo em busca de histórias e de cervejas locais. Já chamei muito lugar de casa, mas é pra BH que eu sempre volto. Além do 360, mantenho uma newsletter inconstante, a Vírgulas Rebeldes, na qual publico crônicas e contos . Siga também no instagram @natybecattini e no twitter.

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15 comentários sobre o texto “Alcântara: roteiro de bate-volta a partir de São Luís

  1. Natália, a Igreja de São Matias foi a pique com um incêndio, conforme a palavra de um guia em agosto passado, quando lá estive. Sinceramente não sei da veracidade. Mas, a cidade é encantadora e cheia de mistérios.

  2. Fui nesse fim de semana em Alcântara. Simplismente amei!!!! Na verdade ja conhecia rsrs mas acredito que não custava visitar novamente. Agradeço aos comentários da Natalia, realmente foi de grande utilidade. Gostaria de falar duas coisas, apenas atualizar o valor da passagem, agora custa 15,00 e falar do restaurante da Eugênia que almocei. O restaurante fica perto do cais, assim que vc desce do barco ja da pra ver o restaurante, lá você pode beber suco de bacuri, murici ou cupuaçu que são típicos da região, mas tem de maracujá e acerola rsrs. Depois que conheci a cidade, almocei lá, paguei por uma peixada “pescada maranhense” 75,00 para 5 pessoas, eramos em 4 comemos muito e ainda sobrou. Fomos atendido pela figura do Álvares, um amor de pessoa. E pela culpa do Álvaro, passamos a noite em Alcântara. Isso pelo “atendimento”. Fomos muito bem recebidos e no domingo era aniversário da Eugênia “dona do restaurante” fomos convidados pra festa de aniversário dela rsr, regado a churrasco, frango, camarão. … Fomos tratados como pessoas da família. Gente, enfim…. passaria a noite raagando seda pra Eugênia, se vc for lá, mande um abraço. Lídia do Sebrae-SP. Abraços

    1. Lídia, só pelo seu belo “post”, irei com um amigo, visitar o restaurante da D. Eugênia e sim, daremos um abraço nela, por você!
      Thanks!
      William Felipe, Prof. de Inglês, Natal/RN>

  3. Dicas muito boas e valiosas! As imagens são lindas…Parabéns pelo blog!
    Moro em São José de Ribamar, município da grande São Luís. Porém, nunca fui a Alcântara. Nosso MA é riquíssimo em beleza, em história, no seu povo batalhador!

  4. Kkkkkkk sou de são luis e viajava muito pelo ferry, já que trabalhava no interior do estado… Já ajudei muito turista perdido querendo ir para Alcântara! !! Gringos então. . Totalmente perdidos, com português precário e raros os que falam inglês e que podem ajudar. .. mas vale a pena!

    1. hahah mas me conta: você perdia 3 horas para atravessar todo dia? Ou é porque era feriado que a fila ficou enorme?

      Abraços!

      1. Na verdade era toda segunda e toda sexta… trabalhava no Interior e ia toda semana… sempre com atrasos nas viagens, mas ultimamente o procon ma tá dando pressão e o serviço tem melhorado, pelo menos foi o que me falaram. Pelo menos o visual é incrível,principalmente ao amanhecer e entardecer, dava pra relaxar antes de pegar a estrada ou chegar em casa depois da semana cheia…quanto a fila é sempre grande, nos feriados fica impossível, pelo fato de São Luís ser uma ilha(coisa que quase ninguém do Brasil sabe), só existe 3 saídas, uma ponte, avião ou o ferryboat!

      2. Moro em São Luís e viajo muito para essa região pelo ferry boat. Vcs devem ter demorado isso tudo pq estavam na fila de espera do transporte. Essa fila é para quem não reservou a vaga comprando a passagem com antecedência e por isso nos feriados fica enorme.

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